Museus fora do radar

O mundo surreal dos oleiros prodigiosos

O Museu de Olaria de Barcelos é um caso único no país: tem uma colecção centrada no figurado e na louça tradicional da terra, mas alargada a outras regiões do país, e mesmo ao mundo lusófono. É o elogio da arte popular como expressão identitária. Mesmo quando parece tratar-se apenas de bonecos.

Adriano Miranda
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Fotogaleria

Era uma vez um porquinho que estava feliz, sorridente, olhar arrebitado e língua de fora, a ver o que acontecia. Chegou um homem com uma faca, matou-o, e comeu-o! É o que acontece aos porquinhos felizes, sorridentes, com a língua de fora, a esperar o que acontece!...

Esta adaptação livre do célebre micro-conto da "nêspera", de Mário Henrique Leiria, que a voz de Mário Viegas ajudou a inscrever no nosso imaginário, poderia muito bem ser sugerida pela visão de uma prateleira do Museu de Olaria de Barcelos (MOB) onde três porquinhos coloridos, os olhos desenhados em espiral, língua vermelha de fora, contrastam com a cena representada mesmo ao lado: a matança do porco, uma das tradições mais antigas da cultura portuguesa.

“Estas foram as peças que mais agradaram a José Cardoso Pires quando visitou o museu logo após a sua inauguração [em 1995]”, recorda Cláudia Milhazes na visita em que guiou o PÚBLICO pelas diferentes salas do museu que dirige desde 2006, mas ao qual está ligada desde o início.

Noutra mesa, conta-se a história do galo de Barcelos através das diferentes versões que dele foram sendo moldadas pelos membros da Geração Côta – título da exposição patente até final deste ano na galeria das mostras temporárias – e artesãos anteriores: da pequena peça tosca, com apenas 7 centímetros de altura, ainda com assobio e feita de uma só cor, até ao vistoso galo vermelho sarapintado de amarelo com mais de um metro de Júlia Côta, passando por aquele que o seu avô Domingos, o patriarca da família, criou na roda de oleiro, dando início a uma produção em série que mais tarde tornaria esta figura um símbolo não só da região de Barcelos como de Portugal.

Se nos lembrarmos que podemos associar a estes galos coloridos e altivos a imagem do prato mais famoso da gastronomia da região – o galo assado no forno –, teremos um paralelismo similar ao destino dos porquinhos...

É esta invulgar capacidade de misturar o quotidiano mais rente com os insondáveis mistérios da vida, a festa com o luto, o riso com a morte, o sagrado com o profano, que faz a singularidade destes “oleiros prodigiosos”, generalizando a expressão com que Vergílio Alberto Vieira caracterizou a obra de Rosa Ramalho (1888-1977).

Podemos admirar esse universo nas últimas ceias e nos coretos de músicos, nos presépios e nas chocas, nos Cristos e nas matrafonas, nos pombais e nos diabos, nas cabras e nas medusas… E podemos fazê-lo, de uma só vez, numa visita ao MOB, que, pelas suas características e pelas colecções que possui, “é um caso único no país”, como testemunham ao PÚBLICO a historiadora de arte Isabel Fernandes, ex-responsável pelo museu, e António Gomes de Pinho, coleccionador de arte, ex-presidente da Fundação de Serralves e actual presidente do conselho de administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.

Gerações de barristas

Ainda que a sua história remonte aos anos 1960, com base na colecção doada ao município de Barcelos, na década anterior, pelo etnógrafo madrileno Joaquim Sellés Paes de Villas Boas (1913-1990), o actual museu está instalado desde 1995 num edifício histórico no centro da cidade, que foi a Casa dos Mendanhas (século XVIII), e depois também quartel, escola e liceu.

Logo no pequeno jardim da entrada, um galo de tamanho gigante e uma escultura colectiva mostra-nos ao que vamos. Na sala de acolhimento, fotografias ampliadas de algumas das mais famosas barristas da terra e uma selecção de peças encaminham-nos para as três salas de exposições em que o museu está organizado após a remodelação e ampliação projectada pelos arquitectos Carlos Cardoso, Cabral Teles e José Pimenta, concluída em 2013.

“Com esta intervenção, aumentámos a área expositiva para mais do dobro: dos 380 mil para os 795 mil metros quadrados”, explica Cláudia Milhazes, a caminho da ala que acolhe a exposição Geração Côta – em 2016, foi a família de Rosa Ramalho que esteve em destaque nesta sala de exposições temporárias do figurado, estando já definido que 2018 será o ano da geração Baraça.

