Crítica

Lady Macbeth: filme bisonho

O filme de William Oldroyd, Lady Macbeth, não tem outra coisa a propor que não uma leitura estereotipada - de questões de género, de questões de classe, de questões de raça.

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Se, nas primeiras cenas, a protagonista, “comprada” pelo marido e tratada como uma propriedade, é uma “vítima”, o arco de Lady Macbeth é o da sua passagem a “culpada”: se pude fugir da sua condição de vítima de género (mero apêndice do marido no meio da pequena aristocracia rural britânica do século XIX), revoltando-se, não pode fugir da sua culpabilidade “de classe”, sobretudo a partir do momento em que toma o lugar (e o poder) do marido.

O bisonho filme de William Oldroyd não tem outra coisa a propor que não esta leitura estereotipada (de questões de género, de questões de classe, e ainda, de modo inusitado para retratos do lugar e da época, questões de raça) que desumaniza as personagens (quase fascinante, o desprezo que o filme tem com elas todas) para as tornar veículos de ideias, conceitos ambulantes.

Como pode o espectador de boa consciência, em pleno século XXI, recusar um filme que lida (ou cria a ilusão de lidar) com assuntos tão prementes na reflexão sociopolítica du jour? Se se conseguir ficar imune a essa intimidação, verificar-se-á facilmente que o filme, tirando isso, nada mais tem a propor: nem invenção melodramática, nem sátira social, nem o delírio de um amour fou (pensando no que esta história, que por acaso é russa na origem, poderia ter dado nas mãos de um especialista em miscigenações de classe entre senhores e criadagem como era, por exemplo, o Buñuel mexicano).

Nem sequer a ordinarice noir de qualquer coisa à la James M. Cain. Apenas os modos de um tele-teatro de luxo, temperado com uma crueldade misantrópica (bastante desonesta) que Oldroyd, há uma cena com almofadas que o sugere fortemente, gostaria que fizesse invocar a “frieza” de Michael Haneke.