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Ondas de calor vão ser cada vez mais mortíferas para os europeus

Projecção Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia nota que países do Sul e Mediterrâneo serão os mais afectados.

A onda de calor está a afectar Itália, Roménia, República Checa, e Hungria (na foto, Budapeste)
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A onda de calor está a afectar Itália, Roménia, República Checa, e Hungria (na foto, Budapeste) NOEMI BRUZAK/EPA

As mortes provocadas por ondas de calor na Europa poderão aumentar mais de 50 vezes até 2100 se nada for feito, estima uma projecção publicada na revista The Lancet Planetary Health. O estudo, que aponta o dedo sobretudo às alterações climáticas, foi, no entanto, criticado por não incluir cenários de menor aumento da temperatura média do planeta.

O Sul da Europa seria, segundo esta projecção, o mais afectado. Portugal, por exemplo, passaria de 91 mortes por ano devido a ondas de calor no período entre 1981-2010, para 4555 mortes anuais em 2071-2100. A nível global, a diferença passa de 2700 mortes anuais no primeiro período para 151.500 no segundo.

Quase todos os habitantes dos países do Sul e Mediterrâneo seriam, em 2071-2100, afectados por fenómenos relacionados com as alterações climáticas. A nível europeu – o estudo analisou os 28 países da União Europeia e ainda a Suíça, Noruega e Islândia –, dois terços dos habitantes seriam afectados (o que inclui morrer, ficar doente ou ferido, perder a casa, por exemplo). Trata-se de um aumento de 25 milhões de pessoas anualmente afectadas entre 1981 e 2010 para 350 milhões por ano entre 2071 e 2100.

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O estudo, que analisou os potenciais efeitos de ondas de calor, ondas de frio, fogos florestais, seca, cheias e tempestades de vento, destacou as ondas de calor porque se tornarão, antecipa, as mais mortíferas – 99% das mortes por fenómenos meteorológicos terão esta causa.

Os autores do estudo prevêem também um aumento substancial de mortes provocadas por cheias em zonas costeiras, de seis mortes por ano no início do século para 233 por ano no final, segundo a agência Reuters.  

A projecção foi feita por investigadores do Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia que analisaram os efeitos dos fenómenos meteorológicos nos 28 países da União Europeia, na Suíça, na Noruega e na Islândia, com base nas ocorrências durante o período de 1981 a 2010 para fazer um cálculo do que poderá acontecer no período de 2071 a 2100.

As alterações climáticas, escreveram, serão as principais responsáveis pelos fenómenos meteorológicos, estando na origem de 90% do risco, enquanto os outros 10% ficarão a dever-se ao crescimento populacional, migrações e urbanização.

“O aquecimento global é uma das maiores ameaças à saúde humana do século XXI”, disse Giovanni Forzieri, do centro conjunto de investigação, co-autor do estudo. “O seu perigo para a sociedade estará cada vez mais ligado a incidentes meteorológicos.”

O fenómeno “pode resultar num impacto humano muito acelerado a não ser que sejam tomadas medidas adequadas de adaptação”, declarou Paul Wilkinson, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. O estudo mostra, defende o especialista, a necessidade “de acelerar acções mitigadoras” para limitar emissões de gases com efeitos de estufa, diminuir as alterações climáticas e proteger a saúde da população.

O estudo parte do princípio de que o aquecimento global se manterá e que nada será feito – baseia a projecção no pressuposto de que as temperaturas vão aumentar 3 graus Celsius do seu valor de 1990 até 2100.

Muitos países estão a tomar medidas para fazer diminuir o aquecimento global – a meta do acordo de Paris assinado por quase 200 países é de limitar o aumento de temperatura até um máximo de 2 graus Celsius em relação a níveis pré-industriais.

Uma primeira crítica ao estudo veio de investigadores sul-coreanos que consideraram, num artigo na mesma revista científica, que os valores da projecção “podem ser excessivos”. “As pessoas têm capacidade de adaptação e de se tornarem menos vulneráveis do que antes a condições meteorológicas radicais, seja por avanços da tecnologia média, ar condicionado, ou isolamento térmico em casas”, escreveu a equipa da Universidade de Seul.

O estudo é divulgado justamente quando há uma vaga de calor na Europa, com temperaturas a chegar aos 44 graus em alguns locais. Em Itália, as temperaturas estão 10 graus acima do que é a média habitual para esta altura do ano. Morreram já cinco pessoas em incidentes relacionados com as altas temperaturas, três em Itália e duas na Roménia.

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