Entrevista

“Os portugueses penalizaram o PSD” pela reacção a Pedrógão

Eduardo Cabrita é no Governo o responsável pelo poder local e tem coordenado as respostas à tragédia dos incêndios. Em entrevista ao PÚBLICO, elogia a resposta do Governo e o papel do Presidente, mas condena a atitude do PSD.

Eduardo Cabrita e a tragédia de Pedrógão: “Tudo tem de ser apurado”
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Eduardo Cabrita e a tragédia de Pedrógão: “Tudo tem de ser apurado” Rui Gaudêncio

O ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, é o braço direito do primeiro-ministro para dossiers estruturais da governação, como é o caso da descentralização. Responsável pelas autarquias, tem tido papel decisivo na coordenação das respostas à tragédia dos incêndios. É nessa condição que critica a actuação do PSD: “Os portugueses sentem uma sensação de quase desprezo pela forma como o PSD tentou usar [Pedrógão] com intuitos políticos de curtíssimo prazo.”

O primeiro-ministro é considerado o mais hábil dos últimos anos, mas tem sido muito criticado por incapacidade de gestão política da crise provocada pelos incêndios. Como é que isto é possível?
Estou plenamente de acordo com a primeira parte, em total discordância com a segunda. Os portugueses reconhecem que os acontecimentos de 17 de Junho, os incêndios com a dimensão trágica que tiveram, exigem uma resposta de emergência, uma grande coordenação de políticas públicas e um olhar para o futuro.

Isso parece não ter acontecido.
A resposta à emergência foi dada.

Com falhas.
A resposta à emergência foi dada. Hoje temos o levantamento de tudo o que é necessário recuperar, que foi feito com coordenação do ministro do Planeamento, num tempo recorde. Estão lançados os passos necessários junto das instituições europeias. No plano nacional, colocámos na região a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. E a semana passada estive com todos os autarcas, que têm sido, aliás, inexcedíveis quer na articulação entre eles, quer no trabalho com o Governo. Estive a trabalhar nas questões do cadastro e do ordenamento florestal.

Mas isso é a longo prazo.
Eu falei da emergência.

Em Mação, por exemplo, voltaram a verificar-se problemas com o SIRESP, descoordenação.
Não me vou pronunciar sobre questões específicas da Protecção Civil. Acho que temos tido uma miserável tentativa de aproveitamento político de uma dimensão da tragédia humana.

O Governo não sai fragilizado?
Tenho muita dificuldade e não aprecio, aliás, o estilo de político preocupado com a próxima sondagem. Mesmo pensando que as sondagens valem o que valem, elas reflectiram uma queda do PSD. Os portugueses penalizaram o PSD.

Não estou a falar do PSD.
Nós tivemos uma tragédia que teve uma dimensão que não conhecíamos na nossa vida política da geração de todos os que temos hoje responsabilidades políticas. Isso exige um acrescido sentido de responsabilidade a todos e a todas as instituições, ao Governo, à Assembleia da República, a todos os partidos. Os portugueses estão mais exigentes sobre as instituições. Se me pergunta sobre o imediato, diria que os portugueses sentem uma sensação de quase desprezo pela forma como o PSD tentou usar [Pedrógão] com intuitos políticos de curtíssimo prazo. Os únicos dados que tenho são aqueles que resultam das consultas de opinião pública, que dizem que o Presidente da República esteve bem na crise.

O PS tem continuado a fazer estudos de opinião?
Não sei, não tenho nenhuma responsabilidade executiva no PS. O Governo respondeu bem à emergência e a direita, sobretudo o PSD, esteve muito mal, é o que dizem as sondagens. Agora, o que é mais importante é a nossa capacidade, face a um problema que é dramático, de trabalhar para o futuro.

Agora já tem mais zonas que arderam.
Vamos ter imensos incêndios, não vamos confundir o que é diferente. É totalmente diferente, porque esta zona exige uma resposta exemplar do ponto de vista de revitalização económica, do ponto de vista do ordenamento florestal.

Vai ser uma zona piloto.
E a Assembleia da República entendeu isso. Deu-nos um mandato para que essa seja a zona de experiência do novo modelo de cadastro e de ordenamento florestal. E é para esse futuro que estamos já a trabalhar.

