A América ainda é um sonho para Lana Del Rey

Deixou as más companhias e não ficou indiferente a Donald Trump. Chegada ao quinto álbum, nunca Lana Del Rey soou tão consciente de um mundo perigoso – e feliz.

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A consciência dos mecanismos e perigos da fama e a fixação com o ”live fast, die young” nunca largaram Lana Del Rey, nascida Elizabeth Grant, desde que, em 2011, saiu do anonimato

Não é fácil ser Lana Del Rey. Eis como ela descreve aquilo de que são capazes alguns fãs. “Alguém roubou os meus dois carros. Todas essas merdas assustadoras. Sem dúvida que houve pessoas que entraram em minha casa e eu estava lá dentro sem saber que elas estavam lá. Chamei a polícia. Fechei a porta”, contou este mês à Pitchfork numa entrevista que fez questão de gravar no seu smartphone, não fosse o jornalista citá-la de uma forma que ela considerasse abusiva. Em 2014, o The Guardian titulou assim uma entrevista à norte-americana: “I wish I was dead already”. Gostava de já estar morta, assim, sem meias medidas.

Lana diria que a frase, proferida numa conversa que passara por Amy Winehouse e Kurt Cobain, tinha sido dita ao jornalista em jeito de desabafo, fruto do cansaço acumulado de um ano na estrada, mas aquela não foi a primeira vez que falara da morte de uma forma tão descarada. Basta lembrar o título de Born to Die (2012), o álbum em que confirmou o hype e se tornou um fenómeno.

Esta consciência dos mecanismos e perigos da fama e a fixação com o “live fast, die young” nunca largaram Lana Del Rey, nascida Elizabeth Grant, desde que, em 2011, saiu do anonimato. Fê-lo com Video games, cujo vídeo mostrava skaters, polícias, palmeiras, a bandeira da América, símbolos de Hollywood e da indústria do desejo – tudo a Super 8, construindo um passado mítico, uma América plena de símbolos. Na curta-metragem Tropico (2013), partilha o Jardim do Éden com John Wayne, Elvis, Marylin Monroe e Jesus. Na sua música, pop orquestral pintalgada pelos ritmos e técnicas de produção do hip-hop contemporâneo, Lana quis pôr todas as histórias, arquétipos e mitos de Hollywood, todas as divas e todos os bad boys, motoqueiros e gangsters que com elas se cruzam.

Esse desejo dividiu o mundo pop em dois campos: os que viam nela o regresso da pop às narrativas clássicas e os que só descortinavam o artifício e efeitos negativos de uma arte pouco interessada em mudar o mundo. Lana foi alvo de ensaios, alguns deles demolidores, e de muitas críticas: o que fazia era puro regurgitar capitalista, vazio de autenticidade; as mulheres das suas canções submetiam-se aos homens; na sua ânsia de fama, até aumentara os lábios.

Em 2014, como se quisesse levar a polémica às últimas consequências, citou as Crystals e pôs um “He hit me and it felt like a kiss” em Ultraviolence, a canção homónima do álbum que lançou naquele ano. Hoje, não consegue cantar aquele verso que muitos leram como uma desvalorização da violência conjugal. “Ter alguém agressivo numa relação era o único tipo de relação que eu conhecia”, confessou este mês à Pitchfork.

Olhar à volta

Lust for Life, o quinto álbum de Lana Del Rey, mostra a cantora, hoje com 32 anos, num sítio diferente do que aquele em que estava quando começou a fazê-lo no seu estúdio em Santa Monica, Califórnia. Percebemo-lo logo no título do disco, comunicação de um desejo de viver que é o reverso de Born to Die e Ultraviolence, e na capa, que exibe uma fotografia da cantora, toda ela sorriso largo, em frente a uma carrinha clássica (parece uma projecção de uma América rural idílica, fora deste tempo).

“Tive algumas pessoas na minha vida que fizeram de mim pior pessoa”, disse à mesma revista online. “Passei toda a vida a aceitar pessoas loucas. Pensava que todos mereciam uma hipótese, mas não merecem. Por vezes, tens simplesmente que sair de cena sem dizer nada.”

