Autoeuropa: produção do T-Roc arranca em plena turbulência laboral

Comissão de trabalhadores demitiu-se depois do pré-acordo com administração ter sido chumbado pela esmagadora maioria da mão-de-obra da fábrica. Novas eleições só depois das férias. Até lá, negociações ficam paradas, mas produção avança.

DRO DANIEL ROCHA - PÚBLICO
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DRO DANIEL ROCHA - PÚBLICO

O braço-de-ferro entre os trabalhadores e administração da Autoeuropa evoluiu para um braço-de-ferro entre trabalhadores. O pré-acordo fechado na semana passada sobre o novo horário foi chumbado por 75% da mão-de-obra da fábrica e a Comissão de Trabalhadores (CT) que o negociou com a administração bateu com a porta. O processo negocial fica adiado para depois das férias. Entretanto, a produção do novo modelo – que está na origem desta tensão laboral – já arrancou e, segundo as duas partes, sem qualquer percalço.

“A actual lista está demissionária, reduzida a actos de gestão. Vamos criar uma comissão eleitoral para decidir uma data para novas eleições, mas só no final do mês. Neste momento, 50% da fábrica está de férias, na terceira e quarta semana vai ser ao contrário. Só no dia 28 de Agosto será possível marcar as eleições”, explicou ao PÚBLICO o coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, Fernando Sequeira. Perante a questão sobre se tenciona recandidatar-se, Sequeira não hesitou: “sim”, sem mais explicações.

Contactada, fonte oficial da Autoeuropa esclareceu apenas o que já havia sublinhado sobre o chumbo, antes de ficar sem interlocutor nas negociações: “a administração da Volkswagen Autoeuropa está a analisar todos os contornos deste processo e comunicará oportunamente os próximos passos a serem tomados”.

Em causa está um pré-acordo que prevê que o novo horário de trabalho - exigido pelo aumento de produção estimado com o novo modelo da fábrica, o T-Roc - inclua um pagamento mensal de 175 euros adicionais ao previsto na lei, para além de 25% de subsídio de turno e mais um dia de férias. Tudo junto, este pacote representa um aumento mínimo de 16% no rendimento mensal dos trabalhadores, uma compensação apesar de trabalharem menos horas e menos dias por semana.

No entanto, os trabalhadores não aceitaram este pré-acordo, tendo 75% chumbado a solução defendida pela CT, numa votação realizada no passado dia 28 de Julho, que contou com a participação de 3472 trabalhadores num total de 4415 inscritos.

A generalidade dos trabalhadores da infra-estrutura reclama outro tipo de compensação. Em declarações ao Diário da Região, um funcionário da empresa explicou que "na votação, em vez de ser perguntado aos trabalhadores se concordavam com o pré-acordo, fala-se apenas nos 175 euros. Ora, os trabalhadores deixaram bem explícito que o que não querem é a perda do direito do trabalho ao sábado como dia extraordinário”, acrescentando que o valor de “175 euros propostos é como uma cenoura em que os trabalhadores trocariam a actual remuneração dos sábados a 100%, por 175 euros mensais”. “Um trabalhador de nível intermédio recebe ao sábado um valor bruto na ordem dos 100 euros, fazendo os quatro de um mês ganharia 400 euros. E é este direito que os trabalhadores não querem perder, trocar 400 euros por 175”, reforçou o mesmo trabalhador.

Produção arrancou esta semana

Numa reacção imediata a este chumbo, logo no dia da votação, Fernando Sequeira salientou a legalidade dos horários que a Autoeuropa pretende implantar e foi mais longe, considerando que a medida deverá avançar, apesar do chumbo. Esta quarta-feira, ao PÚBLICO, já depois da demissão oficializada, mostrou-se ainda “surpreendido [com a votação]”, sobretudo porque “houve gente com contratos recentes, não abrangidos pelo pré-acordo, que votaram contra”. E alertou que, perante o facto de a CT ficar sem poderes de negociação, “a administração pode aplicar as novas regras de forma unilateral”, um cenário que, ainda assim, diz não acreditar que aconteça. 

Esta quarta-feira, o sindicato dos Trabalhadores das Industriais Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Sul (SiteSul), afecto à CGTP, reuniu-se com a administração da Autoeuropa. O sindicato havia assumido em comunicado que “para facilitar a negociação” disponibilizava-se “para retirar o pré-aviso de greve para o dia 30 de Agosto”, caso a empresa retirasse a sua proposta de horário de segunda a sábado. Por enquanto, a greve continua marcada. Fernando Sequeira desvaloriza esta iniciativa do sindicato, dado que “a empresa não negoceia com eles”, só a CT representa legitimamente os trabalhadores. Refira-se que pré-acordo foi aprovado por maioria na comissão de trabalhadores, mas com votos contra dos sindicatos afectos à CGTP, designadamente dos representantes do SiteSul e da Fiequimetal.

A produção do novo modelo T-Roc, um veículo utilitário desportivo, arrancou nesta segunda-feira e, segundo assegurou fonte oficial da fábrica de Palmela ao PÚBLICO, “estamos a produzir ao ritmo que estava planeado”. Neste ponto, a CT demissionária também está em sintonia com a administração, garantindo que “o volume de produção actualmente não exige trabalhar aos sábados, só quando estiver em velocidade de cruzeiro”. Acerca do risco de afectar a produção numa fase mais adiantada, sobretudo quando acelerarem os tempos de produção – em Novembro há uma nova fase e em Fevereiro do próximo ano deverão começar a montar os primeiros automóveis -, Fernando Sequeira acredita que nessa altura tudo estará resolvido. “Há aqui uma boa margem para se trabalhar”, sublinhou.

O novo regime laboral, com trabalho ao sábado e novos horários, é justificado pela empresa com a necessidade de atingir o objectivo de montar mais de 200 mil veículos por ano, na sequência da chegada do novo modelo T-Roc, “quase triplicando os números de 2016”. Nesse ano, saíram de Palmela 85.126 unidades (como o Scirocco), menos 17% face a 2015 e o pior ano desde 2006. Entretanto, a empresa decidiu ainda a contratação de “cerca de 2.000 colaboradores, dos quais 750 são para implementar um sexto dia semanal de produção”.

Notícia corrigida às 14h30, no quarto parágrafo: onde estava "uma compensação por trabalharem mais horas e mais dias", passou a estar "uma compensação apesar de trabalharem menos horas e menos dias". Pelo lapso, pedimos desculpa aos leitores e aos visados.