Opinião

Há vidas e vidas

Ver sem pensar talvez seja o mal do nosso presente.

Os valores a que a comunidade se apega e que protege têm uma importância determinante no comportamento dos seus elementos constitutivos. Há, nas atuais sociedades, um conjunto de valores que vão prevalecendo sobre todos os demais.

Um desses valores é colocar tudo e todos ao serviço de obter grande riqueza e passar a dominar por via dessa arte. Expande-se a ideia que os multibilionários são figuras reverenciais a quem a Humanidade deve prestar vassalagem, uma espécie de deuses ungidos pela capacidade e talento.

Eles encarnam, neste tempo fechado como se fosse o fim da História, a crueza do destino lhes ter dado o condão de tudo sacrificarem para serem cada vez mais ricos; e, sendo-o, a sua riqueza escorrer para os de baixo a ponto de promover os mais audazes, os que não olhem a meios para atingir outros patamares de vida.

Nesse mundo há outros mundos e submundos, numa espécie de escada cheia de degraus, em que só os dos degraus superiores deixam o vil anonimato, ou seja, as vidas em que nada acontece porque o que acontece não existe por não ter a dignidade de ser transmitido pelos media.

No mundo dos que ganharam o estatuto de famosos por isto ou por aquilo, cabem os que assumem os valores da concorrência feroz. Para se manter esse estatuto é preciso aparecer de forma que se dê nas vistas. É, como dizia Eduardo Lourenço no PÚBLICO de 31 de Julho, preciso ver, mais que viver, ver para viver. É a prevalência da imagem.

Assimila-se este insólito mundo de imagens e emoções e comporta-se como basbaques que se desligam da possibilidade de viverem a sua vida para passarem a viver as do estrelato.

Sabem mais dos seus admirados do que dos seus entes próximos.

Se um político corrompe, mas consegue com essa conduta guindar-se a um plano superior, há quem lhe continue a dar o voto, esperando de um corrupto o mesmo que espera dos outros. Ninguém é obrigado a votar em políticos já condenado judicialmente, e se formos ver bem toda a gente diz condenar a corrupção — muitos afirmam detestar a política por ser dominada por corruptos, mas a verdade é que alguns deles ganham eleições, sabendo-se quem são, ou até talvez por serem o que são.

Os responsáveis aos mais diversos níveis pela comunidade não transmitem com a firmeza necessária os valores da integridade, honestidade, da competência e de serviço à causa pública. As notícias de políticos dos partidos do arco do governo que do alto do poder caem nas malhas da justiça enchem os media. O descrédito nas instituições cresce. A desesperança toma conta da alma.

Não é estranho que a notícia de um varredor de um aeroporto que encontra uma carteira com milhares de euros e dela não se apodera é desvalorizada pelos media, enquanto a foto do rabo de uma das Kardashian tem outro relevo. O que importa é dar nas vistas, é ser famoso.

Há já uma espécie de dinastia mediática, no que se refere aos próprios filhos dos famosos, cujas “façanhas” são também veneradas como por exemplo emagrecer ou ir fazer uma viagem ao estrangeiro ou simplesmente ir passar férias. Se um ou uma famosa vão de férias todos ficamos a saber onde está e em que forma, pois as fotos “obrigam-nos” a confirmar essa qualidade de deuses do Olimpo. Este submundo integra-se no mundo da sobrevalorização do instante, da imagem, do que se tem ou se exibe.

Na cartilha do liberalismo extremo conta apenas o indivíduo fazendo-o prevalecer sobre os interesses gerais da comunidade. Neste quadro, a eleição de Trump é uma consequência natural.

Os interesses individuais são fundamentais, mas não se devem sobrepor aos da comunidade nem a valores que podem moldar uma sociedade tornando-a mais coesa e harmoniosa. O bombardeamento de imagens e de notícias deixa os cidadãos cheio de informações, quase sem tempo para pensar. Veem.

Ver sem pensar talvez seja o mal do nosso presente. Ver e passar para outra notícia. Especado. Verdadeiro basbaque que segue o mundo de alguns esquecendo-se do seu e dos seus concidadãos.

O deleite em saborear as mansões dos famosos só é comparável à voragem com que os fãs seguem as máquinas de outros famosos. Os do topo conseguem pôr os de baixo a admirar a sua vida de luxo. Os de baixo engolem os que os de cima lhes mostram. À espera do Euromilhões.

Nestas circunstâncias, este voyeurismo funciona como confissão de que a vida que cada um tem não vale quase nada. Há vidas e vidas. Os valores de uma vida digna não contam neste submundo.