Chama-lhe um “compromisso”, palavra que usa também em Get free, que fecha o disco. “I never really noticed that I had to decide/ To play someone's game or live my own life”, canta nesta canção, que se cola perigosamente a Creep dos Radiohead (mais uma das múltiplas referências e citações, uma tradição Lana Del Rey). Disse à New Music Express: “Quando comecei o disco, senti de alguma forma que estaria numa zona inteiramente nova quando estivesse tudo pronto, um espaço inteiramente novo. Estou muito orgulhosa por haver uma mudança no tom, na perspectiva. Há um reflexo daquilo que estou a ver, que se integra com aquilo que estou a sentir.”

Nunca Lana pareceu olhar tanto à sua volta. Love, que é mínima e majestática ao mesmo tempo, sem contra-senso, abre o disco com um comentário sobre a indústria da nostalgia, que ela alimenta (“Look at you kids with your vintage music/ Comin' through satellites while cruisin'/ You're part of the past, but now you're the future”). Um trio de canções seguidas reforça a suspeita: em Coachella – Woodstock in My Mind (trap sonâmbulo, em câmara lenta), Lana dá por si no festival californiano, mas preocupada com o que o mundo exterior vai fazer àquelas “crianças” que ali assistem a concertos; no tema seguinte, God bless America – and all beautiful women in it – uma canção que começa folk e transforma-se nas mãos de Metro Boomin, requisitado produtor de hip-hop que aqui opta por discretas programações – defende os direitos das mulheres na era de Donald Trump (“May you stand proud and strong/ Like Lady Liberty shining all night long”), a milhas da Lana que escandalizou quando disse não apreciar o feminismo; e When the world was at war we kept dancing, que hesitou em pôr no disco por não se sentir “confortável” ao cantar palavras tão duras, assume o confronto com o incumbente: “Is it the end of an era?/ Is it the end of America?”. Há redenção na resposta: “No, it's only the beginning/ If we hold on to hope, we'll have a happy ending”.

“Nos últimos dois anos passei a editar a linguagem de algumas canções, tendo em conta a paisagem política, [porque] não quero ser parte de nada que contribua para essa negatividade”, revelou numa conversa com Stevie Nicks, a voz dos Fleetwood Mac, convidada deste disco, publicada na V Magazine.

Fantasia e realidade

Lana muda a perspectiva, mas a música desenvolve a linha com que se apresentou a um público maior, em Born to Die, depois de várias tentativas com outros nomes (ela foi Lizzy Grant, Lana Del Ray e May Jailer). Ironicamente, para alguém acusada com tanta frequência de falta de autenticidade, Lana construiu uma linguagem sua e sem rupturas a cada álbum. As canções têm a sua voz, ora trágica, ora sensualmente aborrecida, como centro gravítico, mas são produto de cuidados labores de estúdio, realçando melodias de ambição orquestral com técnicas modernas do hip-hop mais digital. É por isso natural que A$AP Rocky, velho cúmplice, e Playboi Carti sejam convocados para pôr rap e Auto-Tune no tédio estilizado de Summer bummer.

Naquele que é o primeiro disco de Lana com vozes convidadas, destacam-se algumas participações. Lust for life, a canção, inspira-se em Peg Entwistle, actriz que se suicidou saltando do “H” do letreiro “Hollywood”, frustrada com a sua carreira no cinema, mas o resultado é perversamente triunfante: uma balada ao retardador, pop impecavelmente desenhada para as vozes doridas e carnais de Lana e The Weeknd. Beautiful people, beautiful problems tem Stevie Nicks gloriosamente envelhecida e com o grão na voz que a canção lenta e bafejada pelo sol da Califórnia pede. Sean Ono Lennon, filho de John e Yoko, co-assina Tomorrow never came, que lembra os Beatles e celebra-se a si própria (“‘Isn't life crazy?’, I said now that I'm singing with Sean/ Whoa”, canta Lana).

Em 2009, ainda como Lizzy Grant, disse ao Huffington Post: “Deixo, sobretudo, a imaginação ser a minha realidade. A fantasia é a minha realidade.” Fast-forward para 2017: Lana criou o seu mundo e está “orgulhosa”. “Estou orgulhosa da forma como pus partes da minha história em canções de formas que só eu compreendo. A minha bitola do que é bom é apenas o que eu penso”, disse à Pitchfork. “A minha opinião é mesmo importante para mim. Tudo começa e acaba aí.”