Em Sines bastam quatro letras para se ser atropelado pela liberdade: BCUC

No fim-de-semana de encerramento, o FMM Sines despediu-se com o charme de Oumou Sangaré, o rock turco de Gaye Su Akyol e a presença cabo-verdiana de Mário Lúcio e Lura. Mas um nome fica escrito a fogo na memória colectiva: o dos sul-africanos BCUC.

Fotogaleria
Os sul-africanos Bantu Continua Uhuru Consciousness (BCUC) Mário Lopes Pereira
Fotogaleria
Mário Lopes Pereira
Fotogaleria
Mário Lopes Pereira
Fotogaleria
Mário Lopes Pereira
Fotogaleria
Mário Lopes Pereira

Às onze e meia da noite de sexta-feira, os sul-africanos BCUC (Bantu Continua Uhuru Consciousness) haviam criado um sério problema ao Festival Músicas do Mundo (FMM). Depois de o vocalista Zithulele Zabani Nkosi anunciar que iriam despedir-se com a sua música mais curta e, num momento inicial, o público ser levado ao engano na altura de uma primeira paragem, o colectivo do Soweto foi continuando a expelir uma música inimaginável de tão primária, fogosa, furibunda e inebriante. E com o Castelo de Sines completamente rendido à actuação mais incendiária dos dois últimos dias do FMM, aquele “curto tema” que parecia feito de sucessivos alçapões sem fundo à vista, eternizava-se num crescendo em que BCUC e público se juntavam no grito “Don’t stop the music”. E sempre que o fogo ameaçava extinguir-se e a música parecia acabar, logo reiniciava com um novo e mais intenso ímpeto.

O sério problema que os sul-africanos então criavam era apenas este: como primeira banda da noite no Castelo, os BCUC dificultavam a vida aos pesos pesados que se seguiam (Fatoumata Diawara & Hindi Zahra, Mário Lúcio e Orlando Julius com Bixiga 70), obrigados a ter de puxar dos galões para não empalidecerem diante de uma fasquia tão alta.

Comandando uma banda feita de percussão e baixo, Zithulele concentra quase toda e electricidade em si. Não pára um segundo, numa fúria incessante, como que possuído e disposto a provar que James Brown não morreu, simplesmente baixou no corpo daquele jovem sul-africano. Quando às tantas diz, referindo-se ao país, “We may not have fancy cars, but we got soul” [podemos não ter carros luxuosos, mas temos alma], não é senão a alma (uma alma inesgotável) que lhe vemos. E vemo-nos atropelados por aquela música endiabrada, com carga e movimentos de cerimónia zulu, um tom primário claramente tribal de onde emergem funk, assomos de punk, vislumbres de kwaito, mas sobretudo uma aparente agressividade, um persistente estado de fúria que, a cada momento e de forma exacerbada, celebra estar vivo, ser um sobrevivente, ser livre.

Ninguém teve a vida fácil depois disto. Mas nem por isso o fogo se apagou. Primeiro, porque Fatoumata Diawara não deixou. Depois, porque Mário Lúcio também se apresentou num concerto certeiro. Tanto um como outro são casos de namoros antigos com o FMM. E a prova que esses namoros dão frutos é a discussão que durante o dia se apanha em diversos pontos do recinto sobre a preferência por cantoras malianas (entre Fatoumata, Oumou Sangaré e Rokia Traoré, há argumentos para todos os gostos), impensável quando o festival arrancou em 1999, mas agora um conhecimento básico e consumado neste público.

Numa colaboração com a cantora marroquina Hindi Zahra, remetida para um papel secundário quase decorativo, Fatoumata tomou as rédeas e carregou numa música africana em continuado cruzamento com jazz, funk e pop/rock, declarou a sua crença num mundo em que cada um seja livre de viajar para onde lhe aprouver (com a certeza de que quererá sempre regressar a casa), entregou-se a uma magnífica versão em crescendo do clássico de Nina Simone Sinnerman e assumiu a responsabilidade por um concerto que ajudou a matar saudades de uma das mais magnéticas vozes do Mali. Mas à qual já vai faltando reportório novo – o seu disco de estreia, Fatou, é de 2011.

Viajemos, por um parágrafo, até à noite seguinte, no sábado, quando esse magnetismo se multiplicou na presença de Oumou Sangaré (mesmo que pouco ajudada por um baterista francês a querer ser filho de Tony Allen mas não chegando nem para vizinho, e um teclista igualmente francês que parecia convencido de ser o Ray Manzarek que faltava à vida da cantora). Uma das figuras maiores da música africana, Oumou tem em barda aquela capacidade rara de seduzir, enlear o público com o seu charme e criar concertos dentro dos quais se quer estar, dentro dos quais quase nos poderíamos eternizar. “O verdadeiro rosto de África – a joie de vivre”, resumiu numa frase a cantora. E são isso mesmo Yala, Kounadya, Bena bena ou Minata waraba, uma constante celebração da vida, comum aos BCUC, mas que contrasta por prosseguir sempre numa toada esfuziante, como se tudo pudesse ser sugado e diminuído por este vórtice de felicidade que, ainda assim, não deixa de ser reivindicativa.

