Arroios vê a sua população rejuvenescer graças a imigrantes

Na freguesia lisboeta são cada vez mais as casas sem moradores permanentes, sintoma comum ao centro da capital, alerta estudo do Instituto Superior Técnico realizado em colaboração com a junta.

Apesar do rejuvenescimento conseguido com os imigrantes, a freguesia pode vir a perder três mil habitantes até 2021, se não forem criadas condições para a atracção de novos moradores
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Apesar do rejuvenescimento conseguido com os imigrantes, a freguesia pode vir a perder três mil habitantes até 2021, se não forem criadas condições para a atracção de novos moradores Miguel Manso

Só na freguesia de Arroios residem mais de 45% dos estrangeiros de Lisboa. Eram 9513 pessoas em 2011, na maioria brasileiros, angolanos e chineses, representando 30% dos habitantes da freguesia. Ao que tudo indica o cenário é diferente agora, seis anos depois do último recenseamento: os imigrantes deixaram de ser tão representativos na população da freguesia (13%) e, a seguir ao Brasil, é o Nepal o grande país de origem, aponta o estudo Conhecer Arroios feito pelo Instituto Superior Técnico (IST), com a Junta de Freguesia de Arroios, e que é apresentado esta sexta-feira.

Ainda que o número de moradores esteja a diminuir – em especial na Pena - há mais uma década, a população de Arroios tem rejuvenescido. Muito à custa da chegada de imigrantes jovens e à saída de idosos. Henrique Silveira Oliveira, professor e matemático no IST, coordenou o estudo e explica: “as pessoas com idade estão a desaparecer das estatísticas sem morrer”. E a razão é simples: não há lares na freguesia, motivo que tem levado uma parte significativa dos idosos ali residentes a mudar para outra zona da cidade.

Outro fenómeno que pode estar na origem do êxodo da terceira idade é, aponta o matemático, o regresso dos reformados “à terra”. Isto explicaria também o aumento das casas devolutas na freguesia. São cada vez mais as casas sem moradores permanentes, sintoma comum ao centro de Lisboa. Uma parte delas é ocupada para alojamento local. “Mas não são todas. Uma parte significativa destas casas é ocupada para residência por pessoas estrangeiras ou portugueses que vêm de fora da cidade”, acrescenta Henrique Silveira Oliveira.

O rejuvenescimento da freguesia, cuja média de idades passou dos 47,01 anos em 2001 para os 45,45 em 2011, deve-se em grande parte “à chegada de imigrantes que, na sua maioria, traz os filhos pequenos”. O que permite aos investigadores concluir que “houve potencialmente um maior número de pessoas a entrar no mercado de trabalho do que a sair do mesmo e este fluxo positivo era superior ao verificado em Lisboa”, lê-se no estudo. E os dados deram uma volta em relação a 2011, quando havia 236 idosos por cada 100 jovens: hoje, aponta o estudo, há 104 idosos por cada 100 jovens.

Contrariar tendências

Arroios é historicamente conhecida pela sua multiculturalidade, alimentada pela chegada de imigrantes com culturas e religiões distintas. Um movimento que se renova. Afinal, cerca de metade dos estrangeiros residentes, vindos de mais de 40 países, mora ali há menos de dez anos.

A freguesia despertou o interesse dos investigadores por ser resultado da junção, em 2012, de “três freguesias que eram díspares dentro de si e entre si”: Anjos, Pena e São Jorge de Arroios. Por razões multiculturais históricas e “devido a políticas públicas de sucesso”, esta multiculturalidade “é vista como um factor positivo pela maioria dos residentes”, aponta Henrique Silveira Oliveira. São 88% os moradores que “valorizam a multiculturalidade”, diz o estudo.

A recolha de dados como este foi feita por 13 jovens, antigos e actuais alunos do IST, que bateram a cerca de oito mil portas, em Abril e Maio deste ano. Conseguiram 1230 inquéritos válidos dos quais se retiraram algumas destas conclusões. O estudo serviu-se ainda dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) dos recenseamentos feitos entre 1991 a 2011.

Um dos aspectos que mais surpreendeu Henrique Silveira Oliveira foi a sensação de segurança dos residentes, em “especial na zona do Intendente e da Pena”: “Os dados destas zonas da batem na média do resto da freguesia, o que é surpreendente porque são zonas associadas a um maior sentimento de insegurança”. Dos 1230 moradores inquiridos, 83% sentem-se seguros na freguesia.

Pela amostra analisada, os investigadores concluíram que apenas cerca de 45% dos moradores são donos da habitação onde vivem. Cerca de 75% dos inquiridos diz-se satisfeito com a qualidade e manutenção das infra-estruturas públicas (nível três em cinco) e 66% reage da mesma forma quando à acessibilidade a cuidados de saúde.

Entre os vários “motivos que a freguesia tem para sorrir”, a presidente da junta, Margarida Martins (PS), destaca a acessibilidade da freguesia, “quer em termos de transportes, quer em termos de rendas de alojamentos”, motivos que, mostra o estudo, mais pesam quando se toma a decisão de viver em Arroios.

Servindo-se de antigos e novos dados, projectaram-se os desafios para a freguesia. “Na pirâmide que projectamos para 2021 olhámos para uma freguesia condenada, dado o índice de substituição de gerações ser tão baixo”, começa por dizer Henrique Silveira Oliveira. As projecções, calculadas através de modelos que contemplam imigrações, apontam para um decréscimo de três mil residentes em 2021, atirando os números para perto dos 30 mil habitantes. Por isso, alerta: “Se não se instituírem vagas de habitação para residentes jovens e famílias, a freguesia vai continuar a perder população”.

A autarca tem esperança no projecto municipal de reabilitação dos prédios da rua de São Lázaro para o programa de renda acessível. A procura de soluções para estes desafios, diz Margarida Martins, vai ser sempre “feito em conjunto com a câmara” e incluem medidas como a criação de mais creches e berçários – o do Jardim de Infância dos Anjos é inaugurado na próxima quinta-feira -, lares de idosos e serviços de cuidado ao domicílio, seguindo os reptos lançados pelo estudo.

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