Opinião

Flores nos cabelos e clones na areia

Bem-vindos ao grande teatro das flores, com música para replicar e vender, memórias felizes e clones de pés na areia. Uma festa!

Como celebrar uma época de grandes canções sem parecer patético? Provavelmente ainda não há resposta certa para tal interrogação, mas isso não impede que, com mais ou menos revivalismos, os anos 1960-70 ressurjam com alguma insistência. Mais pela música do que pelo espírito, embora este, que já na época se revelava algo pueril, ainda sirva de justificação para múltiplos comércios.

Adiante. Esta quinta-feira tem início em Carcavelos, junto à praia, e aí assentará arraiais até sábado, o Flower Power Fest, que se anuncia como “Woodstock em Cascais”. Até agora realizado na costa alentejana, em Vila Nova de Santo André, mudou-se no seu quarto ano de existência para a costa do Estoril. E o que nos idos de 60-70 era tido por alternativo agora é “familiar”. E também teatral. Vejam este apelo da organização: “Tira do baú as calças à boca-de-sino, a mini-saia... e tantas outras peças de vestuário que tão bem caracterizam estas duas décadas. O penteado podes fazê-lo gratuitamente no recinto do Festival!! Não fiques de fora!!” Vamos, pois, brincar aos anos floridos nestes anos de menos flores – que a música ajuda e enquanto se faz isso não se pensa noutra coisa.

O que nos traz então o Flower Power? Algumas bandas de “longo curso”, daquelas que estendem a sua existência por décadas, procurando não desapontar os fãs; e clones, um dos mais florescentes negócios dos novos tempos. É bom lembrar que carreiras longas não são sinónimo de decadência e que vários músicos que começaram nesses anos a sua carreira continuam activos e produtivos, uns com melhores resultados que outros. Veja-se Bob Dylan, Patti Smith, Neil Young, Paul Simon, Paul McCartney, John Mayall, Tom Petty ou os ex-Pink Floyd David Gilmour e Roger Waters. Quem diz músicos, diz grupos. E ainda não pararam de tocar e “rolar” na estrada os Rolling Stones, Deep Purple, Jethro Tull, UB40, Pretenders, Kiss ou os mais “novinhos” Depeche Mode.

Deste lote, o Flower Power traz-nos os Ten Years After que, após a saída do carismático Alvin Lee (1944-2013), têm mudado de formação, apresentando-se agora com Marcus Bonfanti (guitarra e vocais) e Colin Hodgkinson (no baixo), ao lado dos fundadores Ric Lee (bateria) e Chick Churchill (teclas). Ainda na lista dos “verdadeiros”, teremos os Inner Circle, Big Mountain e Ottawan, todos no dia reggae. E, a fechar o festival, na noite de sábado, os portuenses Táxi, regressados aos palcos e às gravações.

Ao lado de todos estes, os clones. Cada vez há mais, para todos os gostos. Grupos ou cantores que imitam (alguns quase na perfeição) os originais. Por cá já vimos vários, com destaque para os The Musical Box (clone dos Genesis, apadrinhado pelos próprios) que, tendo esgotado a Aula Magna lisboeta em 2006, ali voltarão este ano, no dia 2 de Novembro, com Selling England by the Pound. Já The Simon & Garfunkel Story (tributo ao duo norte-americano), que também esgotou a Aula Magna em 2015, actuou este ano no Coliseu do Porto, em Abril, e continua em digressão mundial.

Mas quando se procura por “bandas de tributo”, em inglês ou noutra língua, a oferta é de tal modo avassaladora que se percebe que há aqui um filão. Parece uma lista de manequins de moda. Só para imitar Elvis, surgem-nos, numa das listas, pelo menos 21 “ofertas” com espectáculos já montados: Elvis That’s The Way It Was, The King Of Diamonds As Elvis, Viva Elvis, Gary Graceland, Images of Elvis, Sincerely Elvis, Almost Elvis, Elvis On Tour, Elvis Raised On Rock, Elvis Shmelvis, Elvis Reno, etc. Os Beatles também têm múltiplos clones (Help!, The Beat Beatles, The Beatles For Sale, The Counterfeit Beatles, The Long Tall Beatles, etc), tal como os Queen (Stereo Queen, Queen II, Pure Magic, A Night With Freddie, A Kind Of Mercury, etc), mas as duplicações não se limitam a originais desaparecidos. Pois até os vivíssimos U2 ou mesmo Justin Bieber têm clones para alugar!

Destes, o Flower Power oferece, além de uma banda de tributo à época (os holandeses Woodstock Band), réplicas dos Genesis (os italianos The Watch), dos Led Zeppelin (os portugueses Led On), de David Bowie (David Brighton’s Space Oddity) e dos Beach Boys (os ingleses Beach Boys Band). “Para criar um acto verdadeiramente crível e memorável”, diz a organização acerca destes últimos, “os sons vocais e instrumentais são replicados aos mais finos detalhes”. Bem-vindos, pois, ao grande teatro das flores. Com música para replicar e vender, memórias felizes e clones na areia. Uma festa!