Opinião

Povos promíscuos

Cambedo, Chaves. — As fronteiras entre Portugal e Espanha demoraram a ser definidas. Em Trás-os-Montes, os pontos de indefinição duraram desde a Idade Média até ao Tratado de Limites de 1864. Algumas aldeias raianas eram então chamadas de “Povos Promíscuos”, por serem parte espanholas e parte portuguesas. Assim era o caso de Vilarelho da Raia, Soutelinho da Raia, Lama de Arcos e Cambedo, onde me encontro, na fronteira entre Portugal e a Galiza.

Mais invulgar é o caso do Couto Misto, que o Público divulgou há meses numa excelente reportagem. Poucos sabem que, no extremo norte do concelho de Montalegre, existiu durante séculos uma pequena república independente composta de três aldeias, uma espécie de Andorra entre Portugal e Espanhola. Entre as três aldeias escolhiam-se os “homens de acordos” e estes escolhiam o juiz que fazia as vezes de chefe de estado da pequeníssima república que não pagava certos impostos nem enviava homens para qualquer dos exércitos dos dois reinos ibéricos de que aquelas aldeias nunca tinham feito parte.

Em 1864 duas capitais longínquas, Lisboa e Madrid, decidiram que as coisas não poderiam continuar assim. O Couto Misto foi extinto e entregue a Espanha (há um interessante movimento pela sua restauração em regime de condomínio luso-espanhol). Em troca, os Povos Promíscuos ficaram sendo completamente portugueses. Uma das motivações foi económica. Em pleno dealbar do nacionalismo europeu, após as revoluções de 1848, havia que controlar os produtos que passavam a fronteira. Ora, nos Povos Promíscuos a fronteira passava no meio das casas. Os vizinhos compravam azeite e vinho entre eles. O contrabando passou então a ser a sua atividade de sobrevivência. Mais do que ser socialmente aceitável, o contrabando era uma simples resposta a dois estados que vinham agora dizer que o modo de vida secular das terras promíscuas já não se poderia manter.

Contrabando de produtos, contrabando de pessoas. Durante a Guerra Civil de Espanha, estas aldeias raianas receberam republicanos espanhóis refugiados ao franquismo, e por ali os deixaram ficar. Após a IIª Guerra Mundial, quando estes refugiados começaram a fazer planos (e a comprar armas) para restabelecer a democracia espanhola, as ditaduras ibéricas juntaram as forças e decidiram acabar com eles. Numa operação conjunta da Guardia Civil espanhola, da PIDE e da GNR, foi montado um cerco à aldeia do Cambedo para apanhar anti-fascistas. Num par de dias antes do Natal de 1946, os habitantes da aldeia ficaram sob fogo cruzado e não entregaram os republicanos. Foram chamados reforços militares. A aldeia foi bombardeada com fogo de morteiro. Houve mortos de ambos os lados, dos republicanos só sobrou um, e quando a resistência do Cambedo foi vencida, homens e mulheres que ganhavam o sustento para as suas famílias foram presos pela PIDE. Quando finalmente puderam regressar, meses ou anos depois, decidiram calar a história daquilo a que chamavam “A Guerra do Cambedo”.

Só nos anos de 1990 a antropóloga Paula Godinho, que realizava trabalho de campo em Cambedo, ouviu pela primeira vez esta história, que passou aos cineastas António Loja Neves e José Manuel Alves. E eis o que viemos fazer ao Cambedo nesta noite de Verão: ver a estreia do documentário que resultou dos depoimentos dos aldeãos do Cambedo sobre aquela noite nunca esquecida de 1946. Há choros. Há risos. Há gaiteiros que vieram da Galiza. Há conversas em português e em galego, ou nos dois idiomas como um só. Há um orgulho indisfarçável em fazer parte dos Povos Promíscuos.

À saída do Cambedo, uma placa em galego grava a gratidão dos republicanos espanhóis: “En lembranza do voso sufrimento”. Ainda falta ao estado democrático português honrar a bravura com que esta gente sofreu e ajudar a atenuar o seu silêncio.