Poluentes nos alimentos aumentam o risco de doenças metabólicas

Estudo com animais confirma relação entre a exposição a reduzidas doses de contaminantes, que estão na nossa cadeia alimentar e se instalam no tecido adiposo, e problemas como obesidade, diabetes e hipertensão arterial. Investigadores portugueses assinam o artigo na Scientific Reports

Há mais um argumento para adoptar uma dieta saudável: a maioria dos poluentes está associada a alimentos com gorduras
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Há mais um argumento para adoptar uma dieta saudável: a maioria dos poluentes está associada a alimentos com gorduras Manuel Roberto

As experiências foram feitas com um poluente chamado DDE, um derivado do pesticida DDT usado para matar os mosquitos da malária e que, apesar de ter sido proibido há vários anos, permanece na nossa cadeia alimentar. Com experiências feitas com ratos, uma equipa de investigadores do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, no Porto, comprovou que, mesmo em doses muito reduzidas, este contaminante tem a capacidade de danificar a saúde metabólica, causando problemas como obesidade, inflamação, diabetes e hipertensão arterial. E se fizer uma dieta gorda, é pior ainda porque este poluente é lipossolúvel e gosta de gordura.

Num estudo anterior, a equipa do Cintesis estudou os efeitos da presença de 13 poluentes orgânicos persistentes (conhecidos como POP) no organismo de doentes obesos que tinham sido sujeitos a uma cirurgia bariátrica. Entre os contaminantes encontrados, estava o DDE. Estes doentes sofriam de vários problemas metabólicos e nas 189 amostras de tecido adiposo analisadas foram detectadas grandes quantidades de poluentes. Coincidência? Talvez não. Logo nessa altura, a equipa de investigadores defendeu que existia uma associação entre a desregulação metabólica e a presença de poluentes no tecido adiposo.

Desta vez, escolheram um poluente específico, o DDE, que tinha sido encontrado em quantidades significativas nas análises feitas no estudo anterior em doentes, para comprovar este efeito no metabolismo. No estudo, existiram quatro grupos de ratos. Dois dos grupos receberam quantidades de DDE que eram 2,5 vezes inferiores às doses consideradas seguras, pelas normas internacionais, e distinguiam-se apenas pela dieta, com uns animais a fazer uma dieta com muita gordura e outros uma dieta normal. Os outros dois grupos de animais (de controlo) eram divididos da mesma forma, mas não foram expostos ao contaminante.

“Percebemos que os ratos expostos a contaminantes apresentaram maiores índices de problemas metabólicos como hipertensão, diabetes, inflamação”, refere ao PÚBLICO Diogo Pestana, primeiro autor deste trabalho de investigação, acrescentando que estes problemas foram mais evidentes nos ratos submetidos a uma dieta gorda.

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Diogo Pestana, investigador DR

A experiência também permitiu verificar que o tecido adiposo dos ratos que ingeriram DDE ficou morfologicamente diferente. “O DDE não se acumula simplesmente nas células gordas (adipócitos), mas exerce uma acção nefasta sobre o normal padrão metabólico e de regeneração do tecido e altera a resposta dinâmica do tecido ao excesso energético, causando inflamação”, conclui o investigador do Cintesis, que é também docente na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Conceição Calhau, investigadora do Cintesis que coordenou este trabalho e também assina o artigo publicado na revista Scientific Reports (do grupo da Nature), sublinha o impacto da exposição a uma reduzida dose do DDE. “Fizemos uma extrapolação para o rato da dose de humano e usámos uma quantidade duas vezes e meia abaixo desse limite. Ou seja, o que podemos dizer de forma inequívoca é que os efeitos que vimos nos ratos representam duas vezes e meia abaixo do limite de segurança definido para os humanos”, sublinha. O limite de segurança definido para o DDE é de 250 microgramas por quilo (peso corporal) por dia, o que significa que a dose que os ratos receberam foi o equivalente a 100 microgramas por quilo por dia para uma pessoa.

“Estas questões de doses seguras são definidas com os estudos que existem mas, depois, quando são feitos outros estudos deve ser revisto o valor”, alerta a investigadora, que também destaca o acrescido risco de uma exposição crónica a estes contaminantes ao longo de muito tempo.

Além do efeito deste contaminante por si só, a popular opção de uma deita rica em gorduras (encontrada na “fast food”, por exemplo) é mais um inimigo nesta equação. “A maioria destes compostos está associada a alimentos com gorduras. São lipossolúveis, veiculam-se e acumulam-se na gordura dos animais. Além das calorias, a dieta rica em gordura transporta compostos tóxicos que agravam doenças metabólicas”, explica Conceição Calhau, também docente na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Às vezes, admite a investigadora, os problemas metabólicos são associados apenas à obesidade quando também podem estar relacionados com os contaminantes presentes nos alimentos.

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Conceição Calhau, investigadora DR

Ou seja, há mais um argumento para adoptar uma dieta saudável: minimizar a exposição a estes contaminantes que se escondem nos nossos alimentos. Sabe-se que os POP são mais frequentes em alimentos como as carnes vermelhas, os lacticínios e os peixes gordos, por exemplo. Porém, lamenta a investigadora, “actualmente, não é possível definir recomendações precisas sobre padrões de consumo ideais tendo em conta níveis de contaminação, devido à escassez de dados”. “Por exemplo, não possuímos dados suficientes sobre a presença de poluentes orgânicos que persistem no ambiente e em alimentos consumidos em Portugal”, acrescenta. Além disso, se olharmos apenas para o exemplo do DDT que foi proibido na Europa e nos Estados Unidos entre os 70 e 80 e que ainda se encontra na nossa cadeia alimentar, concluímos que estes são compostos que dificilmente serão degradados pelo ambiente.

Num documento da Direcção-Geral da Saúde sobre “Contaminantes nos Alimentos”, no qual a equipa do Cintesis participou, estão algumas medidas simples para prevenir a exposição a estes poluentes, como por exemplo ingerir peixe de mar, retirar gorduras visíveis, evitar consumos elevados de carne, bem como aquecer refeições em recipientes de plásticos. “É preciso que os consumidores adoptem medidas que reduzam a exposição a esses agentes negativos para a saúde”, diz Conceição Calhau que, ao mesmo tempo, acredita que uma aposta na investigação nesta área poderá ajudar a pressionar as entidades responsáveis pela segurança alimentar para regularem melhor o sector, com base em provas científicas. “Infelizmente, a investigação nesta área é muito difícil e não tem muito apoio. Não é um assunto agradável”, desabafa.

O próximo passo desta investigação pretende testar um dos ingredientes mais citados nestes estudos, que apontam para os riscos de uma dieta gorda num ensaio clínico que deverá arrancar já depois do Verão com 60 pessoas. A ideia, adianta a líder da equipa de investigação em nutrição do Cintesis, é avaliar o impacto do consumo de salmão. “Será um estudo de intervenção. Vamos ter um grupo de voluntários a fazer refeições de salmão e depois vamos monitorizar o perfil metabólico [avaliando variáveis como o peso, a sensibilidade à insulina e a tensão arterial]”, adianta. Segundo explica, já existem provas que apontam para o salmão com um veículo de transporte dos POP, mas os investigadores querem ver “se o salmão que consumimos em Portugal tem um efeito nas doenças metabólicas”.