Crónica

Drops saborosos da Festa Literária Internacional de Paraty

Paloma Amado, a filha do escritor Jorge Amado, escreveu uma crónica dos seus dias passados na Festa Literária Internacional de Paraty onde a Casa Amado e a Fundação Saramago estiveram presentes com uma casa conjunta, no centro histórico, pela primeira vez.

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Paloma Amado e Pilar del Río Fundação José Saramago
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A Casa Amado e Saramago em Paraty Fundação José Saramago/Facebook
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A Casa Amado e Saramago em Paraty Fundação José Saramago/Facebook
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Jorge Amado e José Saramago Fundação José Saramago/Facebook
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Paloma Amado e Pilar del Río Fundação José Saramago

Domingo, 30 de julho de 2017

1. A chegada a Paraty

Me preparei para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e a Casa Amado e Saramago no colinho de minha filha Mariana (sim, filha dá colo à mãe, e que colo bom!), na fazenda São João da Pedra Nua, no município de Cunha. Jardinando, brincando com os cachorros Pipi (das meias listadas) e Tom Swayer, ela um cão Maremano, ele mestiço de Maremano e Border Colie, conversando minhas prosas preferidas com o neto Nicolau, relendo Umberto Eco. Lá não pega Internet, não tem telefone, faz-se um bom detox dos eletrônicos.

Da fazenda a Paraty são uns 35 km. que fizemos em uma hora e meia. A visão da cidade, lá do alto, é deslumbrante. Terminando a serra, começam os bares e restaurantes. Mariana solta uma exclamação:

— Mãe, naquele bar vendem “vovô” !

Rapidamente meu genro André faz a volta e paramos na porta. A placa na beira da estrada anuncia a venda de Jorge Amado entre kibes, sucos e pães com linguiça. Entrei e perguntei o que era um “Jorge Amado”.

— Um drink feito de Cachaça Gabriela, destilada aqui mesmo em Paraty, de melaço de cana com cravo e canela, mais limão e maracujá, servimos com gelo.

A moça, muito amável, além da receita, me deu um gole de Gabriela para provar, quer dizer, agreguei à minha animação natural pela chegada a Paraty, um alcoolzinho perfumado.

Viva a Cachaça Gabriela!

2. A Pousada da Marquesa e o dia do escritor

Pense num hotel lindo, deslumbrante, aconchegante... se não pensou na Pousada da Marquesa, errou. Além de adorável, é o mais bem situado para a Flip, na lateral da Praça da Matriz, de frente para a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e para a tenda da Flipinha, do outro lado a grande tenda com o telão.

Chegamos na véspera da abertura da Feira, no Dia do Livro, a cidade ainda bem vazia. Foi o ideal para passear e conhecer cada recanto, tomando cuidado para não tropeçar nas pedras. É com orgulho que conto que não caí nenhuma vez! Foi o ideal também para esquecer livros por aí. Explico, amigos do Facebook haviam pedido que eu esquecesse livros já lidos, no dia 25 de Julho, para que pessoas achassem e levassem para casa. Ao invés dos já lidos (eu ía bem carregadinha), perdi o livro do Pituco, aquele que escrevi para o centenário da mamãe. Foi engraçado ver algumas pessoas  devolverem os livros na hora que eu os perdia. Então eu perdia de novo em outro lugar... na volta para a Pousada vimos que todos haviam sido encontrados e recolhidos.

Viva a Pousada da Marquesa!

3. Montando a Casa Amado e Saramago

No dia seguinte, cedo, fomos encontrar Pilar e a equipe da Fundação Saramago na nossa casa!  Rua e meia adiante da nossa Pousada, alí estava ela, linda, com grande foto de seus patronos à porta. Lá dentro, bonita, bonitíssima, minha amiga Pilar, tomando providências, falando por vídeo fone com Álvaro, filhinho de Sérgio, que dirige a Fundação portuguesa. Nicolau carregava a exposição de fotos dos dois amigos, que eu levara de Salvador, o palquinho era montado, as cadeira chegavam para formar o auditório, que me pareceu grande, mas que veríamos depois a necessidade de ser pelo menos três vezes maior. Tantas coisas a falar, tantos abraços e beijos mais.

