P2

Batalha pela alma da América

A temperatura sobe. Os supremacistas brancos ameaçam lançar uma campanha contra as minorias. A remoção de monumentos é o pretexto. Sentem-se encorajados pela “neutralidade” de Trump. Querem fazer da América um Estado só para brancos. É uma utopia assassina.
Foto

As imagens evocam um passado trágico. É uma “batalha pela alma da América”. Sábado, 12 de Agosto, em Charlottesville, Virgínia, Estados Unidos. Manifestantes de extrema-direita, invocando o direito constitucional à liberdade de expressão, invadem a cidade para se oporem à remoção duma estátua do general Robert Lee, comandante da Confederação do Sul na Guerra da Secessão (1861-65). São também uma milícia pesadamente armada, igualmente em nome duma liberdade constitucional. Muitos levam as sinistras tochas do velho do Ku Klux Klan (KKK). Outros arvoram símbolos nazis. Foi uma prova de força dos “supremacistas brancos”. Uma minoria perigosa.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Encontram pela frente uma contramanifestação de anti-racistas. A polícia fica impotente perante as milícias armadas. Não é apenas o racismo antinegro. Há também palavras de ordem contra os judeus: “A cidade é governada por judeus e criminosos negros.” O mayor é de facto judeu. Os sentimentos antijudaicos têm uma longa história nos EUA.

Subitamente, a tragédia: um manifestante lança o carro contra os anti-racistas. Mata uma jovem, Heather Heyer, e fere 19 pessoas. É a comoção na América. E o começo de uma tempestade política, não pelo número de vítimas mas pelo contexto. O jovem extremista “idolatrava Hitler”, disse um seu professor. O seu acto pode ser lido como cópia de um método do Estado Islâmico. No domingo, o general H.R. McMaster, conselheiro nacional de Segurança, declarou taxativamente: “Com certeza, é terrorismo.” 

Para o KKK, trata-se de apagar simbolicamente a derrota dos “confederados” e a abolição da escravatura. Em resposta, o escritor Lucian Truskott IV, descendente de Thomas Jefferson, apela à eliminação dos “memoriais esclavagistas” e à luta contra Donald Trump e os supremacistas brancos: “Não é só política. Estamos a lutar pela alma da nação.”

Trump demorou a falar. Na segunda-feira, condenou “racistas, supremacistas e neonazis”. Na terça, emendou a mão e condenou ambas as partes, estabelecendo uma equivalência moral entre racistas e anti-racistas. É a consternação no campo republicano. E também uma oportunidade para o campo liberal atacar, acusando-o de ruptura com os “valores fundamentais americanos”. Em contrapartida, David Duke, antigo “Grande Feiticeiro” do KKK, felicitou-o pela “honestidade e coragem” de condenar o “terrorismo esquerdista”. Voltaremos a Trump.

A constelação alt-right

Foi precisa a “batalha de Charlottesville” para os americanos tomarem consciência do crescimento dos grupos de extrema-direita e da proliferação de organizações paramilitares “antigoverno”. Os alt-right são um ramo da extrema-direita nascido no início dos anos 2000. Um dos seus principais teóricos, Richard B. Spencer, arvora referências racistas mas muito para lá do imaginável: defende a “cultura ocidental branca” ameaçada por outras “raças”. E fala num “etno-estado” branco, implicando “limpeza étnica”. Visa  tornar-se uma força política influente.

O politólogo holandês Cas Mudde, que ensina nos EUA, explicou numa entrevista ao Council on Foreign Relations: “A vasta maioria dos supremacistas ou nacionalistas brancos têm pontos de vista diversos, tanto em matéria de sistema político como de raça, desde os que querem dominar, senão exterminar, os não brancos, àqueles que apenas querem conservar os privilégios dos brancos. Os neonazis não acreditam na democracia. Os chamados ‘alt-right’ têm posições elitistas sobre a democracia. Mas [em Charlottesville] também havia a Three Percenter, uma milícia da Geórgia que se reclama democrática, e os neoconfederalistas, que não são necessariamente contra a democracia.”

