Opinião

Não é só azar, é também muita aselhice

Há duas palavras em Portugal que dificilmente se vêem em simultâneo na mesma frase: ineficácia e bombeiros. Quem as utiliza tem de ser prudente, ou é de todo imprudente. Porque há um tabu no Portugal do século XXI sobre o fim de voluntariado dos bombeiros quase análogo a uma parte do Portugal do início do século XX que recusava discutir a profissionalização da enfermagem. Foi um duro e conflituoso caminho, liderado pelo médico Miguel Bombarda, até se conseguir acabar com a enfermagem religiosa que, apesar de feito com amor, entregava muita gente à cova antes do tempo.

Hoje, ninguém questiona – e achar-se-ia absurdo – que sectores vitais de serviços público como a saúde, a segurança, a defesa nacional e o ensino estivessem assentes num sistema voluntário que, em abono da verdade, nunca acaba por ser gratuito aos contribuintes. Por isso mostra-se inacreditável não se discutir a eficácia do último bastião de um absurdo voluntarismo: o combate aos incêndios florestais. Na minha opinião, este tem sido um elemento crucial – não o único, mas que emperra a maior aposta na prevenção e na organização do combate – que justifica a actual situação dramática.

Atenção!, nada me move contra os bombeiros voluntários – que têm funções nobres e úteis além dos fogos florestais – nem possuo interesses particulares ou económicos na sua profissionalização. Move-me sim a evidência dos sucessivos desastres. Sucessivos mas sempre crescentes, mesmos se, desde há três décadas, nos habituámos aos incêndios "violentos", "catastróficos", "dantescos". Parêntesis: convém referir que estes adjectivos se aplicavam nos anos 80 a fogos que dizimavam poucos milhares de hectares – o maior incêndio até ao ano 2000 destruiu 10 mil hectares –, enquanto agora, por dá cá esta palha, entramos facilmente pelos 20 mil ou mais hectares.

Enfim, sobretudo move-me a necessidade de profissionalizar um sistema para o melhor preparar com melhores bombeiros, melhor preparados e treinados (e de deixar de os ver a descansar "terceiro-mundisticamente" em valetas), para assim também os poder avaliar, para se lhe exigir melhorias e bons resultados. Ora, o modelo actual não está nem bem preparado, nem bem organizado – a distribuição de bombeiros no interior é claramente insuficiente face ao risco – nem quer ser avaliado. Aliás, o lobby da Liga dos Bombeiros Voluntários mostra-se fortíssimo em "extinguir" rapidamente qualquer tentativa de avaliação, como se viu em 2001 com a efémera Comissão Nacional Especializada em Fogos Florestais e, três anos mais tarde, com a fenecida Agência para a Prevenção e Incêndios Florestais.

Costumo dizer que o fogo é indiferente ao tipo de "heróis", e que os nossos bombeiros voluntários, neste status quo, nos têm levado de derrota em derrota até à derrota final. É uma evidência estatística, indesmentível. Por exemplo, este ano, segundo dados do EFFIS, dos 55 incêndios em Portugal que ultrapassaram os 100 hectares, 15 (27%) acabaram por suplantar os mil hectares e 11 (20%) ultrapassaram os dois mil hectares, com dois a subirem bem acima dos 20 mil hectares. Em comparação com o segundo país europeu que mais arde (Espanha), estamos escandalosamente piores. Os nossos vizinhos, apenas viram quatro (9% do total de fogos com mais de 100 hectares) a galgar os mil hectares e apenas um (2%) a subir acima dos dois mil hectares.

As estatísticas de um ano podem ser enganadoras se estivermos perante algo pontual. No caso português sabemos que não é. Em todos os maus anos – e são muitos – há sempre um pequeno punhado de incêndios – quase sempre menos de 1% - que destroem por vezes mais de 90% da área total. Não é só azar, é também muita aselhice. Tal como o drama de Pedrógão Grande não foi um azar, foi uma consequência. Aliás – e recorrendo-se às imagens georreferenciadas do EFFIS –, o incêndio da Sertã – que já lavra por Mação e Proença, ameaçando ser o pior de sempre – parece ser um caso paradigmático de aselhice: nas primeiras horas após a ignição, ainda com pequena dimensão, e portanto controlável, o fogo conseguiu quase o impossível: progredindo pela encosta abaixo, atravessou a IC8 em zona de vale, com três faixas de rodagem, perto de uma praia fluvial, com abundante água. Tendo feito isto, chegou ao "barril de pólvora" (zona sobretudo de pinhal contínuo), tornando-se incontrolável. Ou seja, não houve aqui azar nenhum… As operações de combate deste incêndio serão avaliadas de forma independente e com rigor? E se houver conclusões, servirão para alguma coisa?   

Engenheiro biofísico

Autor do livro Portugal: O Vermelho e o Negro (2006)