Crítica

Ramerrame ilustrativo

Há na história de Os Desastres de Sofia um lado sado-maso, que a tornaria apetecível nas mãos de um grande cineasta perverso. Honoré não é grande cineasta nem é perverso.

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Os Desastres de Sofia: ramerrame ilustrativo meramente sofrível
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Já o anterior filme de Christophe Honoré, uma adaptação para a época contemporânea das Metamorfoses de Ovídio, indiciava sinais de esgotamento de um cineasta que, depois de ter entrado no cinema a adaptar Bataille (Ma Mère) e a mimar a nouvelle vague (Dans Paris, As Canções de Amor), parecia remetido aos efeitos e singularidades da adaptação, como se a filme baseado em Ovídio bastasse a ideia (que, de facto, é singular).

Singular também é ir buscar a Condessa de Ségur, escritora que parece um bocado fora de moda mas que animou a infância e adolescência de muitas gerações, e se não fazemos ideia de como é a dieta literária do escalão infanto-juvenil contemporâneo, é certo que quem cresceu nos anos 70 e 80 ainda se entusiasmou com os livros da Condessa, em particular com este “clássico” dos Desastres de Sofia.

Há na história um lado, como dizer?, sado-maso, que a tornaria especialmente apetecível nas mãos de um grande cineasta perverso, um Oliveira, um Buñuel. Honoré não é nada disso, nem é um grande cineasta nem é perverso, e a sua abordagem do livro tem qualquer coisa de “oficial”, como uma “versão audiovisual” a que facilmente imaginamos a benção das escolas e dos educadores enquanto material de estudo para a sala de aula. O que vale por dizer que é mesmo um filme virado para um público juvenil, sem sabotagens nenhumas. Se isso até diz alguma coisa sobre a elasticidade de Honoré, capaz de passar com naturalidade das ambiguidades sexuais das Metamorfoses ao universo infantil, depois Os Desastres de Sofia vive num ramerrame ilustrativo que é meramente sofrível, animado por alguns truques que parecem estar lá para “compensar” o espectador adulto (umas pinceladas a lembrar clássicos das pintura francesa) ou para “actualizar” o espírito do livro (as cançonetas de uma pop levezinha, muito “francesa”, espalhadas pelo filme).

Enfim, resulta decepcionante, espécie de super-filme didáctico, desprovido de uma chama realmente acesa.