A lista dos mortos de Pedrogão não devia ter sido logo divulgada?
Essa é uma especulação que não tem nenhum sentido. Sobretudo, acho totalmente absurdo que se façam debates sobre uma especulação, criando a ideia de que há alguma coisa para esconder, quando não há nada para esconder. Sei que alguns desvalorizam a separação de poderes e o Estado de Direito, mas não há nada para esconder. Agora, o que me preocupa também aqui é o profundo desinteresse por aquilo que é o trabalho estrutural de revitalização económica, de ordenamento florestal, de cadastros. E que se venha discutir se são 64 ou 65 mortos, coisa que não muda em nada a dimensão da tragédia sobre a qual é preciso agir. Novamente diria que essa foi uma semana negra da oposição.

Admite que, para o Governo, houve coisas que não correram tão bem e que esta experiência permitirá aprender para o futuro?
Não podemos tratar uma tragédia humana como uma questão de gestão política. A gestão política passou por o primeiro-ministro e todo o Governo de imediato responderem à emergência sem pôr em causa a sua dimensão. O Governo destina-se a fazer cada dia melhor do que foi feito no período anterior. E, por isso, vamos ter este ano os melhores resultados económicos. Num quadro geral, em todas as áreas, o nosso desafio é fazer melhor. E estamos a fazer melhor. O nosso desafio é ter este ano os melhores resultados económicos desde que Portugal aderiu ao euro. É isso que marcará 2017.

Também vai ficar marcado pela morte de 64 pessoas num incêndio.
É mobilizar o sentimento nacional em torno desta tragédia como uma oportunidade para fazer de vez a identificação da propriedade, a reforma do cadastro, a verdadeira reforma da floresta. Isso é trabalhar para o futuro, uma dimensão a longo prazo, até de gerações. E é fazer a descentralização. Não vale a pena andarmos permanentemente em torno da quezília, da pequena controvérsia do dia e a adiar aquilo que deve ser feito. É esta dimensão estrutural de um país competitivo, de um país que olha para o interior e não discute na Avenida de Roma ou no Terreiro do Paço umas controvérsias que aconteceram em locais que nem sequer conhecem. Eu conheço aqueles territórios, não precisei destes acontecimentos para conhecer aqueles concelhos.

Como vê a actuação do Presidente da República nestes momentos?
O Presidente da República tem correspondido àquilo que é o sentimento de ser a voz dos portugueses, uma voz solidária com os portugueses e que mobiliza o melhor do empenho nacional na ultrapassagem da crise, dizendo que nós temos de dar consolo àqueles que foram vítimas da tragédia, perderam familiares e amigos, mas temos sobretudo de olhar para o futuro. Citando o senhor Presidente da República, o que não podemos fazer é controvérsias político-partidárias de curtíssimo prazo em cima de tragédias humanas.

Não considera que o Presidente, nas suas múltiplas declarações sobre os vários incêndios, criticou o Governo?
Não. Estive com o Presidente várias vezes, estive com o Presidente em Castanheira de Pêra no dia do município, naquilo que ele disse ser o primeiro dia do renascimento daquela região. Disse-o ao meu lado e senti essas duas mensagens muito fortes, uma mensagem de solidariedade com as populações atingidas e de mobilização para a construção do futuro.

Nem quando ele diz que tem que ser tudo apurado?
O Governo foi o primeiro a pedir o apuramento de tudo. O primeiro-ministro, ao pedir a diversos departamentos públicos respostas precisas sobre questões que importava esclarecer. Portanto, não posso estar mais de acordo que tudo tem de ser apurado.

Na sua opinião, o PS deverá apoiar a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa?
Não vamos antecipar. As próximas eleições são as autárquicas.

Estou a perguntar-lhe a sua opinião pessoal. Vota em Marcelo em 2020?
Não é o tempo. Eu vou votar nas autárquicas no dia 1 de Outubro, em 2019 votarei nas legislativas, e a seu tempo, face aos candidatos existentes, direi em quem votarei nas presidenciais.

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