Opinião

Mulheres verdadeiramente políticas

Vêm estas considerações a propósito de três políticas que tiveram nestes dias honras de primeiras páginas.

Publiquei bastante sobre mulheres e política e fui uma das pioneiras das quotas em Portugal, ainda que conheça os seus efeitos perversos, que não concorde que as mulheres sejam só mais um número ou que basta uma pessoa usar saias para sentir desejo de fazer política, ou ter vocação para isso. Hoje, os tempos passaram desde a constituinte, quando as mulheres capazes de ter uma fala forte no Parlamento ou no governo vinham do salazarismo e estavam nos partidos de direita. As mulheres em Portugal são verdadeiras mandonas e Salazar, quando, após 1945, começou a ter menos apoios, soube (Marcelo Caetano dixit) onde os ir buscar: às mulheres, nomeadamente celibatárias que as havia em barda no nosso país, mas não só essas, e deu-lhes uma imensa visibilidade política a que souberam muito bem corresponder, claro, dentro das baias do regime de então.

A minha posição é que as mulheres deviam estar na política por desejo próprio, por tusa, por estratégia, por conquista. E hoje é já assim que algumas delas lá estão, sobretudo à esquerda e no CDS. No PSD parece terem-se evaporado.

Vêm estas considerações a propósito de três políticas que tiveram nestes dias honras de primeiras páginas. Constança Urbano de Sousa, Margarida Marques e Dalila Araújo. Três mulheres completamente diferentes entre elas, mas três exemplos do que é uma mulher com verdadeira vocação política e que são o indicador de que a participação das mulheres passou a ser o que ela deve ser: não um frete aos partidos e aos homens, não para contarem para as estatísticas, não para serem umas senhoras, mas para agir por gosto e competência, pelo bem comum.

Claro que este tipo de existências cria resistências e grandes. Ana Bettencourt e Margarida Silva Pereira, então deputadas respectivamente do PS e do PSD, publicaram um livro nos anos 90 para mostrar como as mulheres vêem habitualmente a sua carreira política precocemente interrompida sem razão aparente. Mesmo aquelas que não são verbo-de-encher (porque as há, como entre os homens) eram dificilmente reconhecidas pelos senhores que se seguiam. Ora, estas três mulheres têm sido exemplo dessas resistências às mulheres na política. As três provaram a sua total competência nos cargos que foram chamadas a exercer. Isso não impediu que de uma se exija a demissão, outra tenha sido demitida, a terceira quem sabe se chegará a tomar posse. Embora esse seja o calvário de qualquer político, homem ou mulher, o que não é nada habitual é o tipo de destaque que tem sido dado. Nenhuma delas tem nas suas longas carreiras qualquer suspeita nem de incompetência, de falta de ética, de fraude ou de outro abuso no cargo. Nada nesse campo foi levantado. Mas tiveram direito a apreciações comportamentais e de estilo.

Constança, que teve a nobreza de não esconder as lágrimas que devíamos ter chorado face ao desolamento da situação dos nossos compatriotas, foi insinuada entre outros por um comentador televisivo (quem sabe se, infelizmente para ele, ele nunca chorou) pedindo a sua demissão e dizendo que dela não se esperava nada de útil, apenas que se pusesse a chorar. Pessoalmente, na noite em que a vi chorar, agradeci-lhe as lágrimas de humanidade e de impotência. Se a acção política contasse com varinhas mágicas, que fácil seria. Estou segura que quem chora assim e é competente tudo fará, não para que não haja mais incêndios no Verão, mas para que a sua prevenção e combate sejam muito mais eficazes. 

Margarida Marques, ao contrário dos outros secretários de Estado substituídos, mereceu chamada de primeira página para um artigo sobre o seu estilo e feitio. Nada sobre o exercício do seu cargo. Será que ainda não nos habituámos a que cada um e uma tem a sua forma de estar e que nós, que aturámos, por exemplo, 20 anos, o feitio incomodativo de Cavaco Silva, não sabemos ainda distinguir o estilo da acção, por muito que aquele nos irrite?

E sobre Dalila Araújo, outra chamada de primeira página. Para dizer como os resultados da sua audição no Parlamento tinham estado para além de todas as outras? Não. Mas para deixar a suspeita que, sabendo ela demais do assunto, nada garantia a sua ética e independência. Porquê? Ela não tem passado? Vasto e nomeadamente numa empresa que desse ponto de vista deixou tudo a desejar sem que nada a tivesse a ela beliscado?

De três mulheres até hoje acima de muitíssimos homens, profissionalmente na sua acção e politicamente a que nada se pôde apontar de menos bom ou limpo, porquê esta forma de ataque e escárnio ao estilo e ao temperamento? Já a algum homem também se lhe quebrou a carreira insinuando argumentos como os citados?

Adivinho que ser mulher e política de mão cheia ainda desconcerte muita gente. A real paridade não está nas estatísticas. Está exactamente na capacidade dos partidos de serem ciosos das mulheres políticas que provam publicamente as duas qualidades. Ou seja, ciosos da diferença e não de uma pseudo-igualdade. Mesmo, e sobretudo, quando é difícil lidar com isso.