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Oumou levanta a voz e mostra como se faz

Sábado é dia de regresso da cantora maliana Oumou Sangaré ao FMM Sines. Traz consigo Mogoya, excelente álbum em que volta a cantar contra as injustiças no continente africano.

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Na vida de Oumou Sangaré não há propriamente bloqueios artísticos. Assunto para as canções é coisa que não falta à cantora maliana, uma das figuras mais importantes da música africana actual. Perguntar a Oumou por que razão demorou tanto tempo a voltar aos álbuns – o anterior Seya é de 2009 – equivale a ser recebido por uma gargalhada que mete qualquer preconceito ocidental no sítio.

Oumou só agora lançou Mogoya porque, em rigor, teve mais que fazer. “Passou-se muito tempo”, diz ao Ípsilon, “porque eu não me apresso. Andei em digressão, montei um negócio de automóveis e tenho outros afazeres, trabalho muito. Não tenho tempo para me dedicar só à música. E só decidi gravar um novo álbum agora porque os fãs me pediam muito.”

Mogoya

A marca automóvel Oum Sang que Sangaré lançou em 2006 é apenas um dos vários negócios que exigiu uma maior atenção à cantora nos últimos anos. Um hotel (Wassoulou, em Bamako), uma quinta e os afazeres com a sua fundação (que financia os estudos de raparigas africanas) são outras das actividades que têm obrigado a cantora e embaixadora das Nações Unidas a algum recato artístico. De qualquer forma, frisa, estes não são mundos que tenham existências totalmente separadas na sua vida. “Até porque sempre encorajei as mulheres a trabalhar”, diz. “Sempre lhes disse que podem e devem trabalhar, e ser úteis à sociedade. Esta é também uma maneira de mostrar a essas mulheres que a Oumou Sangaré também está pronta para arregaçar as mangas e mostrar como se faz. Só o trabalho pode verdadeiramente dar liberdade e autonomia aos seres humanos.”

Desde o início da sua carreira que a música de Oumou Sangaré, cantada em bambara, é um veículo de mensagem de transformação que quis soprar por todo o continente africano. Se a sua voz começou por se ouvir contra a poligamia – não como argumento religioso e condenatório dos costumes muçulmanos, mas apontando o dedo à subjugação feminina, à frequente vida na miséria e à falta de liberdade individual na hora de decidir o futuro –, ganharia cada vez mais a forma de um apelo à iniciativa empresarial, para que a autonomia das mulheres fosse o primeiro garante de escolhas reais e não ditadas por regras sociais.

“Muita coisa mudou”, analisa em relação aos últimos anos. “E é isso que me dá coragem para continuar a travar as minhas batalhas – vejo que, havendo ainda muito por fazer, estas batalhas têm dado frutos.” Em grande parte, aliás, onde mais interessa. No lado menos visível: “a opinião pública, as ideias, a mentalidade”. “As mulheres agora estão no governo, estão muito presentes na cultura, o microcrédito dá-lhes a possibilidade de serem empreendedoras, pequenas empresárias. Agora notamos que há muito mais mulheres autónomas.” Conquistas dificultadas, ainda assim, e especificamente no que respeita ao Mali, pelos conflitos no norte do país que têm mantido as populações em constante estado de sobressalto, obrigando a deslocações em massa e a um estado de insegurança permanente na região.

“A guerra, qualquer guerra”, acredita Oumou, “não poupa ninguém. E atrasa-nos a todos.”

O irmão Tony Allen

Na altura de juntar o material que dará origem a um novo álbum, Oumou Sangaré ausculta sempre aquilo que se passa à sua volta. “A música em África é muito ouvida e muito respeitada”, argumenta, assumindo como seu dever identificar injustiças e amplificá-las – para que ninguém possa fingir ignorá-las – com a sua voz. Em Mogoya, sexto álbum de estúdio (que apresenta este sábado em Sines), quis pôr fim ao silêncio que rodeia o suicídio. “É um tabu”, queixa-se, “e as pessoas preferem não falar sobre o assunto. Isso para mim não é normal. Há pessoas que se suicidam todos os dias por causa de problemas que as empurram para a morte. É preciso falar-lhes, sensibilizá-las, dizer-lhes que a vida é feita de altos e baixos e que, se hoje estão num ponto baixo, talvez amanhã as coisas melhorem e possam vir a correr bem. Temos de afastar as pessoas do precipício em que se encontram.”

É disto que fala em Yere faga, cuja temática parece traída pela soltura da canção, alimentada pelo pulsar inquieto de Tony Allen, lenda viva do afrobeat a quem Oumou chama “meu irmão, herói da música africana”. Se Tony Allen pôs Damon Albarn dos Blur a dançar – assim o diz em Music is my radar –, o homem que soa a três ou quatro bateristas a tocar em simultâneo é omnipresente nas adolescências africanas de todos aqueles que cresceram ao som do afrobeat. “Dançámos com o Fela Kuti durante toda a nossa juventude, sempre na companhia da bateria do Tony Allen”, recorda Sangaré. Assim que se inunda os ouvidos com Yere faga, um dos temas de apelo mais imediato de Mogoya, é impossível não o reconhecer e não seguir atrás do ritmo do músico nigeriano.

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E é esse forte apelo físico que pode trair a mensagem de Yere faga. Embora, na opinião de Oumou, uma canção que estimule a dança e pareça estar mais apontada às ancas do que ao cerebelo pode revelar-se o melhor veículo para uma mensagem que quer dirigir sobretudo a uma população jovem. “Não se pode passar uma mensagem para a juventude com uma música blues”, argumenta. “Tem de ser uma música que lhes agrade e que, enquanto dançam, percebam que afinal carrega uma mensagem.”

Gravado em Estocolmo, Bamako e Paris, Mogoya responde a uma necessidade da cantora maliana em ver a sua sonoridade agitada. Sem que alguma vez tenha sido uma tradicionalista, Oumou buscava uma sonoridade nova que encontrou quando a sua nova editora, a No Format!, lhe mostrou o álbum do trio francês A.l.b.er.t. Com todas as bases já gravadas na Suécia e no Mali, depositou-lhes o disco nas mãos e ficou à espera de ser surpreendida. E foi ela a primeira a espantar-se com a forma que a sua música podia tomar – ouvidos atentos não demoram a descobrir teclados a polvilhar canções como Fadjamou ou Djoukourou e uma tendência para tornar as composições mais expansivas.

Esta música leva o nome da humanidade (Mogoya), deposita esperança num amor que se sobreponha aos assassínios e demais males do mundo e, em última análise, vinga a sua mãe de Oumou. Uma mãe que foi abandonada pelo marido, deixada com quatro filhos e se fez escrava do trabalho para que Oumou e os irmãos pudessem ter uma vida digna. “Hoje em dia vingo-a”, diz a cantora. “Para que ela possa fazer aquilo que quer e viajar para onde lhe apetece.” Para que, ao fim de muitos anos, possa dizer-se livre.

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