Editorial

Sobre Marcelo

O país precisa de um Presidente também nos piores momentos, que marque o caminho.

Um dia, os Gato Fedorento fizeram de Marcelo a personagem principal. Já foi em 2007, quando o ex-líder do PSD definiu uma posição curiosa no referendo ao aborto: contra, mas não muito. E dizia Ricardo Araújo Pereira, na pele de Marcelo: "Uma coisa é a despenalização do aborto, outra coisa é a li-be-ra-li-za-ção do aborto. Concordo com a primeira parte da pergunta, discordo da segunda parte da pergunta. Tenho dúvidas em relação a três vírgulas e sou contra o ponto de interrogação." O sketch chamava-se "assim não" — e perdura no tempo como a crítica mais assertiva feita ao actual Presidente da República.

Marcelo é um Presidente inteligente. Construiu a sua popularidade passo a passo, preenchendo o vazio. O vazio era grande: de emoções, porque Cavaco Silva foi um Presidente frio; de razoabilidade, porque o tempo político exigia bom senso; de liderança, porque o país a estrear uma "geringonça" precisava de alguém a dar segurança.

Mas Marcelo também é um Presidente instintivo. Conhece a política como ninguém, percepciona a era mediática melhor do que todos os outros. Isso dá-lhe agilidade, resposta rápida.

Dito isto, Marcelo tem sido um Presidente de sorte. Segurou a maioria de esquerda, viu-a obter resultados. O método tem sido eficaz: discreto a gerir problemas nos bastidores, rápido a colher os louros. Foi até aqui um escudo para Costa, mas a geometria política não lhe dava outra saída: na AR a maioria é de esquerda e as sondagens não mostram a direita a recuperar.

Mas eis que chegámos a tempos desafiantes. Porque vêm aí as autárquicas, depois o congresso do PSD — e daí às legislativas é um tiro. E porque o Governo parece ter perdido o controlo político da situação — o terreno onde o achávamos mais forte. Desde Pedrógão a Tancos, há má gestão da comunicação, há também uma avaliação imprescindível sobre as opções políticas e as falhas no Estado.

Em Tancos vimos demissões e regressos ao Exército sem explicações, percebemos que todos souberam do roubo pelas notícias, que ninguém sabia dos riscos de segurança. Nos incêndios, há dúvidas sobre o SIRESP, sobre o dispositivo de combate, até sobre a lista das vítimas. O país questiona-se sobre isto e sobre mais. Mas não sabe o que o Presidente realmente pensa sobre esta crise. Só que quer "cabeça fria", com "respeito pelas vítimas". Parece que voltámos a 2007: "Concordo com a primeira parte da pergunta, discordo da segunda parte da pergunta. Tenho dúvidas em relação a três vírgulas e sou contra o ponto de interrogação."

Bem sabemos: o país gosta de Marcelo, Marcelo merece que o país goste dele. Mas o país precisa de um Presidente também nos piores momentos, que marque o caminho. Lembrete: a popularidade é um bem sempre efémero. E o Ricardo Araújo Pereira continua por aí.