Uma galeria de retratos em tamanho aumentado dá a conhecer os nomes mais importantes da família Côto, que começou a modelar o barro desde o final do século XIX: Domingos (1877-1959), Rosa (1901-1983), Júlia (n. 1935) e Prazeres, a artesã mais nova desta geração. Várias vitrinas e prateleiras mostram mais de uma centena de peças da geração Côta, e sobre uma mesa estão alinhadas aquelas com que cada membro interpretou e modelou as mesmas figuras e temas: diabos e bois, bonecas e noivas, músicos e coretos…

“O que caracteriza a produção desta família são as cores fortes e garridas: o vermelho, o azul, o amarelo, o rosa…”, nota a directora do museu, que, frente à mesa dos galos, recorda a história e a evolução da sua representação. “Inicialmente havia sempre o galo e a galinha; a situação mudou com a apropriação da figura do galo pelos responsáveis do turismo, local e nacional, em meados do século XX”, explica Cláudia Milhazes. “Agora a galinha não está a conseguir igualar a sua posição – por exemplo, a produção em molde é praticamente exclusiva do galo”, acrescenta.

É caso para lembrar uma canção popular do Conjunto António Mafra: “Olha os galos, olha os galos/ feitos de barro pintado/ brancos, pretos, amarelos/ não têm galinhas ao lado…” E quando as figuras aparecem representadas em casal, como na criação de Rosa Côta ali ao lado, é com o galo a galar a galinha!…

Mais de nove mil peças

A segunda ala de exposições está ainda incompleta, faltando concluir – o que deverá acontecer ainda este ano – a instalação de dois dos três pisos que acolherão a mostra permanente, que na verdade serão várias, que irão rodando, dando a ver diferentes núcleos do acervo de mais de 9300 peças que hoje existem no museu.

Na parede, pode ler-se uma citação de Eduardo Lourenço: “Qualquer que seja o seu suporte histórico, a cultura de um povo é sempre, em diversos graus, a superação ao mesmo tempo efectiva e simbólica da sua particularidade.” (do livro Nós e a Europa ou as Duas Razões, 1988). Se o figurado e as louças da região de Barcelos constituem naturalmente o prato forte da colecção do museu, as particularidades de outras regiões do país, incluindo os Açores, e também dos PALOP, estão igualmente representadas.

Cláudia Milhazes esclarece-nos o funcionamento de alfaias e instrumentos de trabalho logo à entrada da galeria: o masseirão, onde o barro era amassado, mas também o mascoto, os ganchos, a cesta e a pá. E a miríade de peças, das mais pequenas e triviais às mais complexas e elaboradas, que se vão alinhando em mesas, armários e vitrinas: a famosa louça preta de Bisalhães, classificada no ano passado como Património Imaterial da UNESCO, e a de Mondrões (Vila Real), mas também a de Guimarães e de Vila Verde, mais resistente do que a louça vermelha para o uso doméstico. A caçoila de três pernas, os regadores, as vinagreiras; e as diferenças entre um cântaro para água (boca redonda) e o de transportar vinho (boca de bicos). Ou a produção do ceramista João Macedo Correia (1908-1987), que fundou o Centro de Artesanato de Barcelos e representou a região na Exposição do Mundo Português (1940), autor de uma obra “muita influenciada pela cerâmica de Bordalo Pinheiro”, nota a directora.

Seguem-se as grandes talhas de louça (séculos XVIII-XIX), que fazem parte do depósito feito no Museu de Barcelos pelo Museu de Etnologia do Porto, actualmente encerrado. “É o maior depósito que temos actualmente, e que nos ajudou muito na catalogação das nossas peças”, realça Cláudia Milhazes.

Já no armazém das reservas, há peças de Vilar de Nantes e Selhariz (Chaves), de Felgar (Torre de Moncorvo), de Piena (Bragança), de Gondar (Amarante), e de outras terras pelo país abaixo: Caldas da Rainha, Nisa (Portalegre), Beringel (Beja), Estremoz, Algarve e Açores. E também do Brasil e de outros países lusófonos.

