Jerry Lewis, entre o riso e o horror

Muitos dos seus filmes convocaram um tipo muito particular de riso, um riso “cerebral” que é um esgar em face do desespero e das horríveis imperfeições da existência (ou mesmo da História). Godard disse-o de outra maneira: ele era ainda mais engraçado quando não era engraçado.

Foto
Jerry Lewis em 1972 SAM MORRIS/LAS VEGAS NEWS BUREAU/EPA

Encontra-se facilmente no YouTube uma célebre participação de Jean-Luc Godard no programa de Dick Cavett, então (anos 1970) animador de um dos mais populares talk shows da televisão americana. (Sim, houve um tempo em que estas coisas aconteciam em prime time, e em prime time se conversava sobre cinema). A dada altura do diálogo entre Cavett e Godard, veio à baila uma vaexata questio das relações franco-americanas: a admiração dos franceses, dos críticos que o enalteciam como um dos maiores artistas daquele tempo e dos espectadores que enchiam as salas para lhe ver os filmes, por Jerry Lewis (1926-2017), fenómeno que os americanos compreendiam mal ou não compreendiam de todo. Quando Cavett, aos elogios do franco-suíço, argumenta timidamente que Jerry, com frequência, não tinha “graça”, Godard contrapõe: “Mas ele é ainda mais engraçado quando não é engraçado! (“He’s even funnier when he’s not funny!”).

É verdade. Que Jerry, frequentemente, não era engraçado, e que nesses momentos era particularmente engraçado. Que não era sempre o riso que ele convocava em primeira instância, como reacção instintiva e quase física a um número de slapstick, por exemplo. Também o há, o slapstick, em Jerry, trambolhões, encontrões, equilíbrios periclitantes em permanente ameaça de vacilação e, em consequência, da instalação do caos total, e ele foi um mestre da comédia física, da comédia do choque (entre “corpos”, por exemplo) e da reacção em cadeia que faz os objectos ganharem incontrolável vida própria. Talvez esse Jerry seja sobretudo o dos filmes dirigidos por Frank Tashlin, que de um modo geral (e ao contrário dos filmes dirigidos pelo próprio Jerry) eram filmes com uma narrativa razoavelmente linear, uma “história”, e onde o actor era o elemento que vinha desengonçar tudo, absorver tudo, e depois expelir tudo, por vezes não ficando pedra sobre pedra – uma revisão muito recente dessa obra-prima absoluta que é Um Namorado com Sorte (um filme de 1963 que no original se chamou Who’s Minding the Store?) deixa-nos dizê-lo com alguma segurança, até por já ser um filme sem Dean Martin, muito menos baseado no contraste de personalidades e nos resquícios do music hall, do teatro de variedades (os momentos de “música e canções”) e da stand-up comedy.

Esse Jerry era, inequivocamente, muito engraçado. Mas nos filmes que ele próprio dirigiu, e que, aliás, têm uma estrutura completamente diferente e completamente “moderna”, a começar pelo primeiro, Jerry no Grande Hotel (The Bellboy), de 1960, há outras emoções, outras reacções, a interferirem com o riso. O embaraço, por exemplo – se houve uma coisa que Jerry (auto-)filmou insistentemente foi o embaraço, a insegurança de homens apequenados e amedrontados, a desfazerem-se para dentro de si próprios (porque as caretas de Jerry, o corpo a dobrar-se para dentro, a voz a adquirir o timbre de uma criatura dos desenhos animados sugerem isso, um homem a liquefazer-se à vista de toda a gente). Homens apequenados e amedrontados, entre outras coisas, pela relação com as mulheres, homens quase efeminados, incapazes da auto-segurança do galã, do “macho americano” tal como representado, tipicamente… por Dean Martin, como se, depois de desfeita a dupla, Jerry tivesse ficado sem o respaldo, o contrapeso, e existisse apenas numa versão diminuída e incapaz. É por isso que outra obra-prima, O Homem das Mulheres, de 1961 (o filme do genial cenário da casa de bonecas, que no original se chamou The Ladies' Man), faz tanto sentido como comédia e como filme de horror: é verdadeiramente um filme do medo, um medo que seria misógino se não fosse autodefensivo, e se não fosse a masculinidade aquilo que realmente é posto em xeque.

