Reportagem

Um acampamento de escuteiros com supermercados, um heliporto e moeda própria

São 21 mil. Escuteiros de todo o país juntam-se em Idanha-a-Nova para o seu acampamento nacional. Acontece por norma a cada cinco anos. Ontem foi o primeiro dia oficial. E Marcelo não faltou.

Sérgio Azenha
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O primeiro dia é sempre o mais movimentado. Junto ao pórtico de entrada do Acampamento Nacional do Corpo Nacional de Escutas (Acanac), em Idanha-a-Nova, o bulício de jovens fardados que se vão organizando para entrar em campo não pára, bem como dos autocarros e carrinhas que ali os vão descarregando e andando. A eles e aos materiais de construção, em grandes quantidades.

De boné ou chapéu, calções, meias e T-shirt ou camisa, a chegada ao campo começou no domingo e entrou pela tarde desta segunda. São 400 autocarros a transportar 21 mil escuteiros até aos arredores de Idanha, onde vão ficar até sábado. É praticamente uma pequena cidade montada no meio do mato, numa operação logística de dimensões correspondentes.

Joana Oliveira serviu de guia ao PÚBLICO pelo acampamento, que se estende pelos 79 hectares do Campo Nacional de Actividades Escutistas (CNAE). Quando não está de lenço vermelho ao pescoço, a escuteira de Évora, com 21 anos, é estudante de Direito. No final da manhã desta segunda, apesar do corrupio de carrinhas e jovens, o ACANAC ainda estava num estado embrionário.

Joana vai referindo várias vezes que nesta terça-feira já daria para ter uma noção completa de o que é um acampamento desta dimensão. Mas ontem, segunda, dava para ter uma ideia.

Há um hospital de campo, um heliporto, várias enfermarias, secretarias, bares, lojas de merchandising, um anfiteatro ao ar livre com capacidade para 25 mil pessoas, dois refeitórios e dois supermercados com 600 metros quadrados. A descrição das estruturas de apoio ao acampamento pode ajudar a dar uma noção de escala. O Acanac recebe 21 mil escuteiros. Ali ao lado, a vila de Idanha-a-Nova não chega a 9 mil habitantes.

Para se pagar nos estabelecimentos comerciais do recinto, a moeda corrente é o “escuto”. A moeda do acampamento vale 40 cêntimos e pode ser utilizada nos estabelecimentos comerciais como o supermercado. Estabelecimento esse cuja logística é assegurada por uma conhecida cadeia nacional. Lá dentro, tudo se assemelha ao que se pode encontrar num centro de vila ou cidade. Há também uma espécie de cartão de débito para grupos, para pagar em “escutos”, carregado com o equivalente a 4,5 euros por dia.

À porta do supermercado, a chefe Clara Andrade controla as operações e limita as entradas. “Dois por patrulha [grupos de exploradores]”, avisa.

“Se não gerirem bem o dinheiro, quando chegarem a meio do acampamento não há.” Joana acrescenta aqui que esta também é uma forma de ensinar os mais jovens, sendo que, para “muitos deles, é a primeira vez que vêm a um supermercado sozinhos”.

Ali é onde vão buscar a matéria-prima para cozinhar, com excepção dos lobitos, que comem nos refeitórios. O livro de campo tem uma sugestão de ementa para cada dia, mas há margem para fazer algo diferente. No entanto, explica Joana Oliveira, há um sistema de pontos que incentiva a alimentação saudável.

E o calor?

A temperatura podia estar pior, para esta altura do ano. Para já, estão 24 graus Celsius, mas as previsões indicam que os termómetros poderão subir até aos 39 até ao final da semana. “O campo está preparado para isso”, assegura a guia, que refere que há pontos de água distribuídos por todo o acampamento. As árvores, onde as há, vão oferecendo sombra, conforme a hora do dia. Quem tiver menos sorte com a localização que lhe é atribuída, terá que se arranjar com toldos.

Porque nem só de tendas se faz um acampamento de escuteiros, ao longo desta segunda-feira as estruturas de madeira que davam apoio à vida na mata foram crescendo. Desde as mais simples a mais elaboradas, “a ideia é não depender de nada”.

Francisco Correia e Catarina Marcos têm 13 anos. Joana Lopes tem 12. Juntam-se para explicar o processo de preparação de dois andares que já estão em fase de acabamentos. Catarina conta que primeiro fizeram uma maqueta com palitos, depois montaram e desmontaram as peças na Baixa da Banheira, de onde vêm. Levou três meses a preparar, o que implicou o corte e marcação da madeira. Explicam que o “projecto” foi dos chefes, mas execução é da sua autoria.

Chegados a Idanha no domingo, a montagem começou a meio da tarde. Depois de madrugarem — a alvorada foi às 7h — a construção prosseguiu. Já tem um primeiro andar, onde cabem dez pessoas. Quando falam ao PÚBLICO, estimam que precisem de mais duas horas de trabalho.

“Não percebo qual é a cena”

Passando para o campo dos pioneiros, as estruturas têm outra sofisticação. Nos socalcos da montanha, um dos agrupamentos de Évora ergueu uma construção com três patamares, com barrotes centrais que suportam o complexo que a orbita. Está desenhado para ter 50 escuteiros a dormir.

Maria Félix, de 17 anos, vai explicando a utilidade da construção e dizendo que parte tem que função. “Ali a cozinha, ali é para convívio, ali são os quartos.” Algo deste tamanho leva o seu tempo a planear. Dois meses, mais concretamente, e também recorreram à maqueta de palitos.

De Évora já trazem a madeira cortada e marcada, mas já em Idanha tiveram que fazer “algumas adaptações consoante o espaço que tinham” disponível. Ainda falta trabalhar na estrutura, mas “a parte mais difícil já passou”. “Como já estamos habituados à técnica, já não é tão difícil”, atira.

Excepção feita para esta edição, um acampamento nacional tem por norma acontecer a cada cinco anos.

Ao longo dos seis dias de Acanac, muitas das actividades são relacionadas com o tema agregador, “Abraçar o Futuro." Há também raids (caminhadas com orientação), workshops e actividades náuticas na Barragem Marechal Carmona.

No meio de 21 mil escuteiros, a estrela da tarde desta segunda-feira foi o Presidente da República. Marcelo chegou ao Campo Nacional de Actividades Escutistas pouco depois das 17h30 e foi imediatamente presenteado com um canivete e com um lenço, que prontamente colocou ao pescoço.

Estava programado que a visita se fizesse de carro, com paragens em quatro pontos. O primeiro, o Miradouro do Monte Trigo — uma posição elevada através da qual se pode observar os múltiplos arquipélagos de tendas —, foi onde foi recebido. Mas Marcelo não gosta de guiões. Mesmo antes do primeiro ponto apeou-se e foi imediatamente engolido pela multidão. O resto do trajecto foi feito a pé.

Um palmo acima das cabeças, tudo o que se via era telemóveis e ecrãs. Do epicentro da massa de escuteiros, que ora rodeava o Presidente, ora se afastava, saíam as mais variadas explicações. Desde a “missão cumprida” pela fotografia com Marcelo, à observação “ele está com o lenço”, passando pelos mais deslocados “não percebo qual é a cena”.

Depois da vistoria ao terreno, o Presidente assistiu à sessão de abertura do Acanac, onde marcou também presença o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues.

Notícia corrigida: inicialmente dizia-se que o Acanac acontece de quatro em quatro anos e é de cinco em cinco.