Quando o jazz regressa a uma adolescência feita de rock

Ao recuperarem as referências que primeiro lhes colocaram uma guitarras nas mãos, André Fernandes, Nuno Costa e João Firmino deram uma folga ao jazz para montarem três grupos de pop/rock: Spill, Saga Cega e Cassete Pirata. Mais do que brincadeiras pontuais, três bandas a pedir justa atenção.

SPILL - André Fernandes nunca foi um guitarrista de jazz óbvio. E há muito que a sua guitarra formada pelo jazz não esconde nas voltas melódicas e na exploração do som uma indisfarçável marca do rock, deixando perceber que todas as horas de estudo não foram capazes de lhe domesticar o nervo
Foto
SPILL - André Fernandes nunca foi um guitarrista de jazz óbvio. E há muito que a sua guitarra formada pelo jazz não esconde nas voltas melódicas e na exploração do som uma indisfarçável marca do rock, deixando perceber que todas as horas de estudo não foram capazes de lhe domesticar o nervo Rita Ladeira

Mais ou menos a meio de What Would You Say?, segundo álbum dos Spill, surge um tema instrumental em que a guitarra de André Fernandes não disfarça nem um pouco a sua fonte de inspiração. É tão desavergonhada na sua filiação no estilo desembestado dos Queens of the Stone Age (QOTSA) que o músico a baptizou como Homme, numa assunção inequívoca da homenagem que ali vai acontecendo enquanto se ouve, em fundo, uma algaraviada em japonês.

“Aquilo vem mesmo dali, é um riff que podia ser do tipo [Josh Homme, vocalista e guitarrista dos QOTSA], e por isso mais vale assumir o tributo”, diz André Fernandes ao Ípsilon. É o exemplo mais declarado e contundente de um entusiasmo a que o guitarrista regressou graças a alguns nomes de proa do rock actual, que tanto pode tomar a forma da música dos QOTSA quanto dos Deerhoof e dos Arctic Monkeys. “Voltei a ganhar um entusiasmo quase de puto por essas bandas”, confessa.

André Fernandes nunca foi um guitarrista de jazz óbvio. E há muito que a sua guitarra formada pelo jazz não esconde nas voltas melódicas e na exploração do som uma indisfarçável marca do rock, deixando perceber que todas as horas de estudo não foram capazes de lhe domesticar o nervo. E ainda bem, porque o instrumento na tradição jazzística se tornou cada vez mais armadilhado, numa repetição frequentemente desinteressante de uma linguagem em que a guitarra tenta fazer-se ouvir como um saxofone o faria, enredando-se em soluções pouco imaginativas e demasiado dadas ao onanismo musical.

Quando se inscreveu no Hot Clube, no final da adolescência, André não ignorava que o rock ruidoso e sujo que tocava duas a três vezes por semana no circuito de bares lhe estava entranhado. Era como se a guitarra nunca se libertasse do pó e do visco que trazia das noites alheias ao jazz. “Estudava que me fartava”, recorda, “mas como tinha tantas outras referências e adorava tantos outros tipos de música, sabia que não me identificava e que não sentia amor por aprender a tocar bebop. Embora gostasse muito daquela música, não me era visceral.” Daí que as dúvidas sobre o seu futuro enquanto músico de jazz lhe chegassem aos ouvidos, enquanto ele próprio se sentia “num limbo estranho, porque estava a tentar apanhar um bocado de tudo”. E embora investisse a aprender e conhecer do avesso os standards a que a passagem pelo Hot obrigava, “não passava horas a estudar o Charlie Parker, porque também gastava muito tempo a fazer as outras cenas”.

Não inibir esse passado e essa “segunda natureza” no seu discurso jazzístico foi o que o safou. “Felizmente não houve ninguém que me tivesse criado tensão ou feito sentir pressionado para deixar isso de fora”, reconhece. “Tenho a agradecer ao Mário Delgado e ao pessoal que, muito no início, teve essa abertura de me dizer que não havia um só caminho.” Ainda assim, André Fernandes atravessou “uns anos tramados” que se estenderam à sua frequência da Berklee College of Music, em Boston, antes de se dar o clique que lhe permitiria chegar a álbuns como Cubo (2008) com um sotaque pessoal na guitarra que deixava manifestar, em temas como Not the vibe uma evidente propensão rockeira.