São todos monstros, homens e mulheres, por diminuição ou por exacerbação. E essa “monstrificação” é o tema de outra das obras-primas do Jerry realizador, As Noites Loucas do Dr. Jerryl (The Nutty Professor), de 1963, variação sobre Jekyll e Hyde onde não há meio termo: ou Jerry é o cientista feio, mal arranjado, dentudo, com zero de sex appeal, ou é o obnóxio playboy, machista, oleoso, arrogantemente autoconfiante, em que se transforma depois de beber uma poçãozinha mágica. Não há lugar seguro, nem há retrato justo, tudo é disforme. E é por isso que o riso se gela frequentemente, e se se chega a ele, chega-se como último recurso, depois de confirmada a inaptidão de qualquer outra reacção. Muitos filmes de Jerry convocam este tipo de riso, um riso “cerebral”, um riso que é um esgar em face do desespero e das horríveis imperfeições da existência.

Não contente com este horror “filosófico” (ou, mais rigorosamente, “psicanalítico”, como de resto os seus últimos filmes, Hardly Working (1980) e sobretudo Smorgasbord (1983), reforçariam de maneira bastante explícita, sobretudo o segundo), Jerry Lewis – que, não esqueçamos, era filho de imigrantes judeus russos – aproximou-se também dos horrores históricos. Onde Fica a Guerra? (Which Way to the Front?), de 1970, insólita e desconcertante “comédia de nazis” em que Jerry lidera um pelotão de inaptos que por iniciativa própria se aventura em missão na Alemanha hitleriana, e sobretudo, momento determinante na carreira do autor, The Day the Clown Cried, um filme de 1972 sobre o destino de um palhaço num campo nazi. Jerry filmou tudo, montou o filme, e depois decidiu autocensurar-se. Nunca estreou o filme, nunca o divulgou, existem textos e relatos feitos por quem o viu em exibições clandestinas, há não muito tempo surgiram na Internet excertos do filme, mas Jerry foi durante décadas taxativo: tinha “vergonha” do filme, nunca o libertaria, embora tenha acabado por mitigar esta posição, entregando em 2015 uma cópia à Biblioteca do Congresso na condição de só ser mostrada publicamente daí a dez anos. Cabe dizer que o igualmente famigerado A Vida é Bela, de Roberto Benigni, colheu provavelmente alguma inspiração no filme “proibido” de Jerry Lewis, sendo óbvio que o italiano (até pelo estilo massacrante, a testar os limites da capacidade de rir de cada espectador) é um dos seus dois mais evidentes herdeiros. O outro, não menos obviamente, é Jim Carrey, que, aliás, respondeu à morte do cineasta com uma bela declaração: “Eu sou porque ele foi” (e assim se foi também a possibilidade, com que sonhámos, de os ver a contracenar, ou de ver Jim “directed by Jerry”).

O autodeliberado fracasso de The Day the Clown Cried deixou Lewis num impasse que durou anos – o resto da década de 70 – e se resolveu nesse par de filmes, à entrada dos anos 80, Hardly Working e Smorgasbord, que vistos ou revistos hoje parecem voluntariamente autodestrutivos, terrivelmente violentos (na crueza do humor) e castigadores (na autofiguração de Jerry). Foram ambos, também, terrivelmente violentos e castigadores fracassos na bilheteira: do primeiro, o famoso Roger Ebert escreveu tratar-se do “pior filme” que já tinha visto estrear-se comercialmente, e o segundo, uma comédia suicidária tão hilariante quanto áspera (que faz lembrar o que dizia o pai do Sarabanda, de Ingmar Bergman, ao saber da frustrada tentativa de suicídio do filho: “Que falhado, nem de se matar é capaz”), só foi distribuído em sala na Europa (em França, claro), indo directamente para vídeo nos EUA. A partir daí, Jerry no cinema só como actor em filmes de terceiros, a começar por Scorsese e pelo seu O Rei da Comédia (1982), que não por acaso viu nele uma justa medida entre o riso, a antipatia e o medo.

Mas para terminarmos a sorrir, e voltar ao princípio. Toda a gente viu, e quem não viu pode facilmente encontrar na Internet, uma das últimas entrevistas (se não mesmo a última) dada por Jerry Lewis, no ano passado, a um jornalista demasiado respeitoso e porventura intimidado, mas ainda assim persistente perante o mau génio e a má vontade do entrevistado. É hilariante, é um pequenino filme de horror se nos pusermos na pele do jornalista, e é Jerry sem tirar nem pôr, “even funnier when he’s not funny”.