Terroristas de Barcelona queriam fazer um atentado maior

Os planos mais ambiciosos dos jihadistas foram falhando: não conseguiram alugar um grande camião para encher de explosivos e a vivenda onde preparavam bombas explodiu. Restava-lhes usar veículos como armas.

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Mariano Rajoy, o rei Felipe VI e Carles Puigdemont durante o minuto de silêncio em Barcelona Sergio Perez/REUTERS

O duplo atentado terrorista de Barcelona e Cambrils começou a ser preparado meses antes numa vivenda em Tarragona, e só não foi muito mais grave porque a explosão de botijas de gás que seriam usadas para fazer carros-bomba frustrou os planos da célula terrorista. Os ataques que fizeram 14 mortos e cerca de 130 feridos foram o plano B, ou o plano C do grupo.

“A explosão de Alcanar [Tarragona] fez com que deixassem de ter o material necessário para preparar atentados de maior impacto em Barcelona”, explicou Josep Lluís Trapero, o comissário-chefe dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã. “Os ocupantes da casa eram magrebinos que entravam e saiam e descarregavam coisas”, disse ao El País Patrick Vinaros, um vizinho. “Nunca falámos com eles. Não é que fossem antipáticos, mas faziam muito barulho com as motas”, disse Vinaros ao Guardian.

Durante as operações de socorro após a explosão de quarta-feira na vivenda, que pertencia ao Banco Popular e terá sido ocupada ilegalmente pelo grupo, na descrição do Guardian, houve uma segunda explosão, que feriu bombeiros. Foram encontrados explosivos e pelo menos 106 botijas de gás, diz o El País. A polícia encontrou traços do explosivo TATP (também chamado “mãe de Satã”), habitual noutros atentados reivindicados pelo Daesh na Europa, relata o jornal espanhol. É um material muito sensível, que só é estável a determinadas temperaturas.

Com a destruição da vivenda, e dos materiais explosivos, a célula terrorista terá “optado por fazer outro tipo de ataque”, disse o comissário dos Mossos. Escolheram então usar os veículos para atropelar pessoas, nas Ramblas e no Passeio Marítimo de Cambrils, uma localidade turística da província de Tarragona, umas horas mais tarde, na madrugada desta sexta-feira.

Segundo a jornalista do New York Times Rukmini Callimachi, especializada em acompanhar as redes jihadistas, a célula terrorista por trás destes atentados “tinha um plano A, um plano B e um plano C”. O plano A consistia em carregar um grande camião com explosivos, para provocar “uma explosão catastrófica”. Mas não conseguiram alugar esse grande camião.

O plano B seria usar carrinhas com explosivos – mas o acidente na vivenda de Tarragona inviabilizou-o. Finalmente, quando tudo falhou, o último recurso foi usar os veículos como armas.

Em Barcelona, mataram 14 pessoas, incluindo crianças, e os feridos são de 35 nacionalidades diferentes. Há pelo menos uma portuguesa morta, uma mulher de 73 anos, e a sua neta de 20 anos está desaparecida. Só franceses há 28 feridos, alguns dos quais em estado grave. Em Cambrils, foi morta uma mulher, apunhalada pelos jihadistas, que eram cinco. Fugiram a pé, com armas brancas e falsos cintos de explosivos, e acabaram por ser abatidos pela polícia.

A célula terrorista, que integraria espanhóis e marroquinos, era composta por gente muito jovem, explicou o comissário-chefe dos Mossos. Não se sabe quantas pessoas a integrariam: estão detidos quatro suspeitos, e foram mortos os cinco que participaram no ataque em Cambrils.

Durante o dia, a polícia lançou um alerta de procura do condutor da carrinha que fez o atropelamento da multidão nas Ramblas em Barcelona – um jovem de 17 anos, Moussa Oukabir. Mas, afinal, Oukabir era um dos atacantes de Cambrils abatido pela polícia. Aliás, os quatro terroristas procurados durante o dia de sexta-feira tinham sido, afinal, mortos durante a noite pelos Mossos.

O irmão mais velho de Moussa, Driss, está também preso. É uma história mal esclarecida: o seu passaporte foi usado para alugar duas carrinhas, uma das quais a utilizada no ataque. E ele diz que a sua identificação foi roubada, provavelmente pelo irmão. Mas tem cadastro, já esteve preso em Espanha e era vigiado pela polícia. Os Mossos fizeram buscas em casa da família Oukabir, ao fim do dia.

O dia após o choque foi também o dia de mostrar resistência, de Espanha afirmar que não tem medo dos terroristas. Foi isso que fizeram 30 mil pessoas, ao meio-dia, na Praça da Catalunha, em Barcelona após um minuto de silêncio em memória das vítimas: “No tinc por”, gritaram em catalão, em desafio, “não tenho medo”.

Presentes o chefe do Governo, Mariano Rajoy, e o líder independentista da Generalitat, Carles Puigdemont, com o rei Felipe VI entre eles, assinalando um momento de unidade de Espanha – mesmo quando Puigdemont prepara um referendo, considerando inconstitucional por Madrid, sobre a independência da Catalunha.

No meio do caos e da dor, houve ainda espaço para uma pequena manifestação anti-islão da Falange (fascistas espanhóis), junto a um memorial improvisado de flores e velas nas Ramblas, em memória das vítimas, que atraiu um contraprotesto antifascista, o que resultou em alguns confrontos.