Entrevista

"É muito importante intervir e ajudar estes jovens agressores"

Quadros de ansiedade e de depressão estão muitas vezes presentes entre os adolescentes violentos, diz investigadora.

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A investigadora Diana Silva é também uma das autoras do livro Intervenção psicológica com jovens agressores da editora Pactor — Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação — com publicação prevista para Setembro. Nesta entrevista, a psicóloga fala de violência juvenil, sem comentar casos particulares.

PÚBLICO Os casos mediáticos são apenas uma pequena parte dos episódios violentos em ambiente escolar?
Diana Silva
– Há uma parte muito pequena que é denunciada e ainda menor é a parte das que são denunciadas através de vídeos e que acabam nas redes sociais. Os investigadores dizem que apenas cerca de metade dos casos são denunciados. Este é um fenómeno transversal a todas as escolas – sejam públicas, sem privadas, sejam alunos de estatuto socioeconómico mais elevado ou mais baixo. Situações de violência acontecem todos os dias, em todas as escolas e sempre aconteceram em contexto escolar desde que existe a escola. Quando há agressividade física, e quando há danos físicos, é mais fácil que a situação seja denunciada.

Habitualmente as vítimas não denunciam por medo? Por vergonha?
Por sentimentos de vergonha, de inferioridade, por acharem que não vão ser ouvidas. As próprias vítimas entram depois em autocrítica, pensando ‘eu devia ter-me imposto, devia ter feito alguma coisa, eu não admito que isto aconteça’. Porém, quando estão efectivamente na situação, não conseguem ter essa postura e muitas vezes criticam-se por não denunciarem e não conseguirem sair da situação. Isso acaba muitas vezes num ciclo que gera ainda mais vergonha. Continuam a questionar-se: ‘Como é que fui capaz de me submeter a uma situação daquelas sem me defender?’

Os vídeos denunciam os suspeitos. Porque são então as imagens partilhadas na Internet?
Pode ser com o objectivo de perpetuar o ciclo de humilhação do outro ou para tentar ganhar estatuto entre o grupo – partilham e dizem ‘fui eu que partilhei esta situação onde eu estava realmente a ser dominante perante alguém’ – sem terem aquele insight de que esta é uma situação que para os próprios também é humilhante. As partilhas resultam em comentários hostis, e estes reforçam sentimentos que eles próprios já tinham – tanto a vítima como o agressor.

O agressor também tem sentimentos de inferioridade?
Sim, e o facto de repetidamente isto aparecer nas redes sociais com os comentários hostis vai ao sabor destas ideias que eles já têm sobre si mesmos. Uns têm consciência desse sentimento de inferioridade, aceitam-no e debatem-se constantemente com isso. Outros tentam negá-lo, e exteriorizá-lo nos outros. Enquanto alguns jovens interiorizam isso, acham mesmo que são inferiores, fogem das situações sociais, sofrem de ansiedade social ou acabam mesmo por ficar deprimidos, outros adolescentes não querem conviver com esse sentimento de vergonha. Tentam culpar o outro, e atacam o outro, mas o sentimento está lá na mesma. Esta é uma mensagem muito importante. Uma criança que está bem não tem necessidade de estar a fazer isso.

As vítimas têm que ser claramente ajudadas, mas os jovens com este comportamento agressivo também dão um sinal de dificuldades. Assim como existem quadros de ansiedade e quadros de depressão, existe também uma patologia de comportamento que é mesmo uma patologia e indica um nível de sofrimento. É muito importante intervir e ajudar estes jovens agressores. Ajudar os dois lados.

É mais difícil ultrapassar o estigma, quando a situação é exposta na Internet?
Este tipo de exposição poderá entrar quase como um evento traumático, do lado da vítima porque é uma situação em que ela está a ser humilhada ou maltratada, e do lado do agressor porque é uma situação em que, da mesma forma, acaba por ter o mesmo impacto, o mesmo estigma, a mesma humilhação [por ter participado naquilo].