"É difícil ter confiança de que poderei ser aceite na sociedade"

Relato na primeira pessoa do jovem condenado em 2014 por agredir com uma faca dois colegas e uma auxiliar na escola de Massamá, a partir das respostas escritas que enviou ao PÚBLICO.

O Tribunal de Família e Menores de Sintra (na foto, em Janeiro, no arranque da audiência) deu como provados três crimes de homicídio qualificado na forma tentada e um crime de arma proibida
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O Tribunal de Família e Menores de Sintra (na foto, em Janeiro, no arranque da audiência) deu como provados três crimes de homicídio qualificado na forma tentada e um crime de arma proibida Daniel Rocha

Saí há oito meses do Centro Educativo dos Olivais, em Coimbra, onde passei dois anos e meio em regime fechado. Aprendi sobretudo a valorizar-me, a melhorar a minha auto-estima e a ter esperança numa vida melhor. Os técnicos são bons profissionais mas senti bastante falta do apoio médico na área da pedopsiquiatria.

Conseguiram incutir-me confiança de que poderia ainda ser um elemento válido para a sociedade e considero-me apto para isso. Estou a estudar Direito fora de Portugal. A ideia de estudar no estrangeiro era antiga mas foi consolidada com o objectivo de superar dificuldades de reinserção. Se foi uma forma de recomeçar uma vida nova? Depois da experiência vivida qualquer recomeço significa uma vida nova.

A oportunidade de estudar fora do país surgiu porque tenho familiares no estrangeiro, mas isso não significa necessariamente que o objectivo seja ficar a viver no estrangeiro. Logo se verá. Depois do que aconteceu, perdi todos os amigos, e só os familiares mais próximos se mantiveram solidários.

O mais difícil em todo o processo foi a noção de estar fechado e isolado do mundo exterior. Nesse aspecto, as carências em matéria de apoio pedopsiquiátrico não facilitaram as dificuldades decorrentes da privação da liberdade e do isolamento.

A justiça está formatada para lidar com todos os casos da mesma forma, sendo todos diferentes. O regime fechado a que fui sujeito não ajuda a formar competências a nível social. O regime fechado prolongou-se demasiado tempo, só no final é que começaram a deixar-me sair mais vezes. Isso afasta-nos do mundo exterior.

Também a mediatização do caso foi das coisas mais difíceis, claro. Se sem a mediatização já há uma estigmatização destes casos, a mediatização do meu caso levou a que ainda hoje receie pela reacção da sociedade e pela incapacidade das pessoas perceberem que mudei e que a minha vida mudou. Isso tornou mais difícil melhorar a minha auto-estima e ter confiança de que ainda poderia ser aceite na sociedade.
 

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