Crítica

Isto é o Cairo, vida de Cairo

A aposta de Clash é observar o sectarismo no momento em que a humanidade de todas as personagens, revelada pela convivência numa ramona da polícia do Cairo, vem ao de cima.

Um microcosmos da sociedade egípcia numa carrinha da policia
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Um microcosmos da sociedade egípcia numa carrinha da policia

Clash mostra a agitação nas ruas do Cairo do ponto de vista de uma ramona da polícia egípcia. Estamos em 2013, na altura em que os militares congeminaram o regresso ao poder removendo a Irmandade Muçulmana, que por via do presidente Morsi governava desde as primeiras eleições depois da “primavera” e da deposição de Mubarak. Isto passou-se no meio de grande agitação, com manifestações e confrontos nas ruas, e é para um dia desses que Mohamed Diab nos convoca. O primeiro plano, com o escuro do interior da furgoneta da polícia e a luz do sol (que parece quente como o diabo) a entrar apenas pelas frestas das janelas, apresenta o huis clos e o “dispositivo” (que pode ser inspirado naqueles filmes iranianos, como alguns de Kiarostami, inteiramente passados dentro de carros às voltas pela cidade). Ao longo da duração do filme, o exterior será sempre visto a partir do interior da carrinha, por vezes em planos subjectivos, correspondentes aos olhares dos passageiros.

Passageiros que, obviamente, não estão ali de livre vontade. A primeira história de Clash é a de como se enche a carrinha. Cenas de confrontos na rua, militares (ou polícias) e civis em acesas discussões, possuidoras de um realismo bastante convincente (mesmo, mais tarde, uns vislumbres de tiroteios e operações militares são bastante convincentes), e a primeira vaga é despachada para dentro da ramona. São apoiantes da facção militar. A seguir, um pouco mais à frente, nova leva de passageiros: desta vez, são apoiantes da Irmandade Muçulmana. É nesse momento, em que opositores ferozes se encontram reunidos e forçados à convivência no espaço exíguo da carrinha polícia, que sentimos que o filme, verdadeiramente, arranca.

Há de tudo ali – adultos e crianças, homens e mulheres, religiosos e laicos, velhos e novos, médicos e lavadores de carros, adeptos do Al Ahly e adeptos do Zamalek (que são o “Benfica” e o “Sporting” do Cairo), DJs e intelectuais, até um jornalista de dupla nacionalidade americano-egípcia – e a ramona torna-se portanto um microcosmos da sociedade egípcia. A aposta do filme, que tem mais ou menos a mesma posição da personagem que às tantas se zanga pela “obrigação” de ter que tomar um partido ou outro, é observar o sectarismo no momento em que a humanidade de todos, revelada pela convivência, vem ao de cima. Pela força das circunstâncias e das dificuldades (o calor, certos problemas práticos como por exemplo a satisfação de necessidades fisiológicas numa carrinha apinhada) descobrem-se uns aos outros como indivíduos, para além das diferenças ideológicas ou religiosas.

Do “microcosmos” passamos à “metáfora”: a população daquela carrinha é o Egipto, uns não existem sem os outros, e o destino será comum ou não será. Este ponto torna-se evidente (porventura demasiado evidente) bastante cedo, dando a sensação de que o filme existe apenas para o ilustrar – o que faz com que, apesar do colorido de algumas das personagens, Clash pareça tornar-se redundante muito antes do final, como se se fosse esticando apenas para justificar essas cenas de fecho, derradeira ilustração do ponto e da metáfora, último parágrafo de um “programa” que o filme já tornara previsível. Vale a espreitadela, até porque se muito se tem falado das “primaveras árabes” e suas consequências é mais raro podermos ver o que os árabes têm a dizer sobre o assunto.

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