Também Nuno Costa, igualmente guitarrista de jazz a braços com o seu primeiro projecto pop/rock (Saga Cega), começou por tocar em bandas de garagem e só começou a “ouvir jazz tardíssimo, quase por imposição”. “É curioso que enquanto músico de jazz sempre me senti um pouco peixe fora de água”, admite. “Achava sempre que estava noutro sítio qualquer.” À semelhança do que aconteceu com André Fernandes, também a adolescência de Nuno foi tomada de assalto pelos sons de Seattle e, embora recuse a existência de heróis musicais na sua vida, não lhe custa a eleger o nome que lhe sai sempre primeiro enquanto figura tutelar do seu gosto por canções – Sting e os Police. A estes junta Radiohead, Dave Matthews, Sigur Rós ou Björk, conjunto de coordenadas que facilmente deixa perceber que o seu projecto Saga Cega segue caminhos bem diversos daqueles que André Fernandes trilha com os Spill.

Apesar de afirmar que sempre se sentiu um peixe fora de água enquanto jazzman, a verdade é que quando começou a arriscar compor as canções de Saga Cega percebeu que, afinal, era essa a sua pele mais confortável e aquela que, com os anos de formação e prática, se lhe tornara mais natural. “De repente”, reconhece, “quando começo a fazer estes temas sou claramente um músico de jazz – ou, pelo menos, não sou um músico de rock. Foi o jazz que estudei, é o que toco a nível profissional, não tenho participações noutros grupos. Só não tive de reaprender a escrever canções porque não tive essa premissa ao compor. E não penso se isto está mais ligado à pop ou se é muito difícil de ouvir. Se a coisa soa bem, fica.”

A ideia de regressar a uma música fundamental na adolescência, do tempo em que todas as paixões se faziam de uma intensidade desenfreada e assumiam, à vez, toda a importância do mundo é comum à experiência de João Firmino, também guitarrista, na criação da banda Cassete Pirata como veículo para a sua escrita de canções. Ao comprar um computador para começar a registar as suas ideias viu-se devolvido “de uma maneira avassaladora” à vibração que sentira aos 12 anos quando experimentou os primeiros acordes numa guitarra.

“O afastamento do pop/rock acontece porque quando se começa a estudar jazz aquilo tem uma complexidade grande e para se chegar a um nível satisfatório é preciso muito trabalho, é precisa muito entrega e muita investigação – ir ouvir todos os discos históricos”, diz o músico, que nas fileiras dos Cassete assume como nome artístico a sua alcunha de infância, Pir. “Apercebi-me que nunca tinha feito esse trabalho com a pop e com o rock. Ou seja, estava farto de ouvir discos, mas nunca o fazia tipo laboratório para perceber como era trabalhada a produção. Ouvir o OK Computer atento a estas questões deixou-me a pensar ‘Uau, isto passou-me tudo ao lado’. Mas claro que continuei sempre a ouvir muita música fora do jazz, senão dava em doido.”

Firmino fala da formação dos Cassete Pirata como consequência da sua chegada a uma “primeira semi-crise de idade”, de quem aos 31 anos começou a ver-se metido num caminho musical do qual poderia começar a ter dificuldade em evadir-se. Não significa um corte – da mesma forma que não toma essas proporções para André Fernandes e para Nuno Costa – e tem antes o peso de uma decisão de voltar atrás para não deixar cair uma música com que cresceu e que lhe corre sem restrições nas veias. “No jazz começa-se a aprender, depois como se tem jeito vai-se estudar para uma escola boa, já que se está numa escola boa e se continua a dar provas então o melhor é seguir para uma escola melhor, de repente estamos a tocar com os craques e antigos professores, grava-se um CD” e, num repente, parece que a carreira já está toda desenhada com detalhe e sem grandes desvios durante as décadas seguintes.

Portanto, aos 31 anos, crise de meia-idade a revelar-se precocemente, Pir deu consigo a pensar: “Só tenho uma vida e não acredito que não vou fazer canções.” Canções com que sonhava na sua cabeça juntando The Doors, Supertramp, King Crimson, Led Zeppelin e Pink Floyd.

Gente do jazz, gente do rock

Cassete Pirata, Saga Cega e Spill todos têm discos lançados nos últimos meses – no caso dos Cassete um primeiro EP, a preparar o caminho para o álbum que deverá chegar no início de 2018. Mas só os Spill de André Fernandes – mantendo-se como uma partilhada espécie de fazer as pazes com o passado e mandar para as malvas qualquer expectativa de relação monogâmica com o jazz – não são uma absoluta novidade nos seus percursos. A primeira vida da banda extinguiu-se tempos depois da edição de Amplitude (2005), numa altura em que as crescentes solicitações do guitarrista na área do jazz obrigaram a fazer uma pausa; quando André conseguiu finalmente retomar esse caminho percebeu que já não se encontrava bem no mesmo sítio.