— E o livro, Pilar, você já viu?

— Pero si, lo tengo, lo gané en San Paulo.

Ah, inveja roxa! Daqui a pouco vem ela com seu exemplar de “Com o mar por meio”.

— Quedate con el mio...

— Não precisa, Pilar...

— Si, precisa...

Pilar é mais “general” que eu! Temos energias parecidas, penso que doçuras também.

Viva Pilar e a Fundação Saramago!

4. Com o mar por meio

Este é o título do livro com a correspondência trocada entre os dois escritores. Cartas de amizade garimpadas e organizadas por Bete Capinan. Volume arrumado, mandamos para Pilar acrescentar as cartas que não tínhamos, ambas separamos fotos. Tudo pronto, seguiu para a Companhia das Letras, Luiz Schwarcz comprou imediatamente a idéia do livro. Quico Farkas, primo dos meus primos, talentoso e querido, fez uma belíssima arte gráfica. Ficou encantador!

Viva Bete Capinan e Angela Fraga!

5. Sobre inaugurações e filas

A Flip foi inaugurada por Lázaro Ramos e Lília Schwarcz de maneira impecável, Lima Barreto belamente homenageado, pura emoção!

Dia seguinte me embonequei e fui cedo para a Casa. Ricardo, da Fundação  Saramago, esquecera de desmarcar comigo a entrevista para o Globo News Literatura, por isso encontrei porta fechada. Mas partindo dela uma fila já se formava. Uma moça se aproximou:

— Encontrei um livro seu perdido na Praça da Matriz, fiquei com ele!

A fila aumentava rapidamente, eu me diverti (e emocionei) confraternizando com os leitores, tirando fotos. Que alegria ver tantos jovens leitores de José Saramago e Jorge Amado, tanta gente com real interesse em boa literatura.

Com o passar dos dias a fila só aumentou. Até agora não me refiz da forte impressão que ela me deixou.

Viva a fila! Viva os leitores.

Vou parar um pouco para almoçar com minha tia Luiza, que me hospeda em São Paulo. Quando voltar, escrevo contando mais. Até já.

Colo de filha é colo bom. O melhor!

Domingo, 30 de julho de 2017

6. As mesas

Foram duas as mesas que fizemos juntas, Pilar a eu. A primeira, no dia da abertura, teve o lindo nome de Dois Corações Vermelhos, José e Jorge vistos em várias perspectivas: escrita, política e afetos. Foi mediada por Lilia Schwarcz. Houve uma compatibilidade engraçada entre o academicismo da Professora Lili, a palestrante Pilar e eu, a mais informal das três. Tudo saiu às mil maravilhas, mesmo com certa desobediência, quando ultrapassávamos o tempo máximo, saindo do tema sugerido. Da nossa parte e da parte do público, poderíamos estar lá até agora, falando de nossos personagens preferidos. A segunda mesa, mediada por Luiz Schwarcz, foi sobre o livro de cartas, e mais uma vez a conversa fluiu tranquila, as perguntas do público muito boas.

O papo pós mesa, com os leitores, era sempre emocionante, e aí vão alguns drops desses momentos em que se escuta o leitor.

7. Professora da USP, disse que me contaria algo que sempre manteve em segredo: era viciada em Jorge Amado. Sendo considerado por sua família um autor impróprio para mocinhas, minha nova amiga não tinha dinheiro para comprar os livros que desejava. Vendeu algumas panelas da cozinha materna para adquiri-los!!! Só não fiquei sabendo se algum dia foi descoberta, me parece que não.

8. Na pré-adolescência uma senhora leu Os Capitães da Areia. O livro provocou nela sensações nunca antes sentidas. Pela primeira vez na vida se masturbou. Não sei bem porque, resolveu contar à mãe, imaginei eu que para compartilhar um bom momento, uma nova emoção. O tiro saiu pela culatra, a mãe ficou horrorizada, tomou o livro e o queimou. Fez exatamente como a ditadura do Estado Novo, que mandou queimar, por decreto, toda a primeira edição deste mesmo livro, até hoje o mais lido do autor.

