Opinião

PCP: um partido, dois sistemas

A linha dura do PCP limita-se ao foro internacional, onde parece estar preservado em formol. Contudo, quando vem para dentro, o comunismo do PCP engole um Lexotan.

Uma das maiores dificuldades para perceber o PCP é esta: porque é que um partido que quer tanto impor o comunismo lá fora (veja-se as suas posições acerca da Venezuela) parece ter tão pouco interessado em impô-lo cá dentro (veja-se a moderação com que tem apoiado o governo de António Costa)? Para fora, o PCP ruge; para dentro, mia. Será que o tigre internacional é, afinal, um gatinho doméstico? À boa maneira chinesa, estaremos nós perante um partido com dois sistemas – um, radical e infrequentável, para consumo externo; outro, moderado e essencialmente amigo do proletariado, para consumo interno?

O PCP para consumo externo diz infindas barbaridades, daquelas que parecem incompatíveis com o apoio ao governo de uma democracia liberal, como é a portuguesa. Toda a gente tem falado muito da posição do Partido Comunista em relação ao caos na Venezuela, mas há muitos outros exemplos de extremismos impenitentes e saudosamente soviéticos. Vejam o que o PCP escreveu sobre a condenação de Lula: “A indigna condenação em primeira instância do ex-presidente Lula da Silva pelo Juiz Sérgio Moro consubstancia um processo eminentemente político, parte integrante e indissociável do golpe de Estado institucional que determinou a destituição da Presidente Dilma Rousseff no ano passado e que continua em curso no Brasil.”

Isto demonstra um extraordinário desrespeito pela separação de poderes. Para defender Lula o PCP arrasa, sem problemas, com a independência de todo o sistema judicial brasileiro. E, no entanto, em Portugal o PCP jamais se atreveria a propagar semelhantes opiniões. Pelo contrário. Sempre manifestou respeito pela separação de poderes, e tem nesse campo uma posição até muito institucionalista: não ataca juízes, não maltrata a comunicação social e costuma ser bastante moderado nas críticas ao Presidente da República.

Uma visita ao site do PCP ajuda a clarificar o meu ponto. O site está disponível em duas línguas, português e inglês. Em inglês, o PCP celebra o centenário da “October Revolution” e anuncia em grande plano: “Socialism – necessary today and for the future”. Na versão portuguesa, a Revolução de Outubro eclipsa-se e a página de abertura é ocupada com a promoção da Festa do Avante, em modo 100% capitalista: “Entrada Permanente à venda – 23 euros até 31 de Agosto – Compra já”. Poderia perfeitamente ser a homepage do Vodafone Paredes de Coura. Até o vermelho é o mesmo. Quando se clica em “compra já”, somos direccionados para a Ticketline, que está alojada no Sapo. Ironia das ironias: a Festa do Avante até dá dinheiro à horrível Altice. Eis os comunistas portugueses de mãos dadas com o grande capital.

A navegação pelo site do PCP é uma experiência não só divertida, mas também repousante (admito: o meu coração vermelho está a cair naquela complacência com os comunistas que aqui critiquei há um mês). O PCP é geralmente apresentado como um partido muito conservador e petrificado – mas será mesmo? Tenho cada vez mais dúvidas. Debaixo do fato de dinossauro político há uma plasticidade ideológica que explica em boa parte porque é que os Partidos Comunistas desapareceram em toda a Europa, mas não em Portugal. A linha dura do PCP limita-se ao foro internacional, onde parece, de facto, estar preservado em formol. Contudo, quando deixa o lá fora e vem para dentro, o comunismo do PCP engole um Lexotan. Democratiza-se e capitaliza-se. Qual das suas duas faces é a mais verdadeira? Essa é a questão do milhão de rublos.

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