Estudo genético comprova migração para a Índia há cinco mil anos e instala a polémica

Uma equipa de cientistas liderada por portugueses encontrou marcas em genomas que revelam que há quatro ou cinco mil anos chegou à Índia um grupo de homens da Ásia Central. A informação estava “escondida” nas linhagens masculinas e está a causar controvérsia.

Estação de comboios em Bombaim
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Estação de comboios em Bombaim Arko Datta/REUTERS

O artigo científico é sobre o passado da Índia, mas a polémica instalada por causa das suas conclusões é bastante actual. A recente revelação de uma provável invasão de um grupo de homens vindos das estepes até ao Norte da Índia não foi bem aceite e tem sido duramente contestada por cientistas e académicos indianos. Pedro Soares, investigador na Universidade do Minho e autor do artigo publicado na revista BMC Evolutionary Biology, desabafa que este estudo inundou a sua caixa de correio electrónico “de mensagens ofensivas”. E não só. Esta é uma história sobre um artigo científico que resulta da análise e interpretação de dados genéticos, mas é também uma história que mostra que um resultado científico pode ser rejeitado por outras convicções.

Estudar o passado e mexer com a história e cultura de um país é um assunto que pode ser muito complicado. Mas vamos começar com os factos: Pedro Soares, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Universidade do Minho, foi um dos principais autores de um estudo que contou com a participação de cientistas de outras instituições em Portugal, no Reino Unido (Inglaterra, Escócia e País de Gales) e Austrália.

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O investigador Pedro Soares DR

O artigo partiu da análise de genomas completos actuais que tinham sido publicados em estudos anteriores, mas, sobretudo, de um conjunto de 500 genomas de indianos que foi tornado público por uma base de dados mundial, integrado num projecto internacional chamado Mil Genomas. Segundo explicou ao PÚBLICO, a equipa percebeu que as linhagens masculinas (que ainda não tinham sido alvo de nenhum estudo publicado até à data) escondiam marcas de uma invasão durante a Idade do Bronze, há quatro ou cinco mil anos. Nessa altura, um “grupo de homens provenientes da Ásia Central chegou à Índia e misturou-se com as mulheres locais”, conta Pedro Soares. “Eram homens pastoris, domesticadores de cavalos que falavam um ramo do indo-europeu, uma língua usada no hinduísmo clássico e que deu origem a outras que são faladas sobretudo no Norte e Centro da Índia.”

Apesar de nunca terem surgido provas desta invasão, a ideia não era nova. As análises feitas antes ao ADN mitocondrial (das mitocôndrias, estruturas fora do núcleo das células e transmitido apenas pela mãe) que permitem olhar para as linhagens femininas tinham encontrado alguns sinais desta mistura, mas não eram muito evidentes. “Até agora, os grandes estudos tinham sido feitos com ADN mitocondrial e realmente mostraram que estas linhagens são muito mais locais, desenvolveram-se na Índia, a maioria delas durante os 50 ou 55 mil anos desde a primeira colonização por humanos [modernos, a nossa espécie], desde que saíram de África.”

Por outro lado, nos últimos anos, surgiram cada vez mais provas (genéticas) da viagem das línguas indo-europeias das estepes para a Europa, com vários estudos publicados. A presença destes homens terá ficado mais marcada no Norte da Europa, uma vez que, segundo um outro trabalho publicado recentemente sobre o tema e que tratava a mesma época e os “mesmos” homens das estepes, não foram encontrados sinais fortes da sua presença na Península Ibérica.

“É o mesmo momento, é a mesma expansão. Simplesmente avançou para dois pontos diferentes. Avançou para oeste (para a Europa) e avançou para sudeste (para a Índia). Mas estamos a falar das mesmas populações com o mesmo processo. Também no caso da Europa há pouquíssimos sinais nas linhagens femininas e há um sinal muito, muito forte apenas nas linhagens masculinas, indicando que o que estamos a ver são essencialmente as marcas de migrações muito fortes de homens”, explica Pedro Soares. No caso da Índia, esta “invasão” terá ocorrido sobretudo no Norte, mas no Sul também foram encontradas algumas marcas.

Ciência que soou a insulto

A notícia caiu mal. E caiu mal na Índia, claro. “Para a Europa, começou a ser seriamente aceite que as línguas indo-europeias teriam vindo da zona das estepes, do Leste da Europa. Em relação à Índia, essa ideia surgiu também há muitos anos, mas só começou a ser seriamente debatida nos últimos anos e foi, desde logo, rejeitada por académicos indianos.”

Segundo Pedro Soares, esta foi a primeira vez que alguém, com as novas tecnologias de sequenciação de genomas completos, estudou as linhagens masculinas. Os dados analisados permitem concluir que, “ao contrário do ADN mitocondrial, o cromossoma Y indica que a grande maioria das linhagens indianas também veio (tal como as europeias) da zona das estepes”. O sinal, garante o investigador, é “bastante claro” e não deixa margem para dúvidas. Mas isso não evitou a contestação.

