Um Verão a cantar com Jacques Demy, uma rentrée encantada com o cinema francês

A 17, em novas versões digitais restauradas, chegam Les Parapluies de Cherbourg e Les Demoiselles de Rochefort. A Midas Filmes propõe ainda para a rentrée Claire Denis, Philippe Garrel, um documentário sobre os irmãos Lumière e o acontecimento 120 Battements par Minute.

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Catherine Deneuve, Les Parapluies de Cherbourg
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Catherine Deneuve e Françoise Dorléac, radiosas irmãs à procura do amor em Rochefort
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Auguste e Louis Lumière
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120 Battements par Minute, de Robin Campillo

Dia 17 de Agosto, dois clássicos, em novas versões digitais restauradas, podem encantar o Verão: Les Parapluies de Cherbourg (1964) e Les Demoiselles de Rochefort (1967, há 50 anos...). Catherine Deneuve, Nino Castelnuovo, uma história de amor em Cherbourg, a guerra da Argélia em fundo – e a música de Michel Legrand; Catherine Deneuve e Françoise Dorléac, radiosas irmãs à procura do amor em Rochefort – e a música de Michel Legrand. São dois musicais de Jacques Demy, cineasta comovente, enorme, muitas vezes citado (até como caução para toda a obra que se quer colocar em bicos de pés – veja-se o que se disse sobre La La Land e o que La La Land quis que se dissesse dele...), mas na mesma medida cineasta sempre esquecido. Verão (en)cantado porque são filmes em que tudo se revela através da música – diálogos feitos com música, gerados pela música –, como força que comanda as personagens, logo, os espectadores, que ficam cativos. Há algo de violento nisto, mas essa é a condição do arrebatamento. E por isso o musical de Demy foi capaz de mostrar, tão "naturalmente", a violência social, e a tragédia: o fabuloso Une Chambre en Ville (1982), que era o último filme do cineasta quando a Cinemateca Portuguesa lhe dedicou retrospectiva em Lisboa, em Dezembro de 1983, e que não exageramos quando dizemos que ainda hoje permanece desconhecido, incompreendido.

Esta reposição é da responsabilidade da Midas Filmes, cuja programação para o Verão e para a rentrée foi arrebatada pelo cinema francês. Já nas salas, Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier propõe um desafio que parece vindo de outro tempo (“Imagine que está no cinema”), para repor, não uma série de filmes antigos, mas a história de um contrato e uma expectativa. É o cinema francês dos anos 30 aos anos 70, de Jacques Becker a Claude Sautet, passando por Julien Duvivier, Marcel Carné e Jean Renoir, filmes sobre a solidariedade, as utopias e fracassos do grupo que dialogavam com o colectivo na sala de cinema do século XX.

A viagem não acabará aqui, e regressará mesmo ao início de tudo: Lumière, de Thierry Frémaux, revisita, reenquadra e projecta até nós (para nós, hoje) as imagens com que Auguste e Louis, em 1895, começaram a forjar o pacto de uma aventura. Frémaux é o "homem" do Festival de Cannes, mas é também, com Tavernier, um homem do Instituto Lumière de Lyon. Ambos aventuraram-se pela memória do cinema de uma forma que interpela o espectador de hoje, seus hábitos, suas expectativas sobre o espectáculo que se desenrola no ecrã. Uma Viagem pelo Cinema Francês e Lumière! não são histórias sobre "filmes antigos", são filmes sobre a nossa história de espectadores.

Isto será para a rentrée, que contempla ainda os novos filmes de Claire Denis, Un Beau Soleil Intérieur (2017), e Philippe Garrel, L’Amant d’un Jour (2017), e aquele que já dentro de duas semanas se prepara para ser um dos acontecimentos das salas francesas: 120 Battements par Minute, de Robin Campillo.

Foi o Grande Prémio do Júri no último Festival de Cannes (prémio recebido pelo Palais des Festivals com uma ovação de Palma de Ouro), é um filme sobre os anos 90 do Act Up de Paris, ramo da organização internacional de luta contra a sida, o momento em que uma série de personagens implicaram o corpo, as suas vidas, por causa da doença, no debate e no confronto público. Há algo de nostálgico por aqui, na forma muito justa como Campillo passa do individual ao colectivo, porque parece uma guerra perdida. Para o realizador (cúmplice de Laurent Cantet em A Turma), os engajamentos colectivos são hoje impossíveis. Mas a questão também é o cinema, a história de um pacto que foi sendo forjado com o grupo... Regressemos então para já aos Becker, Sautet, Duvivier ou Renoir que o documentário de Tavernier celebra...