Opinião

O medo prendeu a coragem

Como podem umas pernas e um cabelo solto ao vento desestabilizar um país tão rico e poderoso?

O que faz o reino da Arábia Saudita obrigar as mulheres a taparem o corpo desde os cabelos aos pés? O que explica esta obsessão? Este medo de umas pernas? Este medo de uns cabelos soltos? Este pavor? É difícil apreender o verdadeiro significado.

Sabemos que um poder ditatorial se impõe pelo medo e pela repressão. Sabemos que, nesta cadeia de medos, todos devem ter medo de todos, menos os que estão no topo da hierarquia social, que apenas devem ter medo dos familiares da realeza que os podem derrubar. Ou do imenso povo que tiranizam.

O medo está na rua, na vila, no deserto, na cidade. A sinalizar o medo está o polícia da virtude, aquele que obedece a quem manda fazer do medo um modo de viver. O medo pode ser tão grande, tão grande que lhe seja possível impor aos cidadãos abrir a porta aos polícias da virtude. O medo pode ser tão diabolicamente pavoroso que impeça a mulher violada de se queixar da violação, dado poder ser condenada por ter relações sexuais fora do casamento e porventura ser punida com uma pena duríssima.

O medo nasceu para fazer medo aos que vivem nos reinos do medo. O medo só faz sentido se ultrapassar o próprio medo à polícia e se instalar na geografia desenhada por esse poder. O medo é desconcertante porque, embora permita respirar, quase sufoca quem dele padeça.

O medo também tem medo. O medo é humano e há medos que nos fazem bem, há os que fazem mal e há ainda aqueles medos que nos tornam ridículos (os medos inexplicáveis). A geografia do medo está presente em todo o lado e não para diante de qualquer morfologia.

Voltando à dificuldade em apreender a obsessão dos monarcas sauditas por interditar qualquer visão do corpo das mulheres (pernas ou cabelos, o que quer que seja), alguma explicação tem de haver. A detenção e posterior libertação da jovem Khulood por vestir mini-saia e deixar os cabelos soltos ao vento é de tal modo violenta que nos obriga a ir ao fundo da nossa qualidade de seres humanos e fazer a seguinte pergunta: porquê? Como podem umas pernas e um cabelo solto ao vento desestabilizar um país tão rico e poderoso, tanto económica como militarmente, como é a Arábia Saudita, a ponto de as autoridades ordenarem a detenção da jovem?

Dias antes da prisão, o ministro da Educação aprovou um decreto-lei que permite às raparigas adolescentes fazer exercício físico nalguns estabelecimentos de ensino, cerca de 44%. Em 2017, ao cabo de séculos de pregresso, o medo terminou para as raparigas que queriam fazer ginástica. O medo que experimentávamos no quarto escuro ou na escuridão da noite era próprio da nossa infância.

As ditaduras não querem pessoas adultas, mas gente cercada de medos. Se alguém perde o medo e veste uma saia curta e lança os cabelos ao vento, o medo corre a cercar os que o impõem. A maldade e a perversão que reside nas almas de quem impõe às mulheres a obrigação de tapar o corpo aflige-se quando uma rapariga os desafia. Um simples vídeo e o medo instala-se nos mandarins. Têm medo e, por medo do exemplo, prendem a coragem. E fica de um lado o medo, e do outro a coragem.

Parece que na Arábia Saudita o medo é mais forte que a coragem. Pois parece. Mas nem de tudo o que parece se faz o que há-de ser. O que será a vida naquele país faz-se de coragem, de muitas pequenas coragens. Tantas que hão-de ser suficientes para vencer o medo.

E aquilo que parecia uma montanha esboroa-se, porque quem tem medo de pernas ao sol e cabelos ao vento tem muito mais medo que o medo das raparigas em mostrar o corpo.