Os primeiros Spill, que tiveram como colaboradores os vocalistas Marta Hugon e Kalaf ou os DJ Ride e Nery, e tinham no teclista João Gomes (Cool Hipnoise) o cúmplice principal, haviam nascido de uma certa sedução de André Fernandes pela música electrónica e pelas possibilidades permitidas pela adopção dessas sonoridades mais estranhas ao jazz. “Andava muito numa daquelas fases normais de frequentar muito a noite – embora saísse muito desde puto, mas noutros ambientes mais ligados ao rock”, lembra. “Mas nessa altura, devido ao meu círculo de amigos, comecei a ir a muitas festas para ouvir DJ diferentes e apercebi-me de que havia um certo tipo de música electrónica que me atraía muito ritmicamente, coisas que tinham mais que ver com o glitch e projectos como Venetian Snares. Entusiasmou-me tentar misturar isso com outra coisa qualquer que na altura nem sabia bem o que era, mas que acabou por resultar nos Spill.”

Uma vez que os Spill tinham conquistado esse espaço de projecto para onde André dirigia as composições com uma ambição para lá das fronteiras do jazz, no momento em que voltou a acumular uma série de composições com essa vocação voltou-se para a mesma lista telefónica de antes e tentou reactivar a banda com os músicos que antes o tinham acompanhado. Até que percebeu que estava a convocar o seu passado para um presente que, aos poucos, lhe foi mostrando ter perdido o foco electrónico. As novas composições vinham com uma indesmentível pulsação rock e não demorou a concluir que a insistência naquela formação “iria forçar algo que já não estava lá”.

Tanto assim que chegou a equacionar “mudar o nome do grupo por ser algo radicalmente diferente”. Mas acabou por manter, agarrando-se à ideia de que, tanto em 2004 como agora, os Spill oferecem-lhe um equilíbrio ao género de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, com o jazz de um dos lados e uma música de contornos mais populares do outro. A actualização fez-se com uma matriz simples: a bateria dupla de André Sousa Machado e Marcos Cavaleiro, num reforço de energia que se sente sobretudo ao vivo, o baixo de ADN rock de Nuno Lucas e a voz de Sara Badalo, com um historial punk e hardcore que “partiu tudo logo à primeira” na audição para o grupo. “Foi um achado”, diz André. “Para esta onda há um certo tipo de qualidade quase oposta àquilo que se procura noutros tipos de música: um certo grão e uma certa sujidade que tem que ver com a energia que se quer atingir.”

Para Nuno Costa, o desbloqueio do desejo antigo de formar um grupo de canções cantadas em português aconteceu com a descoberta, num primeiro momento, da colaboradora certa para as letras. Numa altura em que trabalhava na música para uma peça de teatro de Lavínia Moreira, lembrou-se de desafiar a actriz e autora para escrever. Tudo se desenrolou a partir daí, sabendo Nuno que não queria repetir a experiência adolescente de dar voz às suas canções. “Precisava de alguém que assumisse esse lado e pensei logo na Rita [Maria] para esse papel.” Mas as escolhas foram todas intuitivas, garante. “Não pensei em ter músicos de jazz a tocar rock por ser giro, nem que seria mau ter músicos de jazz a tocar rock porque nunca soaria a rock.”

PÚBLICO -
Foto
Cassete Pirata antónio castelo

À Deriva, o primeiro álbum dos Saga Cega [compostos ainda por André Sousa Machado, David Pires, Bernardo Moreira, João Hasselberg e Óscar Graça], foi montado primeiro a dois, guitarra e voz, tendo por tapete as afinações alternativas de guitarra com que o músico foi tentando sabotar os atalhos e as soluções que acumulou em 15 anos ao serviço do jazz. De resto, Nuno não se esforçou por seguir qualquer rumo pré-determinado, deixou-se conduzir pelo instinto, “tudo muito puro, tudo exclusivamente de ouvido”, respeitando apenas a intenção de que a música pudesse soar crua. Não carregou no pedal de distorção para sinalizar que agora estava em território rock, não complexificou as ideias para sugerir que este rock era proveniente de uma aristocracia jazzística. “E também não simplifiquei porque senão não teria canções como Pé de dança, com um padrão rítmico um pouco mais complexo e que, embora tenha este nome, é quase impossível de ser dançado porque é um tema manco.

