Duas séries, a mesma premissa: um final diferente para a Guerra Civil Americana

Foram anunciadas duas novas séries que põem a questão: e se o Sul se tivesse separado do resto dos Estados Unidos depois da Guerra Civil Americana? Mas Confederate e Black America, que ainda nem sequer existem, apresentam-se com perspectivas muito diferentes.

David Benioff e D. B. Weiss no centro, com um Emmy na mão
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David Benioff e D. B. Weiss no centro, com um Emmy na mão Reuters/MIKE BLAKE

Nas últimas semanas foram anunciadas duas futuras séries da HBO e da Amazon com premissas parecidas. Tanto Confederate quanto Black America lidarão, através de abordagens e perspectivas muito diferentes, com uma versão alternativa da história da Guerra Civil Americana, na qual os estados do Sul acabaram por se separar do Norte. 

A primeira destas séries é Confederate, da HBO, que foi anunciada no mês passado e é criada por D. B. Weiss e David Benioff, a dupla que trouxe A Guerra dos Tronos, de George R.R. Martin, para o canal de cabo norte-americano. No mundo da série, a Confederação ganhou a Guerra Civil, o Sul separou-se do resto dos Estados Unidos, e lá a escravatura é legal e completamente modernizada. O Norte mantém-se igual. A acção arranca com os eventos que levarão à Terceira Guerra Civil dos Estados Unidos, sendo que, ao longo dos anos, os dois lados já tiveram outros conflitos. A estreia está prevista para 2018 e espera-se que, como costuma ser o caso com as séries novas da HBO, chegue a Portugal através do TVSéries.

Anunciada terça-feira num artigo do site de notícias de entretenimento Deadline, Black America, que está a ser desenvolvida pela Amazon Studios, imagina uma América em que, depois da Guerra Civil, os estados do Luisiana, Mississippi e Alabama se separaram do resto dos Estados Unidos. Os escravos recém-libertados, que receberam reparações, indemnizações pela escravatura, criaram uma nova nação, New Colonia. No presente, New Colonia, depois de 150 anos algo tumultuosos, é uma nova potência em ascensão, enquanto os vizinhos e aliados Estados Unidos, com quem não estão em guerra há 20 anos, vão entrando em decadência. A criação está a cargo de Aaron McGruder, que é responsável por séries cómicas como Boondocks e Black Jesus, mas que agora está a preparar um drama, com a ajuda do produtor Will Packer, que levou aos cinemas sucessos que não costumam ter estreia em sala em Portugal, como Straight Outta Compton, que só chegou a VOD e aos canais TVCine, ou o novo Girls Trip, comédia deste ano que não tem estreia marcada cá. Não há previsão para a data de estreia de Deadline, mas irá provavelmente para o Amazon Prime Video, que funciona em Portugal desde o ano passado.

O projecto já tinha sido anunciado vagamente em Fevereiro, sem quaisquer pormenores a não ser a identificação da dupla criativa por detrás dele, e o facto de ser uma versão alternativa da História à moda de The Man in the High Castle, outra série da Amazon, uma adaptação de O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que imagina um mundo em que os nazis ganharam a Segunda Guerra Mundial. A revelação de pormenores neste momento não é inocente. Packer divulgou a premissa de Black America numa altura em que Confederate está envolta numa profunda polémica. Para começar, Weiss e Benioff, a dupla de Confederate, são, ao contrário de McGruder e Packer, dois homens brancos. Além disso, dizem os detractores, existem demasiados projectos de ficção focados na escravatura e no sofrimento de corpos negros. E a representação de pessoas negras em A Guerra dos Tronos, o projecto actual da equipa de Confederate, costuma restringir-se a escravos ou ex-escravos.

Todos estes factores, aliados a uma avalanche recente de filmes que, de 12 Anos Escravo a Django Libertado, passando por O Nascimento de uma Nação, ajudaram a que o anúncio de Confederate não caísse bem um conjunto de vozes que se ergueram contra a série. São as de activistas como April Reign, que em 2015 tinha cunhado a hashtag de Twitter #OscarsSoWhite, em protesto contra a falta de nomeados negros na edição desse ano dos Óscares, e agora é uma das faces mais visíveis do movimento contra Confederate.

Na noite de domingo, altura em que A Guerra dos Tronos vai para o ar nos Estados Unidos, coordenou um protesto online contra a série na mesma rede social com uma nova hashtag#NoConfederate. Não foi a única pessoa notável a insurgir-se: a escritora Roxane Gay, autora do célebre livro Bad Feminist, escreveu no The New York Times que não queria ler “fan fiction da escravatura” e questionou-se sobre os custos morais de explorar a premissa da série, desabafando sobre o quão cansada estava de narrativas à volta de escravos, enquanto a jornalista e escritora Joy Reid, da MSNBC, argumentou no Twitter que a série tenta agradar "a uma fantasia concretamente americana: escravidão que nunca acaba e se torna um estado permanente para pessoas negras", chamando-lhe também "repugnante".

 O próprio Will Packer, produtor de Black America, comentou, em declarações ao Deadline, que ficção sobre escravatura contemporânea é algo que ele não tem vontade nem de produzir nem de consumir, mesmo não querendo dizer directamente mal da concorrência.

Malcolm Spellman e Nichelle Tramble Spellman, um casal de argumentistas negros que, invidualmente, escreveram para séries como Justified, The Good Wife ou Empire, são parceiros de Weiss e Benioff neste projecto, e dizem estar a ser marginalizados na conversa à volta da série. São “pares, produtores executivos em pleno e parceiros”, disse Malcolm à NPR. A dupla de A Guerra dos Tronos confirma isso numa entrevista ao Vulture, o site da revista New York. Quanto a acusações de que a série poderá encorajar e agradar a pessoas que querem que a escravatura volte a existir, Malcolm ressalva que a escravatura e os seus efeitos continuam vivos e a afectar pessoas no dia-a-dia –, argumentos que são utilizados pelos detractores da série –, e que Confederate não pretende glorificar nada, muito menos ser "pornografia" para quem gosta de escravatura ou mostrar “plantações e chicotes”, antes, diz o argumentista, falar dos efeitos da escravatura que ainda subsistem hoje e traçar paralelos entre a série e o mundo actual.

Nenhuma destas séries está ainda feita. Aaron McGruder já está a escrever Black America, mas Confederate ainda nem sequer tem palavras escritas, nem sequer as personagens foram decididas. Não há um único frame filmado (Confederate começará a ser rodada só após a temporada final de A Guerra dos Tronos estar completa). É até possível, se bem que improvável, que nem cheguem a ir para o ar: a onda de publicidade negativa que Confederate está a gerar poderá levar a HBO, cujas novas séries passam em Portugal no TVSéries, a mudar de ideias. Não seria a primeira vez: em 2012 e 2016, respectivamente, Luck e Vinyl foram renovadas para segundas temporadas e canceladas antes de estas virem a concretizar-se. É esperar para ver.