9. Estávamos autografando o livro de cartas quando se aproximou uma senhora loura, muito bonita. Me disse que havia lido minha crônica sobre o senador prepotente, aquela que viralizou na Internet. Imediatamente pensei ser ela paranaense, mas não. Me contou que naquele 1998 era aeromoça da Varig, e serviu na primeira classe deste vôo que levou meus pais, pela última vez, da casa de Paris para a Casa do Rio Vermelho. Ela tinha guardado os planos de vôo, pode olhar e conferir.  Choramos juntas de emoção.

10. Recebemos, minha família e eu a visita dos amigos Paula e Daniel, que vieram de Cunha para almoçarmos juntos. Quando estava na fazenda, fomos almoçar na deles, almoço delicioso feito pelo doutor Daniel. Em Paraty, fomos matar a fome de Nicolau de carnes, e conhecer o Bartholomeu Primitivo. Ótimo.

11. A Casa Amado e Saramago me deu um presente inestimável, novos amigos portugueses! Estou falando de Rosarinho Prata, com quem a cada momento imaginava ter brincado na infância. A escritora e jornalista Anabela Mota Ribeiro, de quem já comecei a ler Paula Rego por Paula Rego, e  seu José António Pinto Ribeiro, que fala brasileiro na perfeição e fez importantíssima mesa sobre direitos humanos com Pilar, e a participação de outro amigo recente, sendo este brasileiro, Luiz Eduardo Soares.  Quero reencontrá-los outras vezes, e também ao Sérgio, querido e eficientíssimo pai do Álvaro. Ainda da casa onde se reuniam os amigos de Pilar, agora meus amigos, uma pessoa que ficará para sempre: Andrea Zamorano. Segundo ela, agora sou sua “protegée”!, pois gostou dos meus enredos infantis e apresentou-me a editores. Fiquei cheia de esperanças de ter meus livrinhos publicados.

12. A caipirinha de pimenta

No final da sessão de autógrafos de Com o mar por meio,  passava das nove da noite quando Pilar me cochichou no ouvido:

— Estamos muito cansadas, precisamos tomar una copa.

Convidamos Andrea e fomos as três. A Caipirinha de lima, mel de cana e pimenta dedo de moça do restaurante Bartholomeu foi relaxante e inspiradora. Confissões entre amigas, conselhos bem vindos. Assim encerrei o meu último dia na Casa Amado Saramago. Fui dormir o sono dos que são muito felizes.

13. A Flipinha

O sábado chegou com o Cortejo Literário da Flipinha. Inicialmente fiquei apreensiva, pensando que falaria e andaria ao mesmo tempo. Impossível fazê-lo no centro histórico de Paraty, sem torcer um pé! Não, não foi assim que se deu. Acompanhados de um animador, estudante de pedagogia, e de Gabriela, um anjo da guarda da Flip, caminhamos da Tenda no centro da praça até um lindo espaço à beira mar, ao lado de uma igrejinha, onde sentamos e conversamos. A surpresa foi a platéia, quase só de adultos e adolescente, pessoas interessadas por escrita e educação. Pude contar meu processo de criação, junto com meu neto Felipe, do livro O futebol dos bichos. Foi uma verdadeira delícia.

Ainda há muito o que contar, emoções a compartilhar, como o encontro com o amigo Sebastião Lacerda, que estava aproveitando, como eu, as maravilhas da Pousada da Marquesa. Mas vou ficando por aqui. Passei a madrugada viajando para São Paulo, e desde muito cedinho que estou aninhada no regaço de minha tia Luiza, continuando a maratona de carinho e literatura, sendo ela filha de Graciliano Ramos.

Desejo uma ótima semana a todos, e com muito amor mando o meu beijo especial para Pilar del Río, minha amiga, minha irmã.

Paloma Amado, filha do escritor Jorge Amado, é escritora de literatura infantil e autora do livro A Comida Baiana de Jorge Amado