Chris Froome está mais perto de ficar sozinho no topo da história

Ciclista britânico venceu a Volta a França em bicicleta pela quarta vez. Mais um triunfo e igual o quarteto dos pentacampeões, mais dois e passa a ser o mais vitorioso de sempre no Tour.

Froome foi a beber champanhe até Paris
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Froome foi a beber champanhe até Paris REUTERS/Benoit Tessier

Desde que Lance Armstrong foi expurgado da história da Volta a França por causa do doping, os recordes do Tour voltaram a ser um livro aberto e há um homem que se prepara para ficar com eles. Chris Froome, ciclista britânico nascido no Quénia, chegou neste domingo a Paris com a camisola amarela vestida pelo terceiro ano consecutivo e pela quarta vez na sua carreira. O homem da Sky deixou para trás os tricampeões do Tour (Thys, Bobet e LeMond) e ficou a apenas um triunfo de se juntar ao grupo dos pentacampeões (Anquetil, Merckx, Hinault e Induraín). Se ganhar mais duas vezes (e está garantido como chefe-de-fila da Sky por mais dois anos), o britânico de 32 anos ficará sozinho no topo da história.

Não foi um triunfo sem percalços e emoção pelo meio. A vitória no Tour 2017 foi aquela em que Froome menos tempo de vantagem teve em relação ao segundo classificado, 54 segundos para o colombiano Rigoberto Urán (Cannondale), e a primeira vez em que o britânico perdeu a camisola amarela durante a prova — mas Fabio Aru (Astana) só conseguiu ser líder durante dois dias. Entre os ataques do pelotão e alguns indícios de revolta interna (Mikel Landa mostrou pernas para andar na frente), Froome não caiu e teve uma equipa bem sincronizada a trabalhar para ele, de Landa (que foi quarto, falhando o pódio por um segundo) a Luke Rowe (167.º e último da geral).

Este foi, então, mais um ano em que a concorrência não conseguiu desafiar com sucesso a Sky, que tem o maior orçamento do pelotão internacional. Esta foi também a quinta vitória britânica em seis anos, uma de Wiggins e quatro de Froome — Nibali ganhou em 2014, ano em que Froome desistiu à quinta etapa devido a quedas sucessivas.

Em 2018, Froome irá pedalar para se juntar aos quatro que estão no topo da lista dos recordes. “É uma honra ter o meu nome na mesma frase que esses quatro nomes”, acrescentou Froome, que não ganhou uma única etapa no Tour 2017. A última da prova era para os sprinters, e, sem Kittel, Cavendish e Sagan, o holandês Dylan Groenewegen (Lotto NL) foi o mais forte nos Campos Elísios.

Sem uma equipa como a Sky, conseguiria Froome ser o dominador do Tour de uma forma tão consistente? Talvez não. Por mais superlativo que seja em todos os domínios, Froome seria sempre um alvo para toda a concorrência e vulnerável se não tivesse, por exemplo, um Michal Kiatkowski (antigo campeão mundial de estrada) a dar a roda da sua própria bicicleta quando Froome precisava, ou um Landa (provavelmente a contragosto) a ficar com ele quando foi realmente preciso. Claro que, por vezes, é ele que assume a luta e, quando fica sozinho na montanha, é quase imbatível. E nada simboliza tanto o seu espírito competitivo como aquela vez, em 2016, em que, após uma queda no Mont Ventoux, com a bicicleta inutilizada e com o carro de apoio ainda longe, Froome desatou a correr montanha acima.

Mas nem sempre foi assim. Há 11 anos, no início de carreira, era ele e apenas ele. É um episódio que Froome conta na autobiografia publicada em 2016, “The Climb” (“A Escalada”), do tempo em que era um jovem ciclista queniano (nasceu em Nairobi) a tentar arranjar uma equipa na Europa. Em 2006, Froome andava a mandar currículos, mas as respostas pediam sempre experiência nas estradas europeias.

O seu plano era ir aos Mundiais de estrada na Áustria, mas precisava de autorização da federação queniana e Froome, convencido que não a iria ter, roubou a palavra passe do email do presidente da federação e, ele próprio, enviou a sua inscrição. Nesses Mundiais, Froome estava sozinho, sem treinador, apenas ele e duas bicicletas. Ficou na pensão mais barata da cidade, perdeu-se no meio da tempestade, e, nos primeiros metros da prova de contra-relógio de sub-23, chocou com um juiz carregado de papéis e caiu. Ganhou a primeira alcunha, “Crash” Froome. Podia ter acabado tudo aqui, mas Froome levantou-se e continuou a pedalar.