Editorial

O que sobra

Há dois meses, depois de Pedrógão, pedimos rapidez ao Governo, porque não podíamos passar um Verão inteiro em sobressalto com cada alerta de fogo. Mas nunca mais tivemos paz. Ontem foi mais um desses dias

Que Verão estúpido, este que nos calhou em sorte. Começou há dois meses em Pedrógão Grande. Esse dia que ainda nos parece impossível, esse impossível que nos deixou a perguntar porquê. 64, 65 ou 66 vezes porquê.

Nesse dia pedimos respostas ao Governo. E pedimos rapidez, porque não podíamos passar um Verão inteiro em sobressalto com cada alerta de fogo, sem saber que se fez tudo o que era possível para que Pedrógão não se repetisse. Porém, dia após dia, nunca mais tivemos paz. Ontem foi mais um desses dias: a aldeia da Louriceira foi comida pelas chamas. Ainda rezamos para que não nos tenha levado mais alguém.

Passaram dois meses, 60 dias de um Verão triste. Triste pelo que sabíamos inevitável: pela seca, pelo triste abandono das bermas que vemos desolados ao passar pelo Interior, pelos meios que sabemos finitos para ocorrer a tantos fogos. Mas também 60 dias tristes pelo que era evitável - e ninguém evitou.

No debate público sobre Pedrógão houve muitas perguntas, escassas respostas e ainda nenhuma conclusão. Fosse por medo de respostas precipitadas, de prejudicar o combate em curso ou simplesmente do que pensariam os portugueses, o Governo foi atirando a culpa para longe: talvez o Siresp, ou se calhar a PT - na última versão contada por António Costa. Não a GNR, com quem ninguém comunicou no dia da tragédia, não a Protecção Civil, que terá falhado naquele momento, mas a quem ninguém pediu uma mudança. Muito menos aos bombeiros, que só são chamados para apagar o que aparece.

Se ninguém nos diz, dois meses depois, que lição tirou e o que mudou no terreno, o que nos sobra a nós é isto: a insegurança a cada imagem, a cada notícia, a cada novo foco de incêndio. O debate sobre as responsabilidades era este. O Governo teve medo dele. E nós ficámos com o medo do resto.

Passaram assim dois meses, carregados de desgraça. E no meio destes 141 mil hectares ardidos sem responsabilidades, até uma árvore malfadada caiu na Madeira, matando 13 pessoas. E lá foi Marcelo a voar, dizendo a frase de sempre, como um disco repetido: “É uma tragédia, chocou-me, tinha que vir”. 

Fez bem, o Presidente. Mas nós também sabemos porque é que Marcelo é o único que vai a voar: ele é “só” o Presidente, o homem a quem pedimos afectos mas a quem não podemos pedir contas. Os outros, por esta altura, estarão a olhar para o terminal da Protecção Civil como José Sócrates olhava para o terminal da Reuters, no auge da crise financeira. À espera que a linha a vermelho baixe de uma vez. À espera da época de rescaldo, para ver o que sobra.