Estuários da Europa mais sensíveis à pressão humana precisam de protecção urgente

Trabalho de equipa portuguesa.

Rodovalhos-bruxa na zona costeira adjacente ao estuário do Sado
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Rodovalhos-bruxa na zona costeira adjacente ao estuário do Sado Sofia Henriques

Uma equipa de investigadoras portuguesas concluiu que os estuários da Europa com mais espécies de peixes sensíveis aos impactos da actividade humana, como a pesca, carecem de medidas de conservação, como a inclusão em “áreas protegidas”.

O trabalho, coordenado por Rita Vasconcelos, investigadora do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, é publicado esta quarta-feira na revista Scientific Reports.

A equipa mapeou os estuários existentes no mundo, a intensidade do tráfego marítimo, a densidade da população humana nos diferentes continentes e as áreas naturais protegidas – terrestres, estuarinas e marinhas –, partindo de uma base de dados, que agrega cerca de 400 estuários com aproximadamente 2500 espécies de peixes, e de informação de trabalhos anteriores.

Pergunta: será que se está a proteger as espécies de peixes mais sensíveis, as que têm, por exemplo, uma taxa de reprodução e crescimento mais lento? Resposta: não, em particular na Europa, defendem as investigadoras do MARE no artigo científico, assinado ainda por Marisa Batista e Sofia Henriques.

 “A extensão da protecção não está a ser feita com base na sensibilidade das espécies que existem [nos estuários], é fruto de outras directrizes”, sustentou em declarações à Lusa Rita Vasconcelos, assinalando que os estuários europeus têm “muitas espécies de peixes sensíveis, pressões humanas altas”, decorrentes da densidade populacional, carga de poluição e pesca, mas a sua “protecção não é alta”.

O estudo olha, à escala global, para as relações entre a vulnerabilidade dos estuários e dos peixes que neles vivem, o impacto da actividade humana (poluição, mas sobretudo pesca) a que estão sujeitos e as medidas de conservação existentes, sem apresentar informação individualizada para cada estuário. Um estuário é, por definição, um ambiente aquático de transição entre o rio e o mar, contendo espécies de peixes próprias de rios e oceanos.

De acordo com o rastreio feito pelos cientistas portugueses, a propensão é para haver peixes mais sensíveis à pressão humana, em especial à pesca, à medida que os estuários se vão afastando da linha do equador em direcção aos polos e “estão mais abertos para o mar”. Estes estuários são maiores dos que estão mais próximos do equador, têm tendencialmente peixes maiores (com crescimento mais lento) e carnívoros (peixes que comem outros peixes).