Editorial

Regresso do fantasma do nuclear

A escalada de tensão entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos da América pode ajudar a lembrar quão fácil é passar das palavras ao actos, quando a falta de liderança se torna mais notória. Não foi por acaso que a Guerra Fria nunca passou disso mesmo: os líderes dos dois blocos sabiam o que enfrentavam e tinham perfeita noção dos riscos globais. A perspectiva vigente era a da destruição mutuamente assegurada: dois inimigos com arsenal suficiente para aniquilar o adversário cinco ou seis vezes, com tempo garantido para confirmar o disparo do adversário e lançar as próprias armas. Quem disparasse sabia que também morria. E todos tinham muito a perder.

Hoje não é assim. Estados párias como a Coreia do Norte têm pouco a perder a não ser a própria sobrevivência individual dos líderes do regime. Potências sem representação geofísica, como o Daesh, nem isso. E do outro lado, ao leme daquele que é supostamente o mundo civilizado, está um homem habituado a decidir por si e sem qualquer noção de comunidade — pior, um homem profundamente ignorante sobre a geopolítica e os equilíbrios globais. O controlo nuclear tradicional não funciona quando os termos da equação mudam.

A globalização era uma onda que deveria ter permitido ao mundo gerir em conjunto os recursos disponíveis, aproveitando meio século sem conflitos globais e a conclusão da Guerra Fria praticamente sem derramamento de sangue. Mas as décadas de paz tiveram um efeito anestesiante que só terminou, de forma violenta, com o choque eléctrico da crise financeira e económica provocada pelos excessos do capitalismo. Com a falta de dinheiro chegaram as políticas do medo, abrindo caminho para os vários nacionalismos: Rússia, Estados Unidos, Grã-Bretanha e vários focos dispersos pelo continente europeu. Passou a ser mais importante dar atenção à manutenção dos direitos adquiridos do que aos novos problemas (como os refugiados), e neste terreno minado os nacionalistas medram com facilidade. O problema é que a resposta dos nacionalistas aos problemas globais não existe, porque os ultrapassa. Portanto, negam-se os problemas: o aquecimento global não existe, os refugiados são um problema dos outros, o conflito nuclear não é um problema desde que os bons ataquem primeiro. É nisto que estamos. E é por isso que estamos mais próximos do lançamento de uma arma nuclear do que estivemos nos últimos 55 anos.