Torne-se perito

Em perda no Iraque, Daesh ataca embaixada iraquiana em Cabul

Dezasseis anos depois do 11 de Setembro, o Afeganistão “caminha a passos largos para deixar de ser um Estado em falência e passar a ser um Estado falhado”.

Embaixada iraquiana no Afeganistão foi palco de uma batalha que durou horas
Foto
Embaixada iraquiana no Afeganistão foi palco de uma batalha que durou horas MOHAMMAD ISMAIL/Reuters

Pelo menos dois polícias afegãos e os quatro atacantes morreram num atentado que começou quando um bombista se fez explodir junto ao portão da embaixada do Iraque em Cabul e continuou numa batalha que durou horas, enquanto os diplomatas iraquianos eram levados para a representação do Egipto e milhares de afegãos fugiam em pânico. Tudo isto no bairro comercial central da capital afegã, Shar-e-Naw, repleto de lojas que fecharam as portas.

O ataque foi rapidamente reivindicado pelo Daesh (autoproclamado Estado Islâmico), grupo que na sua forma actual começou por conquistar vastas áreas de território na Síria e no Iraque antes de começar a operar no Afeganistão, o país da guerra perpétua que todas as grandes potências já invadiram. Em 2015, o Daesh anunciava o seu ramo local, Estado Islâmico de Khorasan, uma região histórica que hoje inclui o Afeganistão.

Quase há um ano, a 23 de Julho, o grupo reclamava a autoria do seu primeiro atentado suicida no país. Aconteceu igualmente no centro da capital, mas teve como alvo a minoria xiita afegã e fez 84 mortos e 300 feridos. Desde então, os ataques têm-se sucedido e o Daesh está hoje presente em pelo menos nove das 34 províncias afegãs, um pouco por todo o país.

O objectivo deste atentado parece ser óbvio, vingar a derrota em Mossul. Há duas semanas, o encarregado de negócios iraquiano em Cabul deu uma badalada conferência de imprensa para celebrar a derrota imposta ao Daesh na grande cidade do Norte do Iraque, a maior de todas que o grupo alguma vez conquistou (Verão de 2014) e controlou. Mossul era o grande prémio, mas o Daesh está a ser obrigado a recuar quase em todo o lado, tanto no Iraque como na Síria, onde é atacado por milícias e todo o tipo de grupos armados que contam com o apoio aéreo ora dos Estados Unidos ora da Rússia e do regime sírio de Bashar al-Assad.

Washington diz que não está a ignorar a ameaça do Daesh no Afeganistão – e garante que centenas de comandantes e combatentes têm sido mortos com ataques de drones e operações conjuntas de tropas afegãs e forças especiais americanas. Mas os EUA, que estão no país desde que o invadiram, no pós-11 de Setembro de 2001, insistem que a grande ameaça ao Governo que apoiam continuam a ser os taliban, que controlam perto de um terço do país.

Certo é que, 16 anos depois do início da operação para derrotar a Al-Qaeda e derrubar os taliban do poder, e quase três anos após o fim oficial da missão da NATO, não há tréguas na violência sofrida pelos afegãos. Nos últimos meses, milhares têm saído à rua em protesto contra a incapacidade de Ashraf Ghani (Presidente desde as conturbadas eleições de 2014) os proteger.

Manifestantes mortos

As manifestações começaram a ser regulares em Abril, quando dez taliban mataram pelo menos 170 soldados afegãos no ataque a uma base militar em Mazar-al-Sharif, o pior ataque contra o Exército destes 16 anos. Nesse dia, demitiram-se todas as lideranças militares. Mais recentemente, a 31 de Maio, um ataque contra a chamada “zona verde”, onde estão as principais embaixadas e sedes do Governo (a iraquiana fica fora desta área) fez mais de 150 mortos e centenas de feridos, a maioria civis.

Os taliban são anti-Daesh, o que contribuiu para novas aproximações diplomáticas aos “estudantes de teologia”. Segundo alguns observadores, a própria Rússia e o Irão (inimigo natural de um grupo sunita nascido no Paquistão) têm mantido contacto com os taliban.

De acordo com Ahmed Rashid, veterano jornalista e autor paquistanês especialista no movimento, quem não sabe o que fazer é Donald Trump, pressionado por alguns assessores a reforçar o compromisso americano afegão e, “por um grupo mais à direita no Conselho de Segurança Nacional” a deixar cair o país.

Para Rashid, que lembra que a polícia já matou pelo menos onze manifestantes pacíficos, Ashraf Ghani não conseguirá recuperar a sua legitimidade no contexto “de uma crise em rápida deterioração que pode ter surpreendido o Ocidente mas não os afegãos”. Entre os taliban, o Daesh e a fraqueza das suas instituições, o Afeganistão, diz Rashid, “caminha a passos largos para deixar de ser um Estado em falência e passar a ser um Estado falhado”.

Sugerir correcção