De regional a nacional

Isabel Fernandes trabalhou no museu de Barcelos e orientou a sua equipa entre 1983 e 1995. “No fundo, eu preparei as reservas para a constituição do museu, e as peças estão todas ainda identificadas com a minha letra”, diz a actual directora dos museus de Guimarães (Alberto Sampaio, Castelo e Paços dos Duques de Bragança). E nota que uma das mais-valias do MOB é precisamente a de “não se restringir ao figurado mais tradicional da terra".

Esta historiadora trabalhou em Barcelos até dois meses antes da inauguração do museu, realizada a 29 de Junho de 1995, tendo então saído para frequentar uma bolsa de investigação na área da olaria preta, em que viria depois a doutorar-se. Isabel Fernandes, que depois de sair de Barcelos continuou a colaborar com Cláudia Milhazes, nomeadamente na edição de sucessivas publicações sobre esta temática, lembra a importância do etnógrafo Eugénio Lapa Carneiro (1929-1999), que dirigiu o museu nas décadas de 60 e 80 – então designado Museu de Cerâmica Popular de Barcelos –, no alargamento da sua dimensão regional para o âmbito nacional e mesmo lusófono.

Mas este é também um museu único, realça Gomes de Pinho, pelo reconhecimento e visibilidade que veio trazer à arte popular. “Num país em que se atribui pouca importância à arte popular e às artes decorativas em geral – veja-se a situação do Museu de Arte Popular, em Lisboa –, o Museu de Olaria de Barcelos mostra que estes artesãos são verdadeiros criadores, comparáveis aos outros artistas”. De resto, o ex-presidente de Serralves atribui, na sua colecção particular, a mesma importância à arte popular e à arte contemporânea. E chama a atenção para “o carácter identitário” que o artesanato – seja o figurado de Barcelos ou de Estremoz, seja o dos cascateiros de Avintes – tem para o país.

Isabel Fernandes lembra que, depois do boom pós-25 de Abril de 1974, com o aparecimento de feiras de artesanato um pouco por todo o lado, “a olaria passou de moda”. Daí a importância que atribui ao trabalho que pode ser feito – e tem vindo a ser feito, apesar da falta de condições materiais efectivas, nomeadamente para uma investigação científica continuada, seguida das respectivas publicações – por instituições como o museu de Barcelos.

Já Gomes de Pinho salienta também que o MOB “ajudou a manter a integridade e o carácter genuíno na produção de cerâmica e de figurado”, além de ter "vindo dignificar uma profissão num país onde o estatuto social dos artesãos continua a ser pouco considerado”.

Na passagem para a visita à sala das exposições temporárias, agora aumentada no espaço da antiga capela do edifício, Cláudia Milhazes chama a atenção para a importância que o MOB dá também à criação contemporânea: Buscando o simples é o título de uma selecção de peças do ceramista de gaiense José Ramos, que aí está patente até 17 de Setembro, sob o mote da poesia de Carlos Drummond de Andrade: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”

“Interessa-nos trazer cá designers e artistas para mostrar também o estado da arte da olaria contemporânea”, diz a directora, chamando a atenção para a importância que os novos barristas têm para “abrir outros caminhos para a olaria, além da tradicional”, tanto do ponto de vista estético como económico.

A seguir a esta exposição, a galeria mostrará, a partir de 27 de Setembro, uma selecção de peças do já citado João Macedo Correia, a ilustrar diferentes tempos e estéticas da olaria que se faz em Barcelos.

Mas a tradição barrista barcelense dá-se a conhecer também no espaço público da cidade, que desde o final de 2014 expõe réplicas gigantes de duas dezenas de peças das mais emblemáticas criações dos seus artesãos, feitas pelo escultor Albino Miranda. Do galo tradicional de autor desconhecido à colorida gigantona de Júlia Côta, da assustadora “diaba” vermelha de Mistério à icónica cabra de Rosa Ramalho.

Um dos clientes da nossa mais emblemática barrista foi Vasco Graça Moura, a quem esta sugeriu que acabasse de cozer no forno o boneco que acabara de lhe vender. O poeta assim fez e o resultado, conta num poema, foi que o boneco explodiu, "foi pró boneco". Graça Moura suspeita de que Rosa Ramalho fez de propósito, mas reconhece sem rancor: “(…) pequenos monstros mágicos, das suas metamorfoses ingénuas, fez-se pó, é o destino dos monstros populares e dos outros, no barro de que são feitos”.