Crítica

A persistência da memória

Romance implacável que faz o retrato de um país devastado pela guerra e que mostra como é impossível separar a história colectiva da história do indivíduo.

<i>Rapariga em Guerra</i> é um romance implacável, mas ao mesmo tempo generoso
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Rapariga em Guerra é um romance implacável, mas ao mesmo tempo generoso

Sara Novic nasceu em 1987 na Croácia e uns anos depois emigrou para os EUA, onde actualmente vive e ensina. O seu romance de estreia, Rapariga em Guerra, conta a história de Ana, uma criança de 10 anos (corre o ano de 1991) que vive em Zagreb com os pais e uma irmã mais nova. A narrativa contada não é, nem pretende ser, uma análise histórica ou sociológica da situação, à época, nos Balcãs. É também nisto que a mais recente geração de escritores da região balcânica se diferencia da dos mais velhos, aqueles que escreveram sobre a guerra civil na antiga Jugoslávia nos anos que se lhe seguiram.

Enquanto autoras como Dubravka Ugresic ou Slovenka Draculic (ambas croatas e nascidas em 1949) tentam explorar, ou aclarar, as origens dos conflitos nesses novos países tendo por base histórias ficcionadas, Sara Novic escolhe uma outra perspectiva, a do olhar para dentro, olhar para os estragos que a guerra fez num indivíduo, e para os efeitos da sua persistência da memória, de como sobreviver ao trauma. “Sentada no chão, no escuro, não tinha medo; a sensação aproximava-se mais da expectativa durante um jogo de escondidas particularmente intenso.” Talvez por causa deste olhar a narrativa fuja tanto a uma cronologia linear, e de vez quando se deixe ‘perder’ no que ficou do passado. A narrativa tem dois tempos e dois espaços que funcionam como charneira na vida da personagem: Zagreb (1991) e Nova Iorque (2001). É entre eles que tudo acontece.

Não deixa de ser curiosa a primeira frase do romance: “A guerra em Zagreb começou por causa de um maço de cigarros”. Esta afirmação, só por si, avisa de imediato o leitor do tom metafórico da história que aí vem. Este começo justifica-se mais adiante quando a personagem sai para comprar cigarros para um amigo dos pais, e o habitual vendedor lhe faz pela primeira vez a pergunta, “Queres cigarros sérvios ou croatas?” Ela apercebe-se que algo está a mudar.

Depois vêm as imagens de refugiados na praça, de um colega da escola de apelido sérvio que deixa de aparecer e manda por outro um recado de despedida, os raides aéreos (ainda sem bombas) à cidade, as corridas para os abrigos subterrâneos, a viagem à Eslovénia (com o guarda fronteiriço a perguntar se queriam mesmo voltar à Croácia. O país que ela antes conhecera está agora em colapso, dividido, aquilo que antes lhe ensinaram parece ter deixado de fazer sentido: “Na escola [jugoslava], haviam-nos ensinado a ignorar factores de de distinção étnica, embora fosse fácil discernir a ascendência de alguém através do apelido. (…) agora parecia que as diferenças entre nós eram, afinal, importantes. (…) Os sérvios escreviam em cirílico e os croatas usavam o alfabeto latino, mas na Bósnia usavam os dois e as diferenças ao nível da oralidade eram ainda mais minuciosas.”

Já em Nova Iorque, em casa de uma família adoptiva e a estudar na universidade, a personagem não consegue deixar o passado, apesar de todas as tentativas. Com ela persistem recordações da guerra e segredos de gente que lhe foi próxima. Um dia, para tentar fazer as pazes com esse passado doloroso regressa à Croácia, pois há uma infância brutalmente interrompida que tem que ser apaziguada. Esta personagem complexa vive num mundo que, de alguma forma, foi esvaziado de um presente porque o passado não passou. Apesar de alguns capítulos (sobretudo da parte em que a acção tem lugar nos EUA) pouco acrescentarem à narrativa, a vitalidade da linguagem de Sara Novic como que os resgata e não os deixa cair em mais uma comum ‘narrativa do emigrante’.

Rapariga em Guerra é um romance implacável, mas ao mesmo tempo também generoso, que faz o retrato de um país devastado pela guerra e que mostra como é impossível separar a história colectiva da história do indivíduo. “Num efeito secundário da guerra moderna, tivemos o estranho privilégio de assistir à destruição do nosso país através da televisão.”