Paulo Pimenta
Foto
Paulo Pimenta

Rancho, arroz de cabidela e punk do poço para ser visto na fila da frente

No dia 1 do Milhões de Festa, o segundo depois do dia 0, foi o punk que levou o caos ao palco onde a música se ouve ao mesmo tempo que se aposta numa “tainada”

Que cenário de caos é aquele que se encontra mal se entra no recinto do Milhões de Festa? Nem meia-hora passou, depois de uns mergulhos na piscina, ou de uma sesta na relva, ao som dos relaxados Orchestra of Spheres, e, de repente, há uma espécie de batalha campal a desestabilizar o sossego de quem só procura uma mesa à sombra para uma refeição ligeira à moda do Minho.

No menu há rancho, arroz de cabidela, rojões e, para acompanhar, uma chapada de punk, desenterrado da parte mais escondida do fundo do poço, servido pelos SystemiK Violence e pelos VAI-TE FODER, no palco Taina, no primeiro dia “a sério” do festival que celebra a décima edição.

Iggy Musäshi, vocalista dos Systemik Violence, com a cara tapada, está decidido a ocupar toda a área que, por direito, pertence ao público. Se não há espaço para passar, abre caminho. Há quem não ceda e finque pé. Não é por isso que não tenta varrer quem se atravessa à frente. Está instalada a desordem. Copos no ar, troca de mimos entre banda e público e muita adrenalina. Tudo consensual nesta desordem (des)controlada em pleno arraial minhoto montado pela organização do Milhões.

PÚBLICO -
Foto

Vão-se juntando mais curiosos para testemunhar o que só saberiam que aconteceu se lhes fosse contado. Desça-se Barcelos abaixo que a meia-hora de set passa rápido. Quem não viu, tivesse visto, ou aproveite que a seguir há mais punk no Taina, feito do mesmo material crust que acabou de ser entregue. Fora de recinto, poucos metros mais acima, há outra opção para quem quer matar a fome. É a Festa da Francesinha. Dizem-nos que todos os anos decorre por altura do Milhões. Também há música.

PÚBLICO -
Foto

Está o palco montado para receber um artista local que canta com a ajuda do instrumental guardado num aparelho de som. Se calhar o melhor é voltar para baixo que os VAI-TE FODER já têm os instrumentos ligados aos amplificadores. Sai um rancho no prato e punk de Braga made in 2003 nos amplificadores. Estão a promover o álbum lançado este ano, Poço, e a revisitar o passado.

Trinta minutos são suficientes para dar a volta à discografia composta por mais um disco e uma tape. Os bracarenses são uma locomotiva puxada por dois vocalistas: Paulo e Patife. As músicas saem umas atrás das outras. Degredo, Inútil ou Nascido para odiar alimentam a máquina que só pára terminado o combustível.

Serve o palco Taina para este tipo de encontros que reflectem o lado eclético do festival. Antes tinham lá estado os kraut rockers TAU e os stoners Blown Out.

Nunca o punk fez tanto sentido

Já a horas adiantadas da noite encontramos Teta, baixista dos VAI-TE FODER, que também responde por Tony Crust ou simplesmente por Carlos. Diz-nos que no Milhões sempre “couberam” todos os géneros de música. O punk, “quase sempre de fora de muitos festivais de Verão”, tem, e “sempre teve”, lugar em Barcelos, cidade que diz não poder ser esquecida quando se fala deste subgénero do rock.

“Nos últimos cinco anos, o Xispes foi uma segunda casa para o punk”, recorda. O bar que ficava do outro lado do rio, em Barcelinhos, conhecido também pelos panados gigantes, encerrou no ano passado, tendo, considera, deixado um vazio no que toca a espaços para concertos deste estilo em particular. Continua o Milhões a ter um papel fundamental para o encontro de diversos géneros musicais, nunca se esquecendo de convocar bandas saídas de várias “cenas”: “Aqui sempre se quebrou fronteiras. Tanto se pode ouvir kuduru misturado com rock, sludge, punk ou um gajo a fazer música com um gameboy”.

É também o Milhões punk rock? “Se isto não é punk, então não sei o que é”, assegura. Teta sabe que o nome da banda não facilita a entrada nalguns circuitos. “Ainda continuamos a ser censurados por causa do nome”, diz. “É um nome agressivo, uma espécie de manifesto contra o mundo. No entanto, se nos chamássemos Fuck You já não havia problema nenhum”. Já mais do que uma vez terá acontecido na rádio, conta-nos, estarem a divulgar um cartaz do qual fazem parte e quando chega a altura de dizerem o nome do grupo chamarem-lhes apenas “uma banda portuguesa”.

É um risco assumido por uma banda que não quer ser politicamente correcta, como “o punk deve ser”. E que sentido faz uma banda punk em 2017? “Há um apresentador de um reality show que se tornou presidente, a xenofobia cresce, nunca fez tanto sentido ser punk. Acredito que a maior parte da população deveria ser um bocadinho mais punk a nível de contestação”.

Música é para ser vista na fila da frente

A ver o concerto dos VAI-TE FODER estava Adolfo Luxúria Canibal, conterrâneo, vocalista dos Mão Morta. A banda participou no quarto volume da colectânea À Sombra de Deus, da responsabilidade de Adolfo, cujo primeiro lançamento data de 1988. É uma das muitas bandas que diz terem surgido em Braga “sobretudo a partir dos anos 2000”, altura em que o cenário musical se tornou “cada vez mais prolífero”.

Apesar do número crescente de bandas que surgiram nos últimos anos, “curiosamente”, diz não se dar tanto destaque à cena bracarense: “Hoje, há muito mais bandas do que nos anos 80 e, na altura, dava-se mais destaque ao que se passava em Braga do que hoje”.

Adolfo continua a ter curiosidade para conhecer novas bandas e é ao vivo que gosta de o fazer. Os VAI-TE FODER diz ser a melhor banda nacional que conhece dentro do género, “que não tem muitos adeptos em Portugal”. “Já não os via há um ano. Evoluíram imenso”, constata. É na fila da frente que o líder dos Mão Morta continua a querer estar quando as bandas tocam. “Gosto do som e de sentir o ambiente das primeiras filas. Ver um concerto à distância é como estar a ver pela televisão. Ao fim de cinco minutos estou a bocejar e vou-me embora”, diz. L´à frente o som é-lhe é mais familiar, “quase como se fosse de palco”. Continua a ser “excitante” para o vocalista: “É o som que estou habituado a ouvir. É ali, onde os fãs se juntam e andam aos saltos, que se sente melhor o ambiente”.

Sugerir correcção