Análise

As novas ambições de Kim Jong-un

A nova ameaça é Kim provocar uma espiral de tensão na Coreia do Sul e no Pacífico Oriental.

Mudemos o ângulo de abordagem da crise do nuclear norte-coreano. Temos estado focados na escalada de ameaças entre Kim Jong-un e Donald Trump, dentro de um cenário de dissuasão clássica, um jogo perigoso em que a Coreia do Norte e os Estados Unidos se testam mutuamente. Mas há um segundo plano, de que se tem falado menos, o do “grande jogo regional”. Centro-me na insegurança dos aliados dos Estados Unidos e na Península da Coreia. Deixo de lado os Estados Unidos e a China, cuja relação no conflito exige um texto próprio.

Mudaram a lógica e as regras do conflito. Desde os anos 1990, os americanos tiveram como objectivo o “congelamento” do programa nuclear e balístico da Coreia do Norte que, por sua vez, mantinha a “ambiguidade”, prosseguindo os seus programas e garantindo que não visava tornar operacional a arma nuclear. Houve uma mudança de patamar: Kim reivindica agora a capacidade de atacar o território norte-americano e o Pentágono considera que tal é uma realidade ou muito próxima de o ser. É este salto que muda o quadro e tende a produzir efeitos em cadeia.

Em primeiro lugar, Pyongyang tentará provocar brechas nas relações de confiança entre os Estados Unidos e os seus aliados na região, explorando ao mesmo tempo o mal-estar nas relações sino-americanas. A grande questão é saber até que ponto mudarão as suas ambições.

Seul, Tóquio e as armas

As elites dirigentes e as opiniões públicas da Coreia do Sul e do Japão dividem-se ou oscilam entre uma postura pacifista e uma reacção ofensiva perante a ameaça norte-coreana. O tabu nuclear é poderoso. No entanto, se partilham preocupações comuns, a Coreia do Sul e o Japão têm uma memória histórica conflitual: o Japão é visto nas duas Coreias como a antiga e agressora potência imperial. Por seu lado, Tóquio nunca apreciou a ideia da reunificação coreana e opôs-se outrora, de forma categórica, a um projecto de dotar a Coreia do Sul de armas nucleares. No entanto, a nova ameaça pode mudar tradições históricas e fazer mover algumas peças.

Tanto Tóquio como Seul confiaram na protecção norte-americana. Esta confiança está hoje em causa. Quando Kim diz que pode atacar o território americano não está a pensar em fazê-lo. Seria um suicídio. Mas tem uma consequência perversa. Se, por hipótese, Pyongyang ameaçar ou fizer chantagem nuclear sobre o Japão ou a Coreia do Sul, será que Washington lhes dará garantias “absolutas” expondo ao risco nuclear Los Angeles ou São Francisco? E que cálculo faria nessa hipotética situação o “imprevisível” Kim?

Alguns lembram a época do “equilíbrio do terror” na Europa: a Grã-Bretanha e a França optaram pela sua autonomia nuclear, não repousando apenas na protecção americana. É por isso que, à revelia do passado e da tradição histórica, há quem admita o impensável: que Tóquio e Seul possam ser forçadas a pensar não apenas numa vigorosa defesa antimísseis mas no próprio acesso à arma nuclear. Ainda estaremos longe. Mas o problema será colocado se estes dois países deixarem de confiar no “guarda-chuva” nuclear americano.

As novas ambições de Kim

Os Kim sempre adoptaram uma postura muito agressiva, ameaçando atacar todo o mundo, cometendo crimes e fazendo-se passar por irresponsáveis e mesmo por “loucos”. Queriam que o mundo, os americanos e os vizinhos os considerassem “extremamente perigosos”. A intimidação foi a forma de compensar a fraqueza. Os americanos nunca tiveram interesse em Pyongyang desde o fim da Guerra da Coreia. Mas os Kim tinham medo de ser derrubados. Por outro lado, o medo do inimigo externo e a postura agressiva eram um instrumento de controlo da população. A sua própria “fraqueza” e o risco de desmoronamento catastrófico do regime serviram-lhes de meio de contenção das pressões da China, que não admite perder o “Estado-tampão” norte-coreano enquanto os americanos tiverem tropas no Sul.

O nuclear sempre foi um objectivo, desde Kim Il-sung, mas travado pela União Soviética. A seguir ao fim da URSS e perante uma América que falava em “mudanças de regime”, começou a corrida ao nuclear. Olhavam os precedentes de Saddam, Kadhafi e outros. Pyongyang atingiu o seu objectivo, desmentindo a suposta “irracionalidade” do regime.

Noutra vertente, o analista americano George Friedman sublinha o efeito psicológico das negociações de 1994: “Uma tirania empobrecida estava sentada à mesa com as cinco maiores potências”, negociando de igual para igual. “O efeito na percepção doméstica foi electrizante.”

A Coreia do Norte conseguiu “santuarizar” o seu território. Nas actuais circunstâncias é improvável um ataque americano, até pelo alto preço que os aliados pagariam e pela abertura de uma gravíssima crise com a China. O que está por saber é se esta “santuarização” acalma a Coreia do Norte ou vai traduzir-se em novas ameaças.

O americano B.R. Myers, que ensinou numa universidade sul-coreana e escreveu sobre a ideologia do Norte, lembra numa entrevista: “Todos os norte-coreanos sabem que o objectivo da política do primado do militar é a ‘vitória final’, a unificação da Península sob hegemonia da Coreia do Norte.” Nas últimas décadas, a reunificação foi pensada em “termos alemães”, ou seja, o Sul absorvia o Norte. O novo objectivo de Kim Jong-un seria pressionar Seul para fracturar a sua aliança com os EUA e negociar uma reunificação à sua maneira.

Numa análise da Brookings Institution, Richard C. Bush afirma que o verdadeiro grande risco decorre da possibilidade de “enfraquecimento das alianças e de uma escalada na Península coreana que pode transformar-se numa espiral fora de controlo”. Haverá novas agressões nas ilhas sul-coreanas ou incidentes na zona desmilitarizada? “O objectivo da Coreia do Norte é político. Pyongyang espera que o governo sul-coreano de Moon [Jae-in] opte por uma resposta débil — neste caso, a Coreia do Norte humilharia a Coreia do Sul e obteria uma vitória política. [...] Pyongyang poderá considerar que não tem nada a perder ao testar a resolução sul-coreana.”

A opinião sul-coreana é oscilante. Seul está exposta à artilharia norte-coreana. O Presidente Moon, depois de ter pedido o cancelamento da instalação do sistema antimísseis THAAD, voltou atrás e pediu o reforço da cooperação militar dos EUA.

Conclusão provisória: os riscos de guerra não decorrerão apenas da escalada de tensão entre Washington e Pyongyang, mas também da hipótese de uma desestabilização “em espiral” no Pacífico Oriental. Entrámos em terra incognita.