Um clube que contornou tudo menos a desconfiança dos adeptos

O FCSB teve de mudar de nome e de emblema para sobreviver, mas no processo perdeu uma grande parte das suas bases de apoio. Com as claques há muito em rota de colisão com a direcção, o ambiente que hoje se espera em Bucareste será pouco mais do que tímido.

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Não é difícil encontrar nos Balcãs estádios inflamados por milhares de adeptos fervorosos, daqueles que resgatam a equipa do precipício quando a queda parece inevitável. Durante décadas a fio, o Steaua de Bucareste também os teve, e em grande número, independentemente dos jogos de poder que existiam entre as claques e das discussões sobre o grau de fidelidade de cada um dos apoiantes. A revolução que o maior clube da Roménia sofreu na última década e meia, porém, mudou a face da sua base de apoio. E o que o Sporting vai encontrar hoje, no Arena Nacional, já nada tem a ver com a envolvente do final do século passado.

Falar em adeptos divididos não será mais do que um eufemismo quando o tema é o FCSB. Sim, o FCSB e não o Steaua de Bucareste, sublinham os puristas. É que o clube que resultou do litígio judicial que opôs o actual proprietário, Gigi Becalia, ao Ministério da Defesa romeno, em 2014, sugere mais a ideia de refundação do que de uma simples reestruturação.

Em causa esteve mais do que um duelo pelo logótipo do Steaua (que significa estrela, em português). Quando o processo avançou para os tribunais, impulsionado pelo uso “abusivo” do emblema de uma colectividade que sempre esteve ligada ao exército, já há muito que a cisão entre direcção e massa associativa se tinha instalado. Gigi Becali, actual proprietário que começou por ser convidado a entrar na estrutura do clube na qualidade de mero investidor, está no centro do furacão.

Personalidade controversa na sociedade romena, o milionário (dono de várias empresas) que também já cumpriu pena de prisão por suspeitas de ter lesado o Estado num negócio imobiliário, fez soar os alarmes em 2003, ano em que tomou definitivamente as rédeas do Steaua. Duvidando das reais intenções do novo dono, muitos dos adeptos foram mostrando descontentamento e as claques corporizaram essa insatisfação com acções de protesto. Dentro do estádio (exibindo tarjas a exigir a saída de Becali) ou fora dele (coibindo-se de apoiar a equipa no recinto), a tentativa de grupos organizados como os Sud Steaua e os Nord Steaua pressionarem uma mudança na direcção não deu resultado.

“Há dois tipos de adeptos. Os ultras, aqueles que vão a todo o lado e mais algum pelo clube, e aqueles que não se importam realmente, que apenas pensam no clube durante 90 minutos a cada semana. Os ultras, os adeptos que se interessam verdadeiramente pelo clube, esses estão com o Steaua agora”, conta ao PÚBLICO um dos líderes da Asociatia Stelistilor 1947, um grupo de apoiantes que tenta ajudar o “lado B” do emblema que sobrou do diferendo a reerguer-se.

A questão é justamente essa. Com a confirmação da viabilidade do projecto de Becali, que relançou o clube com novo emblema e um novo nome (FCSB), uma porção significativa do património humano do Steaua sentiu-se traída e decidiu refundar a equipa que entende ser a legítima proprietária do logótipo, cores e palmarés da instituição. Para o efeito, impulsionou a inscrição da secção de futebol do exército romeno na quarta divisão da hierarquia romena, na esperança de iniciar uma caminhada progressiva rumo ao topo.

“Que não haja confusões. O FCSB não é o Steaua de Bucareste. Só os adeptos que não se importam com a identidade do clube o apoiam. Todos os outros estão com o CSA [Clube Desportivo da Armada] Steaua de Bucareste”, assinala o representante da Asociatia Stelistilor 1947, que preferiu o anonimato, lamentando esta separação: “É uma pena que as coisas tenham chegado a este ponto, mas é assim que estão”.

Este desencontro entre massa associativa e FCSB também é mensurável nas bancadas do Arena Nacional, estádio com capacidade para 55.634 pessoas que, no plano doméstico, só nos jogos de maior cartaz ultrapassa a casa dos 10.000 espectadores e que, nesta temporada, já contou com duas “casas” abaixo dos 6500 adeptos. Mesmo no contexto da Liga dos Campeões, já em 2017-18 a assistência no duelo com o Viktoria Plzen não foi além dos 33.795 espectadores.

Com as principais claques fora de órbita, resta ao FSCB nesta altura um grupo organizado bem mais reduzido do que as anteriores falanges de apoio, que dá pelo nome de Peluza Ros-Albastra. Isto porque a maioria dos adeptos decidiu abraçar outra causa, a do CSA. “Com o tempo, acreditamos que as pessoas se afastarão do FCSB e que, ou regressem ao Steaua, ou apoiem outras equipas. Mas, nesta altura, o importante é que os verdadeiros adeptos apoiam o CSA Steaua. E não estão cá apenas para dar apoio moral. Têm ajudado financeiramente”, expõe o membro da Asociatia Stelistilor 1947.

Steaua de Bucareste, um nome para duas realidades, para dois lados opostos da estrada. Um a trilhar um caminho pedregoso, ancorado na determinação e na aura do treinador Marius Lacatus, lendário jogador que ganhou a Taça dos Campeões Europeus pelo clube em 1986; o outro na alta roda europeia, à procura de um lugar na fase de grupos da Champions.