Há franjas terroristas, o que suscita comparações com os jihadistas. A ironia, anota Mudde, é que, num país onde se instalou uma paranóia sobre o islamismo, os extremistas de direita são muitíssimo mais numerosos, têm mais fácil acesso a armas e são menos vigiados pelos organismos de segurança. Tanto o FBI como o Departamento de Segurança Interna (DHS) preveniram há meses que os supremacistas preparavam acções de envergadura contra os grupos esquerdistas e anti-racistas, sem que fossem tomadas medidas.

A ambiguidade de Trump

Quando Trump foi eleito, Richard Spencer, um activista da sua campanha, declarou à jornalista Michelle Goldberg, da Slate Magazine: “A sensibilidade de Trump parece muito próxima da nossa. Não está próximo de nós intelectualmente, mas está emocionalmente próximo de milhões de brancos que pensam como nós.” Será uma chave de leitura. Não demorou que Trump desencadeasse a sua “fúria” sobre mexicanos e islâmicos.

Há tendência a confundir os supremacistas com os “plebeus brancos”. É errado. Spencer, que esteve em Charlottesville, e muitos outros, pertencem à classe média-alta e estudaram nas grandes universidades.

Prossegue Goldberg: “A eleição de Trump permitiu a muitos racistas da classe média — pessoas que acariciam a ideia de uma segregação étnica, mas que não iriam ao ponto de se fazer tatuar com suásticas ou usar os adornos do KKK — saírem do armário. (...) Antes de Trump, pensava-se que seria politicamente tóxico associar-se abertamente aos partidários da supremacia branca.” Ora, o Presidente tem na Casa Branca como conselheiros dois homens conotados com a alt-right: Steve Bannon e Sebastian Gorka.

É natural que Trump hesite entre perder a dignidade institucional e o perigo de fuga de uma parte da base eleitoral. Arrisca-se, no ponto mais baixo nas sondagens, a levar a um ponto explosivo a sua estratégia de polarização entre as “duas Américas” ou a tentar uma escapatória igualmente perigosa: unir o país mediante um nacionalismo aventureiro na política externa.

Os demónios da História

Muitos republicanos condenaram o supremacismo e o racismo como “repugnantes”, embora sem citar directamente Trump. Como condenar o “seu” Presidente sem se condenarem a si mesmos e a um ano das eleições midterm? Edward Luce, correspondente do Financial Times em Washington, lançou uma frase assassina: “Quem constitui a mais realista ameaça para a República americana: Kim Jong-un ou Donald Trump?”

Charlottesville deu aos liberais e aos conservadores moderados uma oportunidade para denunciarem a derrapagem do país e defenderem contra Trump os “valores fundamentais da América”. O que acontece é que o país pode entrar em ebulição. A posição de Trump constituiu um poderoso incentivo aos extremistas de direita, que exibem a vontade de fazer uma escalada.

Foto
JOSHUA ROBERTS/reuters

Involuntariamente, Trump incentivou também os anti-racistas e a população negra a prosseguirem mais vivamente a campanha em curso para eliminar os símbolos históricos da Confederação: há cerca de 1500. Na maioria foram feitos há mais de um século, por sulistas, para glória dos confederados e para legitimar a segregação racial. É o caso da estátua equestre de Lee em Charlottesville, no agora chamado “Parque da Emancipação”. Para muitos negros, os monumentos são a glorificação da escravatura e da segregação. Lembram a estátua de Saddam e perguntam se os alemães aceitariam erguer estátuas aos generais de Hitler.

É sempre perigoso mexer na memória histórica: há memórias antagónicas. O historiador Eric Foner apela à coexistência das memórias: quer mais estátuas e não menos. O que falta são monumentos aos escravos e aos negros mártires, como Nat Turner, na luta pela emancipação.

As tochas do KKK exacerbam a resistência. E movimentos  como o Antifa (acção antifascista) tendem também a radicalizar-se e a responder à letra com violência. O jornalista Peter Beinart previne contra a radicalização dos esquerdistas, que faria deles “os mais improváveis aliados da direita racista”.

A América corre o risco de ver ressuscitar os  velhos demónios.