“As críticas, comentários e artigos que têm sido publicados por académicos, geneticistas e outras pessoas na Índia alegam que a amostragem podia ser maior. Dizem que têm a certeza de que, quando ‘tiparem’ [analisarem geneticamente] mais pessoas, vão concluir que aquelas linhagens são, afinal, ancestrais das populações da Índia”, explica Pedro Soares.

E se o sinal genético é claro para o investigador, a explicação para esta reacção também é. “Julgo que sentem que desta forma ficam muito associados ao colonialismo e esta teoria foi essencialmente apresentada por colonialistas ingleses académicos que estavam na Índia. Mesmo o próprio termo ‘invasões arianas’ proposto na altura (há cerca de 100 anos) é considerado altamente racista na Índia e uma pessoa não consegue livrar-se deste termo quando está a tratar o assunto academicamente, porque precisa de o fazer.”

A verdade é que as conclusões do estudo atacam alguns dos principais fundamentos culturais da região. Pedro Soares reconhece-o. “Um dos pontos principais do hinduísmo é ser uma das civilizações mais antigas do mundo que tem as suas raízes na Índia e cresceu na Índia e o hinduísmo está essencialmente associado à língua indo-europeia e não às outras línguas que são usadas na Índia. Basicamente, quando uma pessoa mostra que as línguas indo-europeias chegaram ali há cinco mil anos, está a trazer o facto de que boa parte da cultura hindu foi introduzida de fora nessa altura. Estamos a dizer que foram estas populações arianas que fizeram nascer o hinduísmo. Existe aqui um factor cultural muito forte que está a ter repercussões um pouco fora do normal.”

Ou seja, as conclusões deste estudo soaram a um insulto. “E a última coisa que queremos fazer com a ciência é insultar. O que fazemos é olhar para a ciência, ler a ciência e interpretar as coisas. Nunca estamos a pensar nas consequências culturais ou políticas que isso pode ter. Mas tem”, reage o investigador, que desabafa: “Sou o autor para a correspondência deste artigo e tenho a caixa de correio completamente inundada de e-mails ofensivos de indianos.”

E se o estudo tivesse cientistas indianos envolvidos? Isso seria suficiente para atenuar os protestos? “O artigo tinha autores indianos que pediram para sair. Tinha autores indianos que, quando chegámos às conclusões, disseram que, apesar de participarem, não queriam ficar associados a este artigo.”

O quarto escuro iluminou-se

Em resposta a esta contestação, os cientistas vão continuar a trabalhar neste assunto para fortalecer as conclusões? “Sim, neste momento estamos a tentar arranjar a nossa própria amostragem e talvez avançar para fazer mais tipagem. Mas é complicado.” Uma das dificuldades tem a ver com o facto de não existirem fósseis humanos com ADN antigo nestas regiões. “A Europa tem muito boas condições para preservar registos fósseis em que se consiga retirar ADN, mas aqui para a Índia ainda não saiu nenhum estudo de ADN antigo que seja elucidativo de alguma coisa, com dados suficientes.”

Assim, os investigadores terão de se apoiar nos genomas actuais aproveitando as respostas que as novas tecnologias de sequenciação são hoje capazes de dar. “Algo que deu muita força ao estudo foi precisamente termos as linhagens masculinas, femininas e o resto do genoma, que dá um padrão geral acerca da ancestralidade. As linhagens femininas denunciaram muito pouca migração exterior, mostrando que a maior parte das linhagens eram locais. As linhagens masculinas denunciaram que a maior parte delas eram exteriores. E a informação genómica geral deu-nos precisamente um padrão intermédio, que seria o esperado, se estivéssemos a ver uma mistura no passado de homens do exterior com mulheres locais da índia.”

Há pouco tempo, os limites destes estudos genéticos eram muito diferentes. A evolução desta tecnologia foi muito rápida, trouxe uma quantidade avassaladora de novos dados e a leitura, cada vez mais precisa, dos genomas permitiu corrigir erros do passado e confirmar novas hipóteses. Peter Underhill, cientista no Departamento de Genética da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford (EUA) que já publicou uma extensa análise sobre a distribuição e as linhagens dos genes pertencentes ao haplogrupo (grupo de indivíduos que partilha um ancestral comum) que está associado a esta migração, é um dos especialistas que foram agora “desmentidos” pela genética. A viagem dos genes do Leste Europa para a Ásia, que julgava improvável num artigo publicado em 2010, afinal deixou marcas significativas.

Entre os muitos artigos publicados na imprensa indiana sobre este estudo, não houve só contestação. Também houve quem simplesmente quisesse contar esta história e discuti-la abertamente. No diário The Hindu, com uma circulação de mais de um milhão de exemplares, Peter Underhill foi confrontado com as conclusões do estudo que contradiz a suas conclusões e não pareceu nada incomodado com a reviravolta, apresentado até uma imagem bonita que a explica. “Na altura [em 2010], era como se estivéssemos a olhar para um quarto escuro, pela fechadura, e com a ajuda de uma pequena tocha acesa na mão. Conseguíamos ver alguns cantos, mas não víamos tudo o que estava lá dentro. Com a sequenciação total do genoma, podemos agora ver claramente o quarto inteiro, com uma luz mais nítida.” Ainda assim, ao que parece, há quem não veja (ou não queira ver) as mesmas coisas quando a luz se acende.