Um ciclo de teatro contemporâneo para inglês (e não só) ver

Lígia Soares, Sónia Baptista e Ricardo Vaz Trindade apresentam o ciclo Very Typical nos Primeiros Sintomas, em Lisboa. Três peças a solo para cativar os turistas estrangeiros que deambulam pela cidade, unidas pela atipicidade e pela ironia.

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Today, Is it a Squirrel?, de Sónia Baptista RAQUEL MELGUE
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Romance, de Lígia Soares DANIEL PINHEIRO
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Rang-a-dang, de Ricardo Vaz Trindade ANA FÉLIX

Já não é a primeira vez que Lígia Soares apresenta o seu Romance no espaço dos Primeiros Sintomas, na Ribeira, junto ao Cais do Sodré. Mas agora vai fazê-lo em inglês. Em parte porque, da última vez que apresentou a peça naquela mesma sala, a porta aberta convidava a cabeças que espreitavam, entre a curiosidade do que por ali se passaria e o receio de estar a meterem o bedelho onde não eram chamadas. Muitas dessas cabeças falavam inglês, pertenciam a turistas que, nas suas deambulações por uma das zonas mais turísticas de Lisboa, se cruzavam com aquele pequeno oásis para a experimentação teatral e se questionavam se havia ali algo que lhes pudesse interessar. E Lígia registou aquele fluxo de público potencial que, informado de uma peça em português, retomava a sua marcha em busca da próxima descoberta.

Há um ano, ao trabalhar com a actriz, bailarina e autora Sónia Baptista, num mês de Agosto em que o calor se mostrava sem grande pudor e Lisboa fervilhava com as sucessivas vagas de turistas, as duas começaram a praticar a aritmética simples de um 2+2 cujas parcelas poderiam ser trocadas por essa população transitória de estrangeiros sem uma programação cultural capaz de responder aos seus anseios (2) e pela coincidência de tanto Lígia como Sónia terem no seu percurso peças escritas directamente ou inglês ou traduzidas por ocasião de apresentações para lá de Vilar Formoso (+2).

A soma poderia não ter passado de um delírio motivado pelos calores. Só que não se ficou por aí e, desta segunda-feira e até domingo, às 19h e às 21h30, Lígia, Sónia e Ricardo Vaz Trindade apresentam um trio de espectáculos a solo, em inglês e especialmente dirigido a turistas. Chamaram a esta mostra de teatro contemporâneo português, num título que tresanda a ironia, Very Typical. A ironia, de resto, estende-se a todo o conceito. “Começámos também a pensar na sustentabilidade do teatro como um negócio local”, aproveitando como qualquer outro ramo comercial a presença em território português de um público que, para todos os efeitos, não tem facilidade de acesso às criações locais, conta ao PÚBLICO Lígia Soares. “E começámos a pensar no que era isto de internacionalizarmo-nos cá dentro”, parodia a actriz e dramaturga, sem que a piada deixe de ter um claro fundo de verdade.

Não ignorando a tensão da cidade com o turismo, os três ressalvam também que esta não é uma oferta criada à medida dos visitantes – as peças não nasceram para responder à afluência de estrangeiros, apenas se apresentam em inglês como proposta de aproximação – e que, ao mesmo tempo, “o teatro contemporâneo é uma representação positiva e importante da cidade de Lisboa”. “Talvez estas possam ser linguagens teatrais a que as pessoas não estão habituadas”, reflecte Lígia Soares acerca da eventual desadequação das propostas. “Mas muitas vezes também não estão habituadas a museus de arte contemporânea quando os vão visitar por se encontrarem noutra cidade.”

Três peças atípicas

Very Typical (reservas através do mail [email protected]) serve também como piada autoinfligida: Lígia, Sónia e Ricardo perseguem o atípico na sua criação. No caso da escolha de Sónia Baptista para este pequeno ciclo, há uma outra ironia quase acidental: “Acho que esta será a minha peça mais typical porque foi escrita a pensar nas saudades dos emigrantes”, diz acerca do texto que redigiu enquanto estudava em Londres, onde o estreou no âmbito de uma graduação em Dança. A peça chama-se Today, Is it a Squirrel? e “fala das madeleines do Proust através de um pastel de nata”. “Funciona como se fossem três capítulos de uma mesma história que fala da falta”, alimentando-se de uma rotina diária que então se dividia sobretudo por leituras, passeios e escrita. A Proust e aos pastéis de nata (que distribuirá pelo público) juntam-se ainda considerações acerca de um livro de Bachelard com capa em “Miami Vice rosa” e da representação das mulheres a ler nas pinturas que foi visitando na National Portrait Gallery. “Mulheres a ler, sempre numa atitude muito passiva”, comenta. “É bonito, mas passivo – não ameaça ninguém."

A passividade também se encontra em Romance, de Lígia Soares, “uma passividade social que todos partilhamos”, resume. Escrita em 2015, a peça parte de um dispositivo cénico simples em que a intérprete implica o público na sua apresentação, pede-lhe que repita o seu discurso, depois de instigar uma declaração de amor e ir enchendo as bocas dos espectadores com “uma linguagem gasta, clichés, coisas que criam uma identificação imediata mas que ao serem ditas de uma forma um bocadinho mais extremada acabam por denunciar” a tal passividade. Como se a linguagem acabasse esvaziada através de uma utilização mecânica e amorfa. “Fala muito da utilização do outro e é uma crítica a uma classe média que vive bastante alienada, muito centrada na sua própria existência solitária e que, assim, reproduz discursos consensuais.”

No caso de Rang-a-dang, de Ricardo Vaz Trindade, trata-se de um excerto de uma peça maior, escrita durante o primeiro laboratório de escrita para teatro dirigido por Rui Pina Coelho no Teatro Nacional D. Maria II. E centra-se no encontro entre um músico de metro e “uma mulher que quer ser artista, aparecer na televisão, ter uma vida cor-de-rosa”, enfim, que “quer crescer e crescer”, e em que o autor pensou ao transpor para aquela personagem a teoria de que a sobrevivência de uma empresa depende de um crescimento mínimo de 3% ao ano. O músico, diz, é um reverso da artista, dedicando-se a canções revolucionárias e de crítica social sem conseguir cativar qualquer atenção, com um discurso pejado de slogans e lugares comuns de quem aprendeu inglês a escutar anúncios e frases feitas.

E que, bem vistas as coisas, poderia ser encontrado à entrada do metro, em Lisboa, a tocar para os turistas nas esplanadas em frente, com o mesmo desajuste em relação a uma América terra de oportunidades que só costumam surgir com o empurrão de um qualquer privilégio.