Wonder woman turca

De volta a quinta-feira, pós furacão BCUC. Depois de Fatoumata e Hindi, Mário Lúcio não deixou que a festa morresse. O cabo-verdiano largou há um ano as vestes de ministro e voltou a ser músico sintonizando-se com o povo através de uma investigação e exploração da história do funaná. Funanight faz esse movimento pendular de ir buscar atrás e levar até à frente – em palco defenderia que a identidade não é uma noção estática presa ao passado, mas sim uma construção futura, saber quem se quer ser amanhã – e o reportório que hoje Mário Lúcio apresenta está pejado dessa ideia de que homenagear o funaná não significa pegar para fazer igual. Há nesta expansão do funaná, que chega a acercar-se do heavy metal (no ponto mais extremo) ou de Bob Marley, neste remexer e refazer sem quebrar e neste moldar com as próprias mãos qualquer coisa da riqueza tropicalista de Gilberto Gil.

Cabo Verde voltaria a estar presente no sábado, bandeiras dos arquipélagos esvoaçando em claro momento de comunhão com a comunidade que reside em Sines, através de um concerto de Lura que, sem o grau de conceptualização apresentado por Mário Lúcio, não se afasta muito dessa mesma intuição de puxar o funaná e o batuco um pouco para fora de pé. Não é preciso pregar uma revolução, de facto, mas antes puxar as tradições para a contemporaneidade como quem ajeita um vestido para melhor se servir. Está tudo em jogo nas suas canções: a identidade, a integração de “uma negra nascida em Lisboa com pais cabo-verdianos”, encontrar o lugar como parte da história, exaltar o papel das mulheres do seu país (Maria di lida) e projectar-se para a frente com a presença do rapper Hélio Batalha em Di undi kim bem. Quando termina com Mbem di fora, todas estas questões passam pela subtileza de uma música feita para dançar e de que Lura dispõe com uma mestria de palco espantosa.

Horas depois, o Castelo de Sines seria visitado por uma wonder woman turca (a roupa assim o sugeria) aos comandos de uma magnífica banda espacial versada no surf rock e no psicadelismo patenteado na Anatólia dos anos 60/70. Chegassem Gaye Su Akyol e a sua rapaziada aos ouvidos de Quentin Tarantino e este não ponderaria a reforma antes de realizar um qualquer western-kebab. As canções de Gaye e o seu discurso dirigem-se com frequência aos regimes autocráticos, insurgem-se contra o encarceramento de jornalistas na Turquia e noutras paragens, dão conta da sua chamada pelas autoridades – atiçadas pela sanha censória do regime de Erdogan – a prestar esclarecimentos acerca da letra anti-fascista de Nargile. E em cada tema, Gaye soa a uma discípula da histórica Selda Bagcan, voluntariamente colocada no centro de um furacão rock da melhor safra, permeável a uma condimentação otomana. Depois dos estonteantes Hologram e Abbas, uma mensagem cristalina: “Não se esqueçam – os políticos e o povo são diferentes.”

O concerto final do Castelo de Sines no FMM deste ano, acompanhado desde sempre por fogo-de-artifício, coube ao reggae de Tiken Jah Fakoly, à medida de muitos dos frequentadores do festival, mas pouco estimulante para aqueles que não juraram fidelidade à bandeira da Jamaica. Na véspera, também Orlando Julius & Bixiga 70 não inscreveram o nome da edição de 2017, denotando um excesso de reverência dos brasileiros para com o lendário saxofonista nigeriano. No Castelo mostrou-se também o mui encantador agrupamento vocal feminino Sopa de Pedra, com paragens pelos cantos de trabalho, Amélia Muge e José Afonso; pela praia passaram ainda Benjamim e Barnaby Keen que aqueceram os ânimos sobretudo com A minha menina (Os Mutantes), o jazz-soul do espaventoso Thomas de Pourquery, entre o explosivo e o cósmico, ou a música latina super vitaminada dos colombianos Bulldozer; no Centro de Artes Tó Trips e João Doce puxaram pelo lado mais africano e rude do guitarrista dos Dead Combo. Mas desses concertos menos frequentados, um deverá salvar-se do esquecimento: o concerto-missa da indiana Parvathy Baul. Música e cerimonial numa actuação levitante, a suspender o tempo lá fora e fazer crer num qualquer acesso ao divino. Comovente. Seria digno de ovação, não fosse Parvahty preferir que o público se manifestasse dizendo ‘chadu, chadu’. Assim seja. Chadu, chadu, Sines. Até para o ano.

O PÚBLICO esteve no FMM a convite da organização