Nova mosca dos cadáveres detectada em Portugal, Espanha e Itália

Já tinha sido identificada na Península Ibérica. Agora voltou a ser encontrada em Itália. Faz parte dos primeiros insectos a colonizar os cadáveres. Só que é uma mosca que costuma viver na América do Sul e na Ásia. Como terá chegado à Europa?

Mosca da espécie <i>Synthesiomyia nudiseta</i>
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Mosca da espécie Synthesiomyia nudiseta Universidade de Huddersfield

Uma espécie de mosca típica dos países tropicais e subtropicais tem estado a alimentar-se de cadáveres na Europa. Entre Dezembro de 2015 e Setembro de 2016, a Synthesiomyia nudiseta foi encontrada em cinco cadáveres na zona de Génova, no Noroeste de Itália. Esta mosca muito frequente na China e na América do Sul também já tinha sido detectada nos últimos anos em Nápoles (no Sul de Itália), Portugal e Espanha. Agora um artigo publicado por cientistas italianos na revista Forensic Science International pergunta: como é que ela chegou a Itália? Os autores concluem que veio da China através do comércio marítimo.

A Synthesiomyia nudiseta é um saprófago, ou seja, alimenta-se de matéria orgânica em decomposição, como cadáveres. Muitas vezes, é encontrada nos cadáveres humanos, sobretudo no interior das habitações, e em fase de larva ou até mesmo na fase de pupa (entre a larva e a fase adulta). Habita principalmente nas regiões tropicais e subtropicais e já foi identificada na América do Sul (em países como o Brasil) ou na Ásia (na China, por exemplo). Nos últimos anos, também tem sido encontrada em Espanha, tanto na costa mediterrânica (em Alicante) como na costa atlântica (na Galiza), assim como nas Ilhas Canárias ou até no centro de Madrid, segundo um artigo científico de 2013.

Em Lisboa, a presença da Synthesiomyia nudiseta também já tinha sido detectada, como o refere um artigo científico de 2014 da investigadora Ana Farinha, agora no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa. “Foi capturada em armadilhas de isco, na zona do Campo Grande, em Lisboa”, conta-nos, acrescentando que a espécie apenas foi encontrada no Verão. O artigo mais recente, na Forensic Science International, refere ainda que a Synthesiomyia nudiseta também já chegou aos Açores, à Madeira e a Malta, segundo a Fauna Europaea, uma base de dados online de todas as espécies animais europeias.

Em Nápoles, já tinham sido identificadas quatro exemplares adultos desta espécie em 2011, “num sítio bastante sujo e com excrementos de cães e lixo urbano”, refere o artigo. Já entre Dezembro de 2015 e Setembro de 2016, foram então encontradas larvas e pupas desta espécie em cadáveres de cinco pessoas, com idades entre os 51 e os 89 anos, na zona de Génova. Os corpos foram descobertos dentro de habitações, já num estado avançado de decomposição e todas as mortes foram consideradas naturais.

A partir dos exemplares de moscas recolhidos nos cadáveres, analisou-se o seu ADN para tentar saber o local de origem dos exemplares. Viu-se então que todas as sequências genéticas das moscas encontradas em Itália estavam relacionadas com as moscas da China. No entanto, já não se encontrou essa relação genética entre as moscas de Itália e as de Portugal, como refere o artigo publicado pela equipa do italiano Stefano Vanin, da Universidade de Huddersfield (no Reino Unido): “A outra sequência europeia disponível, a de Portugal, não mostrava qualquer relação directa com as italianas.”

Percebeu-se então que a espécie veio da China através do comércio marítimo. “Isto levou à conclusão de que a Synthesiomyia nudiseta não chegou via Espanha e Portugal, mas directamente da China”, lê-se num comunicado da Universidade de Huddersfield. Afinal, a cidade de Génova tem o segundo maior porto de Itália (onde foram descarregadas 30 milhões de toneladas de mercadorias em 2015), e a Rússia e a China foram dos principais países de onde vieram essas mercadorias. Já Nápoles tem o 10º maior porto de Itália (com 20 milhões de toneladas descarregadas em 2015).

Determinar a altura da morte

A globalização, através do comércio, pode ser assim dos principais factores que contribuem para a dispersão dos insectos. Já o aumento das temperaturas do planeta pode estar a permitir a sua adaptação a novas geografias, tal como aconteceu na Península Ibérica. “Se os insectos tivessem chegado há 20 anos, poderiam ter morrido. Mas a temperatura média em Génova, como em toda a Europa, aumentou cerca de dois graus e é agora essa temperatura é boa para esta espécie”, disse Stefano Vanin, citado no comunicado.

Esta espécie de moscas tem importância nas ciências forenses: pode dar informações sobre o período temporal em que uma pessoa morreu. “O seu aparecimento ajuda na datação do intervalo de tempo pós-morte do cadáver onde é capturada”, explicou ao PÚBLICO Ana Farinha, que não fez parte do estudo na Forensic Science International. “É um colonizador primário, isto é, aparece na primeira onda de insectos que usa o cadáver para colocar ovos e/ou alimentar-se.”

Agora há mais para saber sobre estes novos visitantes, como refere o comunicado: “Os entomólogos forenses – que obtêm informações essenciais sobre a cena do crime, como a altura da morte através do estudo da infestação dos cadáveres humanos – precisam de aprender o máximo que conseguirem sobre este recém-chegado.” 

Além disso, os cientistas alertam para a influência que esta mosca pode ter na saúde pública. “Esta espécie não tem qualquer competidor na Europa, por isso pode disseminar e aumentar o risco de transmissão de doenças”, explicou ainda Stefano Vanin, alertando para a necessidade de conhecer melhor a distribuição desta espécie no continente europeu. Stefano Vanin já prometeu continuar estes estudos.