Morreu o assassino de Pasolini

Pino Pelosi desaparece aos 59 anos, sem revelar as circunstâncias da morte do realizador e escritor italiano.

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Pier Paolo Pasolini foi assassinado quando tinha 53 anos DR

Giuseppe “Pino” Pelosi, o homem que foi condenado como responsável pela morte de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), morreu na noite de quarta para quinta-feira, num hospital de Roma. Tinha 59 anos, padecia de cancro e nos últimos anos tinha regressado ao anonimato que era o seu antes de, a 2 de Novembro de 1975, ter assassinado – ou participado no assassínio –, com requintes de violência e malvadez, o realizador de Salò ou Os 120 Dias de Sodoma, junto à praia de Ostia, a 30 quilómetros da capital italiana.

O desaparecimento de Pino Pelosi parece deitar definitivamente por terra a possibilidade de se fazer luz sobre o que verdadeiramente aconteceu nessa noite de 1 para 2 de Novembro há já 41 anos, quando Pasolini convidou esse rapaz do lúmpen romano, de 17 anos, para um encontro que incluiu um jantar e um passeio à praia (caso que Abel Ferrara já levou ao grande ecrã). Na manhã seguinte, o corpo do realizador e escritor, uma referência e simultaneamente uma figura incómoda na cena cultural do país, foi descoberto em tal estado que a mulher que o descobriu chegou a pensar tratar-se de... lixo! Depois de espancado barbaramente, o(s) autor(es) do crime tinham passado com o seu próprio carro – um Alfa Romeo prateado – sobre o corpo.

Após investigação judicial, Pino Pelosi foi incriminado, julgado e condenado a nove anos e sete meses de prisão. A sentença inicial – lembra agora o jornal francês Le Figaro – referia a sua responsabilidade na morte de Pasolini “em conjunto com desconhecidos”. E a imprensa italiana sempre associou o caso a motivações políticas para a “execução” do realizador, um intelectual marxista atípico, homossexual, e particularmente subversivo, tanto no que escrevia como no que filmava, além da forma como vivia.  

Enquanto esteve preso – até Julho de 1983, quando, com 25 anos, saiu em liberdade condicional –, Pino Pelosi nunca acusou nem nomeou mais ninguém. Mas já em liberdade desmultiplicou-se em entrevistas e relatos – e assinou mesmo uma autobiografia –, em que fez alusão à presença de outros intervenientes no assassinato, e chegou mesmo a negar o seu envolvimento nele.

“Pino Pelosi nunca quis contribuir para a efectiva reconstituição da verdade sobre a morte de Pasolini” comentou agora Nino Marazzita, advogado da família do realizador, citado pela agência de notícias italiana AGI. “Infelizmente, ele levou consigo os segredos que só ele sabia”, acrescentou o advogado

Nos anos seguintes à sua libertação, Pino Pelosi voltou a ser preso por várias vezes, por outros delitos. Nos últimos anos, era sócio do proprietário de um bar no bairro romano de Testaccio.

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