O dramaturgo que aplicou o bisturi no lado negro do quotidiano americano

Aos 73 anos, parte Sam Shepard, um dos mais importantes autores de teatro norte-americano da segunda metade do século XX, período em que a sua obra se concentrou a escalpelizar a miragem do sonho americano.

Sam Shepard no filme <i>Blackthorn</i>
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Sam Shepard no filme Blackthorn MCT/Handout

May e Eddie. Os dois reencontram-se num motel no deserto do Mojave, antigos amantes, gente a contas com o passado, atormentada pelos fantasmas familiares (ou não fossem meios-irmãos), tentando fugir a um precipício e a uma perda que o deserto amplia. Gente com a vida em mau estado, a tentar reerguer-se ou a cair romanticamente juntos, diante de uma vastidão que indica tanto espaço para percorrer como a falta de ter a que se amparar. Um contraste evidente entre a terra a perder de vista e a clausura de que não conseguem libertar-se.

May e Eddie serão, provavelmente, as criações mais próximas da imortalidade vindas de Sam Shepard, dramaturgo, argumentista e realizador que morreu na quinta-feira, aos 73 anos, noticiou esta segunda-feira o diário New York Times, citando um porta-voz da família. Shepard morreu na sua casa, no Kentucky, rodeado pela família, na sequência de complicações da esclerose lateral amiotrófica de que sofria há vários anos.

Personagens nucleares de Loucos por Amor (Loucos de Amor, noutras versões), May e Eddie habitam desde 1983 palcos um pouco por todo o mundo, tratando-se de um dos textos mais representados a nível planetário. A produção original, dirigida pelo próprio Shepard, estreou-se no Magic Theatre, em São Francisco, em Fevereiro desse ano, com interpretações de Ed Harris e Kathy Baker. Desde então, o magnetismo do texto cativou gente tão diversa e inesperada quanto Bruce Willis e Juliette Lewis. Em Portugal, Catarina Furtado foi May na encenação de Ana Nave para o Teatro Nacional Dona Maria II, em 2004, tendo a peça sido também dirigida por João Lourenço, Paulo Lage ou, há poucos meses, por António Melo n’A Comuna.

Foi no período em que Shepard trabalhava no texto de Loucos por Amor que conheceu alguém a quem o seu percurso artístico ficará para sempre fortemente associado. Em Fevereiro deste ano, Wim Wenders recordava, em entrevista ao PÚBLICO, esse encontro numa altura em que o realizador alemão preparava a rodagem de Hammett: “Gostámos um do outro, tornámo-nos amigos, sugeri-o para intérprete principal de Hammett, fizemos muitos screen tests com Sam e Gene Hackman, em que Sam era extraordinário! Ele teria sido perfeito!” Não o foi. Porque o estúdio torceu o nariz, preferiu um nome mais sonante e, na altura, Shepard – que, em 1984, viria a ser nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário pela sua interpretação em Os Eleitos – não tinha ainda grande experiência enquanto actor de cinema, tendo-se estreado como actor em Days of Heaven (1978), do enfant térrible Terrence Malick.

A colaboração entre os dois concretizar-se-ia pouco depois, em 1984, no guião partilhado de Paris, Texas, novamente às portas do deserto, a partir do esboço de uma personagem que Wenders “começara a desenvolver (…) baseado numa colecção de contos de Sam, Motel Chronicles”, contou o realizador ao PÚBLICO.

Destruir o drama familiar americano

Loucos por Amor e True West, ambas nomeadas para um Pulitzer, seriam as duas grandes peças de reconhecimento da escrita dramatúrgica de Sam Shepard, ao furarem o circuito mais marginal e serem apresentadas na Broadway. Shepard começou por escrever teatro no início da década de 1960, altura em que abandonou um curso agrícola, “estimulado pela leitura da obra de Samuel Beckett e pelo desejo de dar uma voz teatral à América contemporânea”, escrevia Laura Barton no The Guardian em 2014. “Na altura, havia um definhamento do teatro americano”, declarava o dramaturgo no mesmo artigo. “Não se passava nada. A arte americana estava faminta.”

Nas suas primeiras décadas de escrita para a cena, Sam Shepard tornar-se-ia um nome de peso no circuito off-Broadway, sobretudo graças a La Turista (1967) e Cowboy Mouth (1971), esta última escrita a meias com Patti Smith, com quem então mantinha um relacionamento amoroso. Era então um dos representantes mais promissores da cena artística nova-iorquina, um rapaz oriundo do Illinois, com modos à James Dean, uma mistura de eterno adolescente tímido e de bandido sedutor, com um ar selvagem e uma decidida nonchalance cool.

O grande salto criativo e de notoriedade dar-se-ia com os seus anos de autor residente no Magic Theatre, a partir de 1975, lugar a partir do qual Shepard continuou a aplicar o bisturi no lado negro do quotidiano americano, com particular enfoque na chamada Trilogia da Família, constituída por Curse of the Starving Class (1976), Buried Child (1979, vencedora do Pulitzer para escrita dramatúrgica) e True West (1980).

“Aquilo que quis fazer foi destruir a ideia do drama familiar americano”, disse em entrevista ao New York Times, em 2016. “É demasiado psicológico. Porque isto e aquilo aconteceu, fazemos chichi na cama? Quem é que quer saber disso? Quem é que quer saber quando há um bebé morto no quintal? [alusão a Buried Child]”

Shepard, que se considerou sempre principalmente um autor, desenvolveu um estilo de escrita muito próprio, directo, incisivo, ritmado e realista, captado directamente nas ruas, mas onde é possível detectar influências persistentes, como a dos clássicos americanos – Melville e Hawthorne – ou a de Raymond Carver, passando pela marca fulgurante de Salinger. O declínio do mítico Oeste americano, os psico-dramas familiares, as paixões avassaladoras e destrutivas, a solidão, a incapacidade de comunicação e uma certa melancolia crepuscular que, só por si, contam uma saga de aventura, desilusão, procura desesperada e falhanço irremediável, são marcas inconfundíveis da sua escrita.

Para ele, a América entrara num declínio sem retorno – declínio esse, perfeitamente demonstrado em True West – e o belo sonho americano soçobrara há muito, engolido pelo materialismo selvático e pela ausência de cultura, resultado do esquecimento do passado.

Há na obra de Sam Shepard uma clara atracção por uns Estados Unidos que se vêem ao espelho, acabados de acordar, sem maquilhagem nem tempo para erguer fachadas de american dream. Parece, de relance, um quebrar do encantamento da estereotipada perfeição dos modelos de vida e da família americanos, mas é mais do que isso. Não é apenas a curiosidade mórbida, o desnudar desse lado desencantado, da dureza e da crueldade das existências anónimas e pouco glorificadas; é também a descoberta da beleza violenta e visceral que há em tudo isso.

Em Portugal estão publicados Loucos por Amor (Relógio d'Água), O Grande Sonho do Paraíso (Relógio d'Água), Crónicas Americanas (Difel), Atravessando o Paraíso (Difel) Lua Falcão : contos, poemas, monólogos (Quetzal) e O Verdadeiro Oeste (Cotovia).