Um capítulo da história latino-americana para ilustrar a desumanização global

E pensávamos que eram imortais é o exercício final da ESAP, com encenação de Roberto Merino, a partir de Osvaldo Dragún. Está em cena até quinta-feira no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto.

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Paulo Pimenta
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Um vendedor de rua que não pode trabalhar porque tem um abcesso; um funcionário da Corporação Transatlântica de Carnes que potencia a exportação da carne de ratazana e se culpabiliza pela peste bubónica; um senhor que implora por trabalho numa fábrica e acaba a ocupar o posto do cão do vigilante. Três histórias que se cruzam em palco até esta quinta-feira no espectáculo E pensávamos que eram imortais, o exercício final do curso de Teatro da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), que conta com encenação de Roberto Merino a partir do mais célebre texto do dramaturgo argentino Osvaldo Dragún, Histórias para Serem Contadas, e faz parte da iniciativa As Escolas de Teatro no Teatro Nacional São João (TNSJ).

“Todas as personagens são extremamente frágeis na sua juventude. São jovens que não têm emprego, vivem de expedientes e vão perdendo as suas identidades no elemento voraz da grande cidade”, começa por explicar Roberto Merino, notando que este é um texto “muito actual”.

Ao longo da hora em que decorre a trama, estamos na Buenos Aires da ditadura militar argentina, conhecida como Proceso de Reorganización Nacional (1976-1983), e os três relatos que são aparentemente inusitados servem de trampolim para falar ao público de problemas sociais como o desemprego, a pobreza, a fome, a injustiça ou a exploração. “A temática é profundíssima, mesmo nos dias de hoje, nomeadamente a desumanização a que estamos sempre sujeitos”, sublinha Paulo Alexandre Jorge, que assume a direcção musical da peça.

Perante o anúncio de que o poder foi tomado pelos militares, os jovens vasculham desenfreadamente os jornais à procura de novidades sobre o conflito, os presos desaparecidos ou as oportunidades que restam num país submetido à opressão e à censura. Vemo-la retratada no vendedor de rua que, mesmo penhorando vários bens, não consegue ter dinheiro para o tratamento médico, na alimentação de uma família numerosa que se cinge ao feijão, ou do senhor que aceita emprego como cão de guarda na esperança de vir a ocupar outro cargo. “[Osvaldo Dragún] é um autor que faz parte do teatro épico latino-americano e é, a par do colombiano Enrique Buenaventura, o mais importante autor brechtiano da América Latina”, explica Roberto Merino.

Osvaldo Dragún (1929-1999) foi um dos promotores do Teatro Abierto, um movimento de reacção cultural criado em 1981 contra a ditadura militar e a persistente violação dos direitos humanos na Argentina. Dele faziam parte nomes como os actores Jorge Rivera López e Pepe Soriano, ou o arquitecto e activista Adolfo Pérez Esquivel, recém-nomeado Nobel da Paz. “O teatro é uma arte filosófica e por definição obriga-nos a pensar sobre a realidade, os problemas, as relações humanas e a sociedade”, descreve o encenador, reiterando que esta expressão artística “é mais urgente ou proeminente quando as situações sociais são mais graves e aí chega a adoptar posições muito duras que são muitas vezes criticadas e censuradas.”

Mais do que actores, criadores de teatro

A cenografia minimalista da peça E pensávamos que eram imortais redobra a responsabilidade da interpretação dos sete finalistas em palco, e a evocação da grande cidade sul-americana é confiada ao trabalho do ensemble orientado por Paulo Alexandre Jorge. “Em termos de dramaturgia musical, a escolha também recaiu sobre um intérprete argentino que foi, ele próprio, vítima da ditadura, e que foi profundamente incompreendido por pessoas que ele defendia, Astor Piazzolla”, refere, notando que “toda a gente [que está aqui a fazer música para teatro] tem que ler a peça e perceber o que está por trás dela”.

Ao longo do curso, os alunos da ESAP vão fazendo diversas mostras públicas do seu trabalho, mas Ricardo Regalado refere que esta é a derradeira “concretização de três anos de sonho”. “É verdade que nós trabalhamos muito toda a técnica e a teoria, mas o que dá vida a um actor é o público e o palco”, realça. O aluno, que foi também responsável pelos figurinos do espectáculo, destaca o método de Roberto Merino em “criar não só actores, mas criadores de teatro que não podem ficar-se só pela representação ou pela encenação – nesse sentido, está sempre aberto a tudo”.

Ricardo acumulou duas tarefas dentro e fora do palco e, em conjunto com a turma, optou por fatos simples e monocromáticos com o detalhe das mangas arregaçadas, já que a acção decorre em “cidades quentes e populosas, onde não há muita ostentação”. O aluno descreve o último exercício do curso como "um processo de aprendizagem que permite ver que o teatro parte mesmo do nada”.

Esta é a segunda parte da iniciativa As Escolas de Teatro no TNSJ, que nos últimos anos tem vindo a fazer a ponte entre as escolas artísticas do Porto e as salas onde os novos intérpretes podem dar o salto para o mundo real. “Este apoio das estruturas nacionais no processo de criação é fundamental para que os alunos cresçam também em ambiente de exigência profissional”, conclui Paulo Alexandre Jorge.