Operadores turísticos apanhados “de surpresa” com proibição de autocarros no centro de Lisboa

Medida entra em vigor esta terça-feira, mas empresas e associações do sector acusam a autarquia de ter tomado uma decisão “unilateral” e “em cima da hora”.

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A partir de Setembro, a proibição vai estender-se ao eixo Cais do Sodré-Rato DR

É já a partir desta terça-feira que os autocarros turísticos ocasionais vão deixar de poder circular na zona da Sé e do Castelo de S. Jorge, em Lisboa. Esta medida, apresentada pela Câmara de Lisboa na semana passada, apanhou “de surpresa” operadores turísticos e associações do sector que estão em “desacordo” com uma decisão que dizem “prejudicar” não só as empresas de transporte, como agências de turismo, guias intérpretes, restaurantes e hotéis que se situam nessas áreas.

As queixas surgem depois de a autarquia ter anunciado que vai proibir a circulação de autocarros turísticos no centro histórico da cidade, “face aos constrangimentos na circulação rodoviária, à emissão de gases poluentes, à degradação de monumentos e do espaço público e aos impactos negativos na qualidade de vida dos moradores provocados pelo forte incremento de autocarros turísticos em Lisboa”, pode ler-se numa nota publicada no site da Câmara de Lisboa. A proibição vai estender-se ao eixo Cais do Sodré, Rua do Alecrim, Príncipe Real e Largo do Rato, a partir de Setembro.

A decisão foi aplaudida pelos moradores destas zonas, que há muito exigiam que estes enormes veículos deixassem de circular por estas ruas estreitas, interrompendo toda a circulação devido às difíceis manobras que eram obrigados a faze – além de, muitas vezes, taparem monumentos como é o caso da sé.

Já a Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros (Antrop) considerou, nesta segunda-feira, “inaceitável” não ter sido ouvida pela autarquia sobre o lançamento da medida, que vai limitar a circulação naquela zona a carrinhas com lotação máxima de nove lugares e viaturas da Carris.

Num comunicado a que o PÚBLICO teve acesso, a associação aponta a falta de tempo para a adaptação às novas regras, dado que a decisão só foi conhecida na semana passada.

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“Os serviços para os meses de maior procura (Agosto e Setembro) já foram contratados há meses e não vão ser alterados em cima da hora”, fez notar a Antrop. Na semana passada, Paulo Cosme, secretário-geral do Sindicato Nacional da Actividade Turística, Tradutores e Intérpretes, disse à Lusa estar "totalmente contra" a decisão, salientando os custos "imensos” e uma “perda de receita” que não é “razoável”, causada por estas restrições.

"Os agentes de viagem já têm contratos assinados até ao final do ano, alguns para o próximo ano, há vários congressos organizados para Lisboa, e as pessoas ficam quase sempre alojadas na Baixa. [Com as restrições] vai ser praticamente impossível ter acesso a hotéis, a restaurantes", notou.  

Ao PÚBLICO a directora executiva de uma agência de viagens, que não se quis identificar, acusa a autarquia de ter tomado uma decisão “unilateral” sem ter em conta a posição dos operadores e associações do sector. E admitiu ainda ter “sérias dúvidas” que os “problemas de mobilidade” da cidade tenham que ver com a circulação de autocarros de serviço ocasional.

“Se calhar tem mais que ver com o crescimento desenfreado de outros tipos de transportes turísticos, como os tuk-tuk, que sistematicamente invadem as paragens de largada de passageiros dos autocarros e que, infelizmente, ninguém vê”, sublinhou.

Para a responsável, circular com carrinhas de nove lugares “é completamente irreal e impossível”, sobretudo quando são transportados turistas em grupo para eventos ou congressos que envolvem muitas bagagens, referiu. Para o transbordo de 45 pessoas de um autocarro, por exemplo, seriam necessárias cinco carrinhas de nove lugares.

Já a Associação Portuguesa dos Guias-intérpretes e Correios de Turismo (AGIC) alerta para o facto de a maioria dos visitantes da zona da Sé/Castelo ser composta por “peregrinos, seniores e com mobilidade reduzida”. E considera que a solução não está em “proibir, mas em regular e fiscalizar locais de tomada e largada de passageiros”, seja de autocarros em serviço ocasional, seja de qualquer outro tipo de transporte afecto ao turismo. Propõe, por isso, que sejam criados locais de estacionamento.

Proibição da Infante Santo a Santa Apolónia em estudo

A autarquia já anunciou que serão reservados lugares de estacionamento de autocarros turísticos na Avenida Infante D. Henrique (Santa Apolónia) e no Marquês de Pombal (Parque Eduardo VII) e paragens para tomada e largada de passageiros nas traseiras do Museu do Fado e nos Restauradores.

Além do centro histórico e do eixo Cais do Sodré-Rato, as restrições poderão estender-se a outros locais da cidade. Em estudo está a proibição da circulação dos autocarros de serviço ocasional num perímetro que vai da Avenida Infante Santo, passa pela Estrela, Rato, Rua Alexandre Herculano, Praça do Chile e termina em Santa Apolónia. 

Nestas limitações não se incluem os autocarros panorâmicos de Lisboa que têm percursos e paragens autorizados pela autarquia. Outros circuitos turísticos terão de ser autorizados pela câmara.

Numa carta enviada à Câmara de Lisboa, a AGIC sugere ainda que a autarquia “cobre uma taxa por cada veículo pesado de transporte de passageiros em serviço ocasional que entre na cidade”, à semelhança do que se faz noutros países europeus. E que essa verba fosse “investida no melhoramento da rede de transportes públicos”.

A responsável da agência de viagens pede também que a câmara “oiça atentamente” os operadores e as associações de turismo e que repense com "pés e cabeça" estas soluções “durante dois ou três meses para entrarem em vigor a partir de Janeiro e não nestes meses que são meses de maior trabalho”. Mas realçou que os operadores turísticos estão de acordo que devem existir “locais específicos” para paragem de autocarros e aceita a decisão de que não podem parar no centro da cidade ou no centro histórico, “mas devem poder circular neles”, reiterou.

À Lusa a Antrop referiu ainda que pediu uma reunião com carácter de urgência à Câmara de Lisboa, "mas até agora não teve qualquer resposta".

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