Editorial

O Governo ameaça, a Altice avança

Os ataques do primeiro-ministro não intimidaram a Altice. Provavelmente também não seria esse o objectivo

Não será fácil a um governante deixar sem resposta ataques políticos. Mais difícil é quando o ataque é feito cara a cara, no Parlamento. E será mesmo impossível quando esse ataque vem de um parceiro parlamentar.

Talvez por isso, o primeiro-ministro, António Costa, foi peremptório ao afirmar que o Governo jamais daria “qualquer autorização para que existam esses despedimentos. Nada o justifica”, assegurou em Maio. A garantia referia-se a um eventual despedimento de três mil trabalhadores na Portugal Telecom (PT). Na verdade, formalmente, António Costa não tinha de dar ou deixar de dar autorização. O que o primeiro-ministro quereria dizer é que, se a PT solicitasse o estatuto de empresa em reestruturação, lho negaria. E, sem esse estatuto, quem aceitasse negociar a saída poderia não ter direito a subsídio de desemprego. E sem acesso ao subsídio seria mais difícil à PT convencer os trabalhadores a rescindir. Mas António Costa não deixou margem para dúvidas: o Governo não deixaria. Pelo menos de uma vez só.

Em Julho, António Costa voltou a atacar de forma violenta a empresa. O primeiro-ministro disse temer o seu desmembramento, que podíamos estar perante um novo caso Cimpor. E até deu a entender que é cliente de outro operador.

Mas os ataques do primeiro-ministro não intimidaram a Altice. Provavelmente também não seria esse o objectivo.

E no mesmo dia Paulo Neves, agora chairman executivo da operadora, dizia também no Parlamento que a estratégia que estava a ser seguida era para continuar. Uma estratégia que não é nem nova nem desconhecida. Desde que tomou posse da PT Portugal já terão saído da empresa mais de mil trabalhadores. O fundo de investimento com sede no Luxemburgo nunca escondeu, aliás, que considerava que a empresa tinha trabalhadores a mais. “Mais do dobro” do que as congéneres. E sem a autorização do Governo para obter o estatuto de empresa em reestruturação, a Altice olhou para a lei e encontrou uma saída. Um buraco que lhe permite empurrar trabalhadores para outras empresas.

Ontem, o primeiro-ministro não recebeu os trabalhadores da empresa que se manifestaram junto ao Conselho de Ministros. Mas poderá o Governo ajudar estes trabalhadores e tapar ou ajudar a tapar este buraco na lei? Pode. Até já há uma proposta no Parlamento do Bloco de Esquerda para esse efeito. Mas o PS prefere esperar. O tempo dir-nos-á se a retórica do primeiro-ministro passará a actos concretos.

No entretanto, como a retórica não trava abutres, a Altice avança. Com mais despedimentos e mais aquisições. A próxima é a TVI.