Imã será a peça central na célula terrorista que atacou Barcelona

Abdelbaki Es Satty, de nacionalidade marroquina, foi até há dois meses imã da mesquita de Ripoll, onde residia a maioria dos membros do grupo. El País adianta que teria conhecido pessoas ligadas aos atentados de Atocha.

O rei Felipe VI junto ao memorial improvisado nas Ramblas que recorda as vítimas
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O rei Felipe VI junto ao memorial improvisado nas Ramblas que recorda as vítimas Sergio Barrenechea/EPA

A investigação ao duplo atentado em Barcelona e Cambrils centrava-se este sábado em duas personagens que poderão ter sido centrais no planeamento e concretização da matança e cujo paradeiro permanece incerto – Younes Abouyaaqoub, o jovem marroquino que se acredita agora ter sido o condutor da carrinha que atropelou dezenas de pessoas nas Ramblas [actualização: o suspeito foi morto a tiro, esta segunda-feira, pelas autoridades catalães]; e Abdelbaki Es Satty, imã de uma mesquita de Ripoll, a cidade onde residia a maioria dos envolvidos, e que é suspeito de ter sido o instigador dos ataques.

Com a investigação a avançar em múltiplas frentes – são várias as peças do puzzle, disperso entre quatro localidades e episódios que só aos poucos se vão unindo – surgiram os primeiros sinais de fricção entre o Governo central e as autoridades catalãs, que assumiram a primeira linha das investigações.

O desacerto surgiu depois da reunião em que Mesa de Avaliação da Ameaça Terrorista, que junta dirigentes do Governo e os responsáveis das principais forças policiais, decidiu manter o nível 4 de alerta (risco elevado de atentado), ainda que com um reforço das medidas de segurança nos locais de maior concentração de pessoas. Segundo o ministro do Interior espanhol, Juan Ignacio Zoido, a decisão baseou-se no entendimento de que a célula responsável pelos ataques, que seria composta por uma dezena de pessoas, “foi totalmente desarticulada” – há quatro suspeitos detidos e outros cinco foram mortos na madrugada de sexta-feira em Cambrils, localidade de veraneio na costa a sul de Barcelona, depois de terem atropelado várias pessoas e esfaqueado uma mulher que acabou por morrer.

Mas logo depois o porta-voz dos Mossos d’Esquadra veio dizer que é a polícia catalã quem lidera as investigações. “Iremos informar-vos quando considerarmos que a célula foi desactivada”, afirmou Albert Oliva. Também Joaquim Forn, conselheiro do Interior do governo autónomo catalão, desmentiu Zoido, sublinhando que “há ainda duas ou três pessoas que podem ser importantes [para a investigação] que continuam por deter”. “O golpe de Cambrils foi importante para desarticular a célula, estamos no bom caminho, mas só ainda passaram 48 horas”, afirmou.

Madrid desvalorizou as contradições, explicando que a conclusão divulgada por Zoido foi consensual entre os participantes na reunião da manhã, em que também esteve o chefe dos serviços de informação dos Mossos. O jornal El País sublinha, porém, que as autoridades catalãs estão a adoptar uma atitude mais cautelosa, em especial depois de o comandante daquela força, Josep Lluis Trapero, ter dito na quinta-feira à noite, antes do que aconteceu em Cambrils, que “não se esperavam mais atentados”. 

Personagens centrais

Uma cautela que se prende com o paradeiro incerto de Abouyaaqoub, o jovem de 22 anos que seria o condutor da carrinha branca que matou 13 pessoas e feriu mais de 130 nas Ramblas – vítimas de 35 nacionalidades, incluindo duas portuguesas, avó e neta de 74 e 20 anos que, segundo o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, tinham acabado de chegar a Barcelona de férias.

Inicialmente, as autoridades suspeitavam que o veículo tivesse sido conduzido por Moussa Okabir, mas a pista perdeu força depois de o marroquino de 17 anos ter sido identificado como um dos cinco suspeitos mortos na madrugada de sexta-feira em Cambrils, a cerca de 100 quilómetros de Barcelona.

Fontes policiais citadas pelo jornal El País adiantam que os documentos de Abouyaaqoub foram encontrados numa segunda carrinha alugada pelo grupo, localizada nos arredores de Barcelona. Suspeitam que o jovem se terá separado dos companheiros após a explosão, na quarta-feira, da casa de Alcanar (Tarragona) que lhes servia de base, e terá acabado por agir sozinho, conseguindo pôr-se depois em fuga.

Mas com o avançar das investigações a principal incógnita prende-se com quem seria o cabecilha desta rede, composta por elementos muito jovens e aparentemente sem experiência de combate.

As suspeitas dirigem-se agora para Es Satty, um marroquino com cerca de 40 anos que era desde 2015 imã da mesquita de Ripoll, cidade de 10 mil habitantes junto à fronteira com França. Há cerca de dois meses anunciou que iria deixar a cidade – segundo uns para regressar a Marrocos, segundo outros para se mudar para a Bélgica.

Mas a polícia suspeita que se terá instalado na casa de Alcanar – foi por essa altura que a célula terá começado a planear um atentado de “maior dimensão” que só não terá acontecido porque as botijas de gás e os explosivos que estavam a preparar foram detonados acidentalmente. Os investigadores suspeitam que o imã seja uma das duas vítimas mortais da explosão (estiveram este sábado no seu apartamento à procura de vestígios de ADN), mas não excluem que possa estar também em fuga.

O Jornal El País noticiou já este sábado à noite que o imã seria "amigo" ou "conhecido" de pessoas que foram detidas por envolvimento nos atentados de 2004 na estação de Atocha, em Madrid. Sabe-se também que terá estado preso por ilícitos relacionados com imigração, tendo saído da prisão em 2012. O jornal La Vanguardia refere, por seu lado, que o imã seria seguidor do salafismo, corrente radical islâmica, havendo indícios de que terá viajado na última Primavera até à Europa Central, onde teria estado em contacto com grupos radicais.