Opinião

Este é o meu corpo

O assédio também se escreve no masculino. Um dia, no balneário do ginásio, um amigo foi surpreendido com uma sombra por cima da cabina do duche.

pedro cunha / PUBLICO
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pedro cunha / PUBLICO

Sentada na esquadra, à espera para fazer uma queixa, o agente olhou-a de uma maneira que ela não gostou. No final, a minha amiga fez questão de lho dizer. No Cais do Sodré, em Lisboa, há agentes de barbas cerradas pendurados nas grades que separam a estação dos comboios da rua que olham gulosos para os corpos das jovens turistas e comentam-nos. Sendo um comportamento rotineiro, um dia tirei uma fotografia a que ia dar a legenda “animais”, mas como os agentes eram facilmente identificáveis não publiquei nas redes sociais. 

E só tenho exemplos com agentes de autoridade? Não. E só acontece com as mulheres? Também não. O assédio também se escreve no masculino. Um dia, no balneário do ginásio, um amigo foi surpreendido com uma sombra por cima da cabina do duche, quando olhou para cima viu um homem pendurado a observá-lo enquanto tomava banho. Revoltado, gritou e ameaçou o outro. “Se te apanho lá fora…” Mas não fez queixa porque seria a sua palavra contra a do outro que justificou-se dizendo que “estava a alongar”.

A uma amiga, um colega de trabalho disse-lhe cruamente: “As mulheres só servem para ter sexo.” Assim, sem mais, tal é a convicção. Face ao ar de escândalo dela, ele ainda acrescentou: “A primeira vez que o disse à minha namorada [pelos vistos já houve outras vezes] ela esteve quase para acabar comigo.” E por que não acabou?

Na universidade, um professor mirou uma aluna de alto a baixo, quando esta entregou o exame, e, de seguida, fez um ar de aprovação olhando com cumplicidade para os rapazes que se riram. Também houve raparigas que se riram e as restantes, como eu, foram coniventes.

Portanto, o assédio está em todo o lado, não importa a idade ou a formação de quem o pratica, nem mesmo o sexo. Quantas mulheres não acreditam realmente que a culpa de se ser assediada é da mulher que veste saias ou calções curtos, que usa maquilhagem, ou que sorri e é simpática para os homens, ou que dança de forma demasiado sensual, por isso, já devia saber o que a esperava?

E quantas mulheres se escondem atrás de roupas desinteressantes, baixam os olhos quando andam na rua ou fazem má cara para evitarem ser assediadas? Quantos homens se sentem despidos por mulheres que os comem com os olhos ou que lhes murmuram convites ao ouvido, depois de uma reunião?

O assédio existe e este tipo de comportamento continua a deixar-me estarrecida com a falta de evolução de uma sociedade que precisa de leis para proteger as vítimas. Leis que na verdade não as protegem porque estas não apresentam queixa ou porque acham tão natural ouvir “bocas” ou ser tocadas que encolhem os ombros. E começam a senti-lo cedo, assim que atravessam a puberdade. E isto tem necessariamente consequências. Num artigo publicado na rede ex aequo, a juíza e professora Maria Clara Sottomayor põe o dedo na ferida – questões como estas e como a violência sexual têm “efeitos traumáticos”, sobretudo durante a adolescência, “a fase da vida em que são mais vulneráveis e em que mais precisam de segurança e de liberdade para desenvolverem, sem interferências, as suas potencialidades psíquicas, físicas e intelectuais”.

Contudo, as consequências também podem ser boas. Orgulho-me da minha amiga que chamou a atenção ao agente para o seu comportamento, embora este o tenha negado. Orgulho-me das raparigas que vestem o que querem, imunes ao que possam dizer-lhes. Orgulho-me das que sentem uma raiva dentro delas que as faz querer ser mais do que um objecto.

Mas ainda nos falta coragem para dizer, para dar a cara, para debater aberta e repetidamente o tema, para denunciar, para fazer ver aos outros como o comportamento é primário. E, como se sabe, tudo começa em casa, com o exemplo – quantos homens olham ostensivamente para outras mulheres à frente da família? –, com pais que ensinem uma coisa que parece andar esquecida: valores como o respeito pelo outro.