E mesmo procurando e recolhendo opiniões e sugestões, deixou que fosse o seu gosto a tomar as decisões finais. No single A mil, cantado a meias por Rita Maria e Tatanka (Black Mamba), foi aconselhado a descartar o seu solo de guitarra se queria sonhar com algum airplay radiofónico. E isso, para Nuno, era amputar a canção, torná-la menos do que era, menorizá-la só para encaixar em critérios que não eram os seus e serviam propósitos meramente comerciais – e não artísticos. “Adopto alguns conselhos, outros nem por isso”, responde. “Se tivesse em conta a opinião de cada um dos nove músicos que gravou o disco ainda estávamos neste momento a registar um primeiro tema que agradasse a todos.”

Na vida dos Cassete Pirata, um olhar exterior em concreto revelou-se fundamental. Em estúdio a gravar um single de Joana Espadinha – cantora que, no grupo, contribui, tal como Margarida Campelo, com segundas vozes e teclados –, deu-se um colectivo amor à primeira vista com Benjamim. Tanto assim que Firmino se aventurou a mostrar ao músico e produtor as canções em que vinha trabalhando para o reportório dos Cassete Pirata, onde assume a voz e retira o protagonismo da guitarra – “eu, que nas outras bandas, sou quem faz as coisas ‘esquisitóides’ na guitarra, aqui estou só a tocar acordes à campo de férias”.

Assim que Benjamim ouviu o refrão de Pó no pé – no qual Pir gastara meses por nunca estar satisfeito com a solução até, finalmente, lhe surgir este de uma pop com desejos aeroespaciais (e prima de uns Capitão Fausto ou de uns Tame Impala) –declarou que aquele pedaço de canção iria “ficar na história da música portuguesa” e teria de ser ele a produzir. E foi um alívio porque Benjamim entendia a arquitectura sonora que Pir construíra na sua cabeça, sabia como aceder-lhe e tinha as ferramentas certas para lhe dar uma forma concreta.

Umbigos e convites

Não apenas como produtor, Benjamim foi ajudando os Cassete Pirata a dar pequenos passos, a gravar um EP antes de partirem para um álbum quando o nome ainda mal circulou e ainda só estão a aprender a navegar – um pouco como André Fernandes e Nuno Costa – num meio e num circuito bastante diferente do jazzístico, em que todos se conhecem e as regras do jogo são já algo que dominam sem dificuldades. A Nuno Costa, por exemplo, nunca lhe teria ocorrido que a aposta em convidados como Tatanka e Cristina Branco poderia ser contra-producente em termos de visibilidade pelo facto de ambos terem lançado os seus próprios discos no mesmo período, varrendo quase de imediato os seus temas para debaixo do tapete mediático.

Ao avançarem pelos seus próprios meios, os Cassete Pirata tiveram de se confrontar com a falta de orçamento para uma assessoria que atirasse o nome para longe dos seus criadores – de que fazem ainda parte o jazzman baixista António Quintino e o baterista João Pinheiro, dos Diabo na Cruz, recomendado como “a melhor bateria rock do país” –, com o imperativo de ter de produzir um videoclip e com uma rede de contactos quase inexistente dessoutro lado do mundo que é o gigantesco caldeirão da música popular. “Somos uns verdinhos no pop/rock”, resume Joana Espadinha.

A diferença maior, acredita Firmino, é que “o jazz é sempre muito mais uma viagem ao umbigo do líder, enquanto na pop a premissa é logo mais directa”. “Às vezes sinto que o jazz é um convite à pessoa para vir até nós, enquanto na pop somos nós que nos auto-convidamos para irmos ter com a pessoa.”

Mais importante do que tudo o resto, ainda assim, é vencer a ideia redutora de que são músicos de jazz a brincar com a pop e com o rock ou de que são mais do que corpos estranhos na musicalidade que estão a explorar. Não serem apenas vistos como gente que se agarrou a uma segunda adolescência serôdia e fora de época. Simplesmente renderam-se a essa infindável demanda pela canção perfeita. Até porque cada vez mais os universos do rock e do jazz se foram cruzando sem necessidade de cair nos balofos exercícios progressivos, e hoje em dia já ninguém se choca quando um tema atonal ou um acorde com uma extensão emerge no meio de uma rockalhada cheia de distorção.

PÚBLICO -
Foto
SAGA SEGA - Embora recuse a existência de heróis musicais na sua vida, Nuno Costa elege o nome que lhe sai sempre primeiro enquanto figura tutelar do seu gosto por canções - Sting e os Police. A estes junta Radiohead, Dave Matthews, Sigur Rós ou Björk.. Vítor Marques