Sócio da Livraria Lello compra prédio da histórica Confeitaria Serrana

Além da Confeitaria Serrana, a Pensão Douro e a Casa Arcozelo são os outros estabelecimentos que fazem parte dos prédios comprados por Pedro Pinto. Inquilinos temem pelo futuro.

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A confeitaria Serrana Manuel Roberto
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A confeitaria Serrana Manuel Roberto

O empresário Pedro Pinto, sócio da Livraria Lello, comprou cinco prédios na Rua do Loureiro, no Porto, onde estão situadas a Pensão Douro, a Confeitaria Serrana, a Casa Arcozelo. Numa altura em que investidores estão a comprar imóveis na baixa do Porto, em vários casos para os transformar em hóteis, os inquilinos mostram-se preocupados com o futuro dos seus negócios, mas Pedro Pinto afirma que não tem planos para o espaço. “Apoio por gostar da área e por querer investir”, explicou.

Contactado pelo PÚBLICO, o também administrador do centro empresarial Lionesa disse que“apenas foi substituída a pessoa a quem se paga a renda”, apontando que não tem “ainda qualquer ideia para desenvolver”. “Qualquer outro projecto que venha a surgir será uma consequência deste acto", acrescentou lacónico.

Apesar desta declaração do proprietário, os arrendatários mostram-se receosos com o que virá a seguir. Os donos da Pensão Douro e da Confeitaria Serrana percebem a importância da reabilitação da cidade, mas defendem que “é preciso haver um equilíbrio”. “O turista também quer o tradicional”, explicam, relembrando situações em que lhes pediram indicações para restaurantes tipicamente portugueses.

Para já, os arrendatários receberam a visita de um arquitecto, enviado pelo novo proprietário. Falta agora perceber se a mudança de senhorio trará alguma mudança para os três negócios na rua junto à Estação de S. Bento.

Os arrendatários dos imóveis agora comprados asseguram que não foram informados sobre a venda dos prédios, de que tiveram conhecimento através de uma carta registada enviada pelo novo proprietário, na qual é referida apenas a mudança de dono, o novo NIB, para onde devem ser efectuados os pagamentos da renda, e um pedido para rever os termos dos contratos de arrendamento. Desta forma, acabaram por não poder exercer o direito de preferência previsto na lei, que lhes daria hipótese, se quisessem e pudessem, de serem eles a comprar os prédios. 

Os três arrendatários- Pensão Douro, Confeitaria Serrana e Casa Arcozelo - receberam a mesma carta, sendo que nenhuma delas veio acompanhada com documentos que comprovem a transferência da titularidade dos imóveis. A situação causou alguma estranheza, e, aconselhados juridicamente, aguardam por uma reunião com o novo proprietário para perceberem se podem ficar descansados em relação aos negócios que ali mantêm.  

A confeitaria Serrana, casa com mais de 70 anos, foi há pouco mais de um mês motivo de notícia no PÚBLICO por causa da degradação a que o seu interior tem sido sujeito, dado o crescente afluxo de turistas. O estabelecimento é famoso pelo belo varandim em ferro do primeiro piso e pelos tectos desenhados por Acácio Lino que, todos os dias, chamam dezenas de visitantes. Mónica Oliveira, proprietária da Serrana, quer ver a confeitaria classificada como uma loja protegida no âmbito do programa Porto Tradição. “Nós somos os proprietários da confeitaria há 41 anos. Eu vim para aqui com cinco”, contabiliza, explicando que as rendas têm valores altos por toda a cidade e que prefere pagar mais a ter de sair dali.

Na porta ao lado, o dono da Pensão Douro acaba de fumar o cigarro à entrada enquanto os hóspedes vão entrando. Desde 2000 que está lá. “Sangue, suor e lágrimas” é assim que Victor, como prefere que o tratem, descreve a sua história com aquela casa. Mora lá com os dois filhos e fez obras há pouco tempo, apostando todo o dinheiro que tinha no negócio. “Eu sou o único que durmo aqui na rua”, afirma. Duas casas abaixo, do outro lado da Confeitaria Serrana, está a entrada na Casa Arcozelo, onde Manuel e a mulher vendem queijos e charcutaria. Se tiverem de fechar, não voltam a abrir casa noutro lado.

“Nós crescemos todos aqui”, insiste Mónica Oliveira, explicando que a história que todos têm com a rua é maior do que o interesse pelo